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31.12.08

60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

É finalmente a transição de uma concepção hobbesiana de soberania concentrada no Estado para uma concepção kantiana de soberania concentrada no cosmopolitismo ético e na cidadania universal. A ética dos direitos humanos é a ética que vê no outro um ser merecedor de igual consideração e profundo respeito, dotado do direito de desenvolver as potencialidades humanas, de forma livre, autônoma e plena. É a ética orientada pela afirmação da dignidade e pela prevenção ao sofrimento humano. Os direitos humanos constituem uma plataforma emancipatória inspirada no princípio da esperança e na capacidade criativa e transformadora de realidades. Só falta agora, -la em prática.

28.12.08

2008: ainda em espírito de monarquia?

Em 4 de março deste ano, foi realizado na mansão de Lily Marinho um grande jantar para se comemorar os duzentos anos da transferência da corte portuguesa para o Brasil. Nessa festa estiveram presentes cento e cinqüenta convidados da alta sociedade brasileira, além do representante da própria família de Bragança, tetraneto do D. Pedro. Foi marcante a ostentação com que o local foi decorado, dos detalhes das velas às flores douradas no jardim, da prataria até os pratos com o brasão da Família Real. "Os grandes banquetes eram assim. Sempre sonhei com uma festa dessas", declarou uma convidada.
Esse jantar pode ser comparado à tradição dos bailes oferecidos pela monarquia no período do Império, em que o luxo e os excessos tinham espaço garantido nas colunas dos jornais. Talvez a mais famosa dessas festas tenha sido o baile da Ilha Fiscal, última festa da monarquia antes da proclamação da República, ocasião em que, segundo relatos não confirmados, D. Pedro II, após um tombo teria dito: "O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu."
Festas em períodos tão distintos, mas com características tão semelhantes, fazem-nos questionar até que ponto a configuração social brasileira mudou desde a tão falada vinda da corte para o Brasil.
Se traçarmos um paralelo, assim como em 1808, quando os brasileiros foram desalojados de suas residências para abrigar os nobres que acabavam de chegar, hoje muitos brasileiros são privados do direito de moradia para outros poucos se abrigarem em condomínios luxuosos. Se as faculdades de engenharia e medicina criadas por D. João tinham exclusividade de acesso aos filhos dos nobres e da oligarquia brasileira, hoje a educação de qualidade ainda é um privilégio das elites. Se D. João mantinha o luxo da corte com favores daqueles que tinham posses e, em troca concedia títulos de nobreza, nossa realidade política mantém a mesma lógica de troca de favores, conchavos e interesses particulares acima dos públicos.
Portanto, neste ano de revisão do significado da chegada da corte portuguesa ao Brasil, não devemos apenas nos preocupar com a questão de ter sido uma fuga, ou estratégia de D. João VI, ou com criação de caricaturas das figuras históricas envolvidas, mas, principalmente, precisamos refletir sobre as conseqüências dessa vinda para nossas relações sociais, no que diz respeito à dependência econômica e à concentração de riquezas nas mãos de uma elite com pompa de corte.

25.12.08

Limitações da concepção

Tenho um amigo (fictício mais típico) chamado Mauricinho que anda perplexo. Ele é um jovem profissional urbano em ascensão, noutro dia me telefonou, agitadíssimo.
'Liga a televisão! Liga a televisão!'
Liguei, no canal que ele mandou, e lá estava um grupo de pessoas enfrentando a polícia para protestar contra a venda da Vale. Algumas até apanhando. Mauricinho queria saber o que era aquilo. Eram malucos?
Não, não, expliquei. Eram pessoas que simplesmente não concordavam com a venda da Vale, estavam indignadas e, por isso, protestavam.
'Mas por quê?', insistiu Mauricinho.
Respirei fundo e comecei a explicar que o assunto era controvertido, que muita gente achava que a privatização da Vale... Mas Mauricinho me interrompeu. Não ligava para o assunto, estava intrigado com as pessoas. Por que elas se comportavam daquele jeito? Eram pagas para enfrentar a polícia?
- Não - respondi - que eu saiba, não.
- O que elas ganham se a Vale não for privatizada?
- Diretamente nada.
O silêncio do outro lado da linha significava que Mauricinho estava pensando. Esperei o fim do processo. Dali a pouco, ele veio.
- Artes marciais! Vira uma oportunidade para treinar artes marciais e...
- Não, Mauricinho. Estavam lá por princípios. Por um ideal.
- Um quê?
- Um ideal. Você também não tem um ideal?
- Tenho.
- E não brigaria por ele?
- Claro.
O ideal do Mauricinho é ter uma BMW antes dos 30. Não tive jeito de explicar ao Mauricinho por que alguém faria tanto esforço por algo menos que uma BMW antes dos trinta. Não podia esperar que ele entendesse, mesmo. Mauricinho tem 25 anos e, em toda a sua vida, foi a primeira vez que viu uma ação desinteressada.

23.12.08

nadadenovo

só enquanto eu respirar, vou me lembrar de vocês. me tornei uma pessoa melhor porque tenho um pouco de cada uma dentro de mim. obrigada por todo esse amor e todos os momentos felizes que nós vivemos juntas por entre camarins e coxias, todos esses anos. espero ter em 2009, minha família de volta. minha segunda casa, nosso cantinho de luz.

18.12.08

além do bem e do mal

A autocomplacência burguesa, os convencionalismos, o hábito de considerar o bem-estar material como razão suficiente de vida, o hábito de se só apreciar a ciência em função de sua utilidade técnica, o ilimitado desejo de poder, a bonomia dos políticos, o fanatismo das ideologias, a aspiração a um nome literário - tudo isso proclama a antifilosofia. E os homens não o percebem porque não se dão conta do que estão fazendo. E permancem inconscientes de que a antifilosofia é uma Filosofia, embora pervertida, que, se aprofunda, engendraria a própria aniquilação da humanidade.
A oposição se traduz em fórmulas como: a Filosofia é demasiado complexa; não a compreendo; está além do meu alcance; não tenho vocação para ela; e, portanto, não me diz respeito. Ora, isso equivale a dizer: é inútil o interesse pelas questões fundamentais da vida; cabe abster-se de pensar no plano geral para mergulhar, através de um trabalho consciencioso, num capítulo qualquer de atividade prática ou intelectual; em coisas supérfluas; quanto ao resto, bastará ter "opiniões" e contentar-se com elas.
A polêmica torna-se encarniçada. Um instinto vital, ignorado de si mesmo, odeia a Filosofia. Ela é perigosa. Se eu a compreendesse, teria de alterar minha vida. Adiquiriria outro estado de espírito, veria as coisas a uma claridade insólita, teria de rever meus juízos. Melhor é não pensar filosoficamente.
O problema crucial é o seguinte: a Filosofia aspira à verdade total, à verdade nas múltiplas significações do ser-verdadeiro segundo os modos do abragente, que o mundo não quer. A Filosofia é, portanto, pertubadora da paz.

15.12.08

Filosofia, eu quero uma pra viver.

Em uma abordagem particular sobre Aristóteles, explico que as virtudes são provenientes de nossas ações, nossos costumes, que são diretamente influenciados pelo meio no qual vivemos. Nos tornamos aquilo que praticamos e praticamos aquilo que praticam ao nosso redor. Já as aptidões naturais são tudo que está inato à existência humana e portanto, não podem ser modificadas nem ensinadas, apenas se manifestam.
Tendo em vista essa diferença, podemos perceber o qüão difícil é a afirmação de um único conceito filosófico, visto que o ponto de vista do mesmo varia radicalmente em cada autor. No existencialismo de Sartre, por exemplo, podemos ver que a questão fundamental é o que fez você de sua vida e ainda sim, que o importante não é o que fazem do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele. Retomando de forma diferente às aptidões e discutindo as virtudes, mesmo milênios depois.
Para Kant, onde deve haver um comando supremo ao homem conhecido como razão que o obrigue a seguir o tal imperativo categórico, as virtudes não fazem-se tão necessárias como em Maquiavel. Arbítrios da filosofia...
A palavra "bom", por exemplo, foi Nietzsche quem procurou demonstrar, em ataque furioso contra o cristianismo, que seu significado teria sido distorcido ou limitado pela cultura cristã. Bom entre os antigos, não apenas significava justo, mas também designava o forte guerreiro. Segundo Nietzsche, o cristianismo não apenas teria negado aos homens a compreensão exata do significado de tal palavra, como também, o que seria muito mais grave e perigoso, desviado o ser humano daquilo que melhor caracterizaria e expressaria sua natureza: o seu espírito guerreiro. Os antigos valorizavam, por exemplo, a guerra, na contramão do cristianismo que se diz pacifista.
É impossível desse modo, formular conceitos filosóficos perenes e universais, incluive para ética e moral. Como dizia Karl Jaspers: 'Eis por que a Filosofia não se transforma em credo. Está em contínua pugna consigo mesma'. E seja para Niestzsche, Popper, Dostoievski, Kant, Schopenhauer e muitos outros, a verdade é um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parece a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias. Triste ilusão.

12.12.08

Uma conversa literária...

Impressionante a evolução literária brasileira - tão quanto pode-se esperar atrelada e influenciada pela portuguesa. Do barroco à literatura contemporânea, não houve sequer uma escola literária que não expressasse de alguma forma modelos e conteúdos da escola anterior - muitas vezes tão criticada - e que já anunciasse o que estaria por vir.
O classicismo resgatando os valores da Antigüidade, o barroco resgatando os medievais, o arcadismo resgatando o classicismo e assim sucessiva e ininterruptamente. A contradição, pensada errôneamente por muitos como característica exclusiva do barroco, fez-se presente ao longo de toda a evolução literária como fator preponderante e responsável por exprimir em uma manifestação artística o constante estado de incerteza humana.
Talvez contradição seja a palavra mais adequada para definir literatura brasileira e portuguesa. Não só no modernismo, em que os modernistas criticavam um sistema no qual os mesmos eram privilegiados ou falavam em buscar uma identidade cultural própria "deglutindo" valores europeus, mas em todas as escolas, em suas épocas e contextos históricos: da subjetividade exarcebada no romantismo à universalidade (muitas vezes forçada) do arcadismo português, da arte pela arte do parnasianismo à crítica direta aos parnasianos pelos modernistas por entre sapos-boi e poemas que abismaram a burguesia paulista no início do século XX. As oscilações entre cristianismo e mitologia grega de Gregório de Mattos não são nada se comparadas à todas as oscilações entre poemas sobre vasos e poemas sociais que mudaram tão drasticamente em apenas alguns anos.
A literatura brasileira foi firmada literalmente aos 'trancos e barrancos', com Gregório sendo indubitavelmente seu precursor (antes disso, ocorriam apenas manifestações) e com o romantismo, consolidando-a. Ainda há quem diga que essa afirmação de uma identidade verdadeiramente nacional veio apenas com o modernismo. Nossa literatura, até então marcadamente influenciada pela portuguesa, veio provar que não é apenas mais uma no contexto mundial.
Nossos Drummond, Vinícius, Castro Alves, Cruz e Souza, Machado e muitos outros, hoje mostram a qualidade dos poetas e escritores brasileiros em discrepância absurda e positiva para com os ingleses, norte-americanos e europeus. Eles vieram mostrar realmente o que é que o Brasil (também) tem: conversa literária. E ponha qualidade nessa conversa.

13.11.08

Ciência e ética - a possibilidade (ou utopia?) da transcedência de um além de nós mesmos.

A ética lida com aquilo que pode ser diferente do que é. O terremoto que aniquila uma comunidade ou a leucemia que destrói a vida de um jovem provocam em nós um sentimento íntimo de revolta, mas não se prestam à condenação moral. São eventos naturais determinados por mecanismos causais inerentes ao mundo físico e que independem por completo da vontade e escolha humanas. Podemos é claro, evitar a construção de cidades em áreas de risco e buscar a cura da leucemia; ou aceitar estoicamente os fatos; ou rezar. Mas seria um absurdo supor que eventos como esses possam ser diferentes do que são.
Completamente distinta, é a nossa relação diante do bombardeio aéreo de civis ou de um atropelamento na porta de uma escola. Ao sentimento de revolta junta-se aqui à desaprovação moral - o juízo ético e a atribuição de responsabilidade (dolosa ou culposa) aos causadores do mal.
Fazemos isso porque acreditamos estar diante de eventos que, de alguma forma, poderiam perfeitamente não ter ocorrido. Em contraste com a ótica estritamente científica dos fenômenos, dentro da qual 'apenas o que acontece é possível', o ponto de vista moral abre uma brecha para a possibilidade de que o mundo como ele é esteja aquém do mundo como ele pode e deve ser. A abordagem ética parte da crença na existência de uma fissura - alguns diriam abismo - separando a realidade humana do potencial humano.
Dentro desta perspectiva, a importância do conhecimento científico dos fatos e de suas inter-relações causais não deve ser subestimanda. Parafraseando a fórmula kantianiana, pode-se afirmar que 'a ética desligada da ciência é vazia; a ciência desligada da ética é cega'. A abordagem ética conseqüente requer, antes de mais nada, uma apreciação objetiva da realidade como ela é, por mais que isso fira nossas preferências subjetivas ou opiniões políticas.
Além disso, há o problema da exeqüibilidade. Muitas vezes sabemos onde estamos e também para onde desejamos ir, mas supondo que os dois lugares sejam isoladamente factíveis, nada garante de antemão que exista uma trajetória alternativa exeqüível ligando os mesmos. A utopia pode estar não na crença do lugar no qual gostaríamos de estar, mas na suposição que a trajetória existe. A arte da travessia requer uma determinação realista do domínio do exeqüível.
A ciência positiva é, portanto, um insumo valioso para a reflexão ética. Mas seria um grave erro acreditar que ela pode responder sozinha pelo produto final. Uma das conquistas mais importantes da filosofia moderna é a tese de que nenhuma quantidade de conhecimento sobre o mundo como ele é pode nos permitir, por si só, dar o passo seguinte e fazer afirmações sobre o mundo como ele deve ser. Mas pode ajudar.

5.11.08

.:. soneto da separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

(Vinícius de Morais)

1.11.08

Little joy!

O óbvio utópico sonho de qualquer fã de Strokes e de Los Hermanos: um trabalho conjunto de um integrante de cada uma dessas bandas. Um dos melhores sons já ouvidos por mim nesses últimos tempos. Uma música indiscutivelmente boa e uma singela forma de matar a saudade,
/myspace.com/littlejoymusic

não tem como não gostar.

28.10.08

suspeitas algemas da liberdade

A falsa impressão ocidental de que a liberdade está ausente da vida das pessoas apenas em países não-democráticos, impede a percepção da realidade a qual nos cerca - câmeras, catracas, muros, carros blindados - pequenas prisões as quais muitas vezes são mais eficientes que a extinta penitenciária do Carandiru e são tão cotidianas que passam desapercebidas.
Se hoje sabemos o que ocorria no Chile de Pinochet é porque, querendo ou não, a máquina repressiva do Estado apresentava falhas. Mas a máquina repressiva do atual estado brasileiro não. É só olhar para as ruas. Depois das onze da noite, elas estão vazias. Nas escuras, motoristas avançam sinais sem nenhum pudor. O medo é maior. Elas não são mais habitadas por crianças brincando. Não dá mais.
Outra prisão intimamente presente na vida dos cidadãos é a eleição. Por mais estranho que isso possa parecer, é só olhar para a História: há 30 anos, não existia o direito de eleger o governante de seu Estado e hoje, 23 anos após o término da ditadura militar, as coisas não mudram tanto assim. Conversando com dez pessoas aleatórias nas ruas, isso pode ser comprovado: o cárcere das pesquisas ou de benefício próprio estará inserido em pelo menos sete delas.
É triste. Mas tudo nos condiciona a sermos limitados. Estamos presos em concepções e conceitos que não foram formulados por nós. Estamos presos em nossas casas, presos por bandidos, presos pela propaganda política - a qual não nos dá nem o direito de refletir de verdade sobre o nosso candidato. Estamos presos pela mídia, a qual nos impõe valores e vontades. Estamos presos em relacionamentos.
Enfim, as prisões do dia-a-dia podem ser percebidas a cada passo, minuto, segundo. Basta querer reparar de verdade. Podem aumentar ou diminuir, de acordo com sua classe social. Mas não adianta fugir. Até o nosso consciente é uma prisão, da qual apenas Freud, conseguiu-se libertar.

27.10.08

mon coucher de soleil

Oh, si je peux pas entendu traiter un autre, qui connaît un oui ou un peut-être, enfin je mérite. Parce que je sais déjà ce que la coopération qui, et que deux des poréns comme, pense bien ou ne le pense pas.
Amulette de l'amour, ce que j'ai fait? Je reste là, presque ignorer lui chuté. Je voulais déposer...
Oh, ne me laissez pas ici, le unflappable fait mal, je le sais. J'ai perdu, mais bon! Je ne pense de vous.

Mon île est perdu là, mon coucher de soleil.

20.10.08

Rodada de quê?

Chineses e indianos não aceitaram renunciar à proteção dos seus mercados internos de produtos agrícolas. Há centenas de milhões de agricultores nesses países. Como poderiam europeus ou americanos apontar um dedo acusador para chineses e indianos?
O acordo, costurado ao longo de dias decisivos, finais e extenuantes em Genebra, era magro, desajeitado e feio. Era um programa mínimo, formulado só para circundar o fracasso da Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), que começou há sete anos com ambiciosas promessas de liberalização do comércio de alimentos. Nada feito. A União Européia e os Estados Unidos, uma vez mais, negaram-se a cortar fundo nos subsídios a seus próprios agricultores. Aí está a causa de fundo do fracasso.
O Brasil passou anos tentando liderar o G-20, o grupo dos "países emergentes", nas negociações multilaterais de comércio. Na última hora, em nome de seus próprios interesses, fechou com a proposta mínima de europeus e americanos. A ruptura do G-20 é prova de que o panorama do comércio mundial não cabe numa equação com uma só incógnita.
União Européia e Estados Unidos não estão mais sós na arena principal do comércio global. A China entrou no jogo como grande protagonista. E as regras mudaram, para sempre.
Sem um acordo geral, é cada um por si. A trégua terminou. Começa a corrida pelos acordos regionais e bilaterais. Tempos de guerra comercial.

[ devo confessar que ando lendo muito José Arbex ]

19.10.08

Democracia: a palavra mágica

As palavras podem ser manejadas à vontade e algumas delas, em particular, são tratadas de maneira extremamente cruel. O termo "democracia" é um bom exemplo. O vocábulo adquiriu dezenas de significados, variando conforme o interesse momentâneo do interlocutor.
Quando duas pessoas dizem a palavra democracia é bastante provável que estejam pensando em conceitos bem distintos. Por isso, a utilização do conceito democracia, para ser clara e útil, demanda especificações que delimitem os seus significados. Esse tipo de cuidado é necessário de maneira geral, com todos os termos referentes ao âmbito da polítca.
Para Silvana Tótora, "na acepção liberal, a democracia vem sendo definida como um conjunto de regras e procedimentos, ou seja, como um método de escolha de governantes em eleições livres através da competição ou do pluralismo partidário. A democracia, conforme o entendimento dessa vertente liberal, circunscreve-se ao âmbito do regime político. Esse conceito 'minimalista' de democracia, vinculado ao nome de Schumpeter, segundo Lamounier, tem sido amplamente aceito pelos cientistas políticos na atualidade, entre os quais ele se inclui."
Para Robert Darnton e Oliver Duhamel, por mais que a palavra tenha distintos significados, dois deles parecem ser essenciais para que um sistema possa ser considerado democrático: a livre seleção dos governantes pelo povo e o respeito dos direitos humanos pelos governantes.
Podemos utilizar também um critério ainda mais simples para definir um Estado democrático: duas eleições seguidas sem fraudes e respeito do resultado pelos perdedores.
Sinceramente, para mim, a tal palavra mágica tem um significado bem mais amplo. No conceito de democracia deve-se incluir liberdade de expressão, real punição para manipuladores eleitorais, igualdade de oportunidades.
Porém, se utilizarmos conceitos que não contemplem apenas a participação da população nos momentos das eleições e que destaquem a questão da participação popular, logo se perceberá o quanto é incipiente e frágil a democracia brasileira surgida após a Constituição de 1988.
Na opinião de Noam Chomsky, "uma sociedade é democrática na medida em que o povo tem oportunidades significativas de participar da formação das políticas públicas". Ou como afirmou Roberto Romano: "A atitude diante da soberania popular é a chave para se decidir um pensamento político enquanto democrático ou conservador. No primeiro, o povo é tido como soberano, e respeitado por isso. No segundo, elimina-se a idéia de soberania popular em proveito de conceitos abstratos sobre o Estado, com privilégio para os dirigentes e coadjutores, os 'técnicos' de governo."
Um dos elementos encontrados nas ideologias conservadoras é a crença na superioridade de uma elite, capaz de impor a sua vontade sobre o restante da população. A alegação utilizada é de que as camadas populares são ignorantes e não possuem as informações necessárias para o exercício da cidadania.
Os conservadores sempre procuraram caracterizar o povo brasileiro como "povo-massa". A partir dessa imagem, procuram afirmar que a sociedade brasileira é amorfa, débil e incapaz de se organizar. Dessa maneira, procuram justificar a necessidade da tutela das elites. Não é à toa que um dos elementos mais significativos do pensamento autoritário seja o mito de que a sociedade deve ter um centro único e poderoso de fixação: a existência de um Estado forte. Daí decorre a defesa da primazia do Estado sobre a sociedade.
Mas grave ainda, enxergam em qualquer mobilização popular uma ameaça à manutenção da ordem política. A idéia de que a sociedade tem condições de se auto-organizar - e, portanto, é capaz de expor abertamente seus conflitos - ainda é vista por muitos como perigosa para a existência do Estado.
Até hoje, o conceito de igualdade jurídica na sociedade brasileira foi restringido em função da singularidade do desenvolvimento nacional, marcado pela escravidão e pela rígida hierarquia de papéis. Na prática, esses dois elementos, que fundaram a nossa realidade social, sempre dificultaram o enraizamento do princípio liberal da lei como universal e válida para todos os cidadãos. Em função dessa característica essencial, a diferenciação entre o público e privado assumiu no país feições bem singulares. A questão de conteúdos transparentes e comuns ao público e a de íntimo e particular ao privado nunca foram de fato cindidas. Em suma, a não existência na formação social brasileira de uma tradição igualitária e de uma percepção clara do que é público dificultou a implantação de práticas democráticas.
A atividade política sempre foi vista como um privilégio. A construção de um real espaço público raramente foi considerada relevante pelas classes dominantes, que quase sempre conceberam a esfera política como função garantidora da esfera privada. Por isso, os recursos públicos dificilmente foram tratados como recursos do povo. A idéia de "res publica, res populi" - coisa pública, coisa do povo - sempre foi estranha para aqueles que se consideram donos exclusivos do erário.
Portanto, a conquista da democracia, no Brasil, continua a ser um imenso desafio. Apenas a participação efetiva dos movimentos sociais e das forças populares pode romper os mecanismos de exclusão e de restrição, conferindo um novo radicalismo à ação política. Além disso, é fundamental a denúncia permanente dos mecanismos de "democracia de baixa intensidade", que reduzem a prática democrática a uma mera ida às urnas de tempos em tempos. Obrigatória, é bom lembrar.

(Eduardo Valladares e Ana Cecília Sabbá)

16.10.08

não façamos do amor algo desonesto

Acho que sempre lhe amarei, só que não lhe quero mais. Não é desejo, nem é saudade, sinceramente, nem é verdade.

13.10.08

Transgredir e progredir

Todo sistema acaba irremediavelmente impondo regras falhas. A partir do momento em que se fala em regras, fala-se também em transgressão das mesmas por uma parte significativa das pessoas afetadas. Tal transgressão tem um dos mais amplos significados do dicionário e é tão abragente quanto a própria natureza humana, de onde é proveniente.
A constante necessidade a qual o homem tem de superar seus limites, é uma aplicação prática de que transgredir não é algo feito apenas por estudantes rebeldes. Atrás dessa superação de limites, está a criação da computação, do avião, do DNA. Inovação tecnológica portanto, pode também significar a transgressão de um indivíduo o qual foi além dos modelos impostos pela sociedade e acabou trazendo grande benefício para a mesma.
Protestos, passeatas, revoluções, tudo isso também são formas de transgredir e estão tão intrísecamente ligadas com as ações humanas desde o ínicio da historiografia que a partir disso torna-se difícil questioná-las de tal caráter. As mudanças significativas na vida de um povo, assim como qualquer tipo de ruptura com o sistema vigente vem a partir de uma transgressão, indiscutivelmente feita por um bom transgressor.
A verdade, é que hoje, todo mundo precisa ser também um transgressor, em termos. Quem não procura ter objetivos e superar, transgredir barreiras para alcançá-los, acaba ficando para trás em um mundo excentricamente competitivo como o nosso. Os que se destacam, com Albert Einstein, Marx Planck, Bill Gates e muitos outros, nada mais são que grandes transgressores.
Transgredir pode também ter sinônimos negativos, mas tal dualismo na verdade está presente na maior parte das coisas. É esse dualismo o responsável por transgressão poder ser entendida também como filosofia de vida. Filosofia essa, praticada por Sócrates, Platão, Bacon, Descartes e por mais todos que se fizeram notáveis ao longo da história e que tornaram o mundo, um pouquinho melhor.

11.10.08

Belém In Touch Magazine

Deplorável a situação do jornalismo paraense. Como se não bastasse a clara tentativa de manipulação eleitoral no primeiro turno dessas eleições, pelos indíces arbitrários de intenção dos votos apresentados no jornal 'O Liberal', agora, a mais nova coluna do carderno 'Top 10' do jornal 'Diário do Pará', é a brincadeira das crianças dessa cidade mais fútil e inútil da internet - In Touch.
Na rede, eu nem reclamo, visto o nível de besteiras que fazem sucesso ser exacerbado há muito tempo. Mas em um dos jornais mais renomados do Estado, a situação fica crítica. O menino que escreve, devo confessar, escreve até bem. O que me remete a questionar porque uma pessoa perde o seu tempo escrevendo sobre fofoca e acontecimentos os quais não interferem na vida de ninguém (que tem mais o que fazer, como estudar), podendo escrever sobre política, arte, história, literatura ou qualquer coisa mais interessante. A busca desesperada pela popularidade é algo tão decadente...
Eu mesma, nunca vi nesses cadernos de domingo, um artigo falando sobre arte clássica, ou arte contemporânea. Falando sobre a próxima exposição da 'Foto Ativa', por exemplo. Dia de semana, se espremermos o jornal, cai sangue. Finais de semana, que poderiam tirar esse jornalismo preguiçoso e falar da real situação polítca ou como a recessão norte-americana vai influenciar em Belém, colocam fofocas adolescentes. Em vez de fazer um artigo "Você precisa saber..." dando dicas aos pré-universitários e falando sobre conhecimentos gerais, fazem uma matéria sobre a mais nova adolescente grávida e sobre o casal mais bonito do mês.
Sem falar nas matérias desses cadernos onde as pessoas aparecem mostrando seus guarda-roupas. Alguém me explica como uma pessoa pode se submeter à isso. Depois fica colocando amuletos para tirar o mal-olhado...
Os diretores desses jornais deveriam ter aulas com os diretores da 'Folha de São Paulo', do 'Globo', com o Demétrio Magnoli, com o José Arbex ou com o Lúcio Flávio Pinto. Pessoas as quais realmente levam o jornalismo à sério e o consideram um mecanismo para tentar transformar o mundo em um lugar melhor, como de fato o é.
Jornais são retratos da realidade nacional e não 'Caras' ou 'Contigo', retratos da realidade de 1% dos brasileiros. O dinheiro nem pode servir como desculpa, pois os dois jornais do sudeste citados têm lucros ínfimamente maiores em realção aos jornais daqui, utilizando jornalistas inteligentes, os quais entendem do assunto e escrevem matérias importantes. Não universitários escrevendo sobre o que não lhe diz respeito. Acho que vai ser preciso eu me formar para reverter essa situação. Hahaha..

21.9.08

philos - sophia

Não importa o ponto de vista filosófico em que nos situemos hoje, o caráter errôneo do mundo onde acreditamos viver é a coisa mais firme e segura que nosso olho ainda pode apreender. Para isso, encontramos muitas e muitas razões, que gostariam de nos induzir a conjecturas sobre um enganador princípio na "essência das coisas", desde a Escola de Mileto. Enfim, desde os pré-Socráticos, todos os filósofos da natureza tentaram encontrar respostas às perguntas, as quais mesmo hoje, 2400 anos depois, não conseguimos responder.
Às vezes a filosofia parece nem ser responsável pelo que de fato o foi. Ciências humanas, física, matemática, tecnologia, arquitetura. Tudo surgiu a partir de filósofos, os quais viveram muito antes de Cristo e tinham a capacidade de se admirar com as coisas. É preciso lhes fazer justiça, a eles e também à razão - e os instintos - é preciso acompanhar os instintos, convencendo a razão a ajudá-los com bons motivos. Uma exceção poderia ser Descartes, o pai do racionalismo (e portanto avô da Revolução), que reconheceu autoridade apenas à razão: mas a razão sozinha não passa de instrumentos, e Descartes era superficial.
Seja hedonismo, seja pessimismo, utilitarismo ou eudemonismo: todos esses modos de pensar que medem o valor das coisas conforme o prazer e a dor, são ingenuidades e filosofias de fachada. Filosofia pura é aquela, a qual tenta, em pleno século XXI, sobrepor-se à ciência a qual ela própria deu à luz, para responder ainda às muitas perguntas feitas na Magna Grécia. Todo mundo tem um pouco de filósofo dentro de si, mas na maioria das vezes, ele é obscurecido pela vida cotidiana e supérfula das pessoas. Eu própria, me sinto como uma criança de 8 anos, sem saber o porquê de nada, querendo saber o porquê de tudo. Imagino ter sido esse o sentimento de Sócrates, Spinoza... Nietzsche principalmente. Vai saber, quem souber me salva.
De qualquer forma, a atração do conhecimento seria mínima, se não houvesse tanto pudor a vencer no caminho até ele.

15.9.08

tudo passa

eu quis te conhecer mas tenho que aceitar
caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
pode ser cruel a eternidade
eu ando em frente por sentir vontade


eu quis te convencer mas chega de insistir
caberá ao nosso amor o que há de vir
pode ser a eternidade má
caminho em frente pra sentir saudade

30.8.08

Vampiros

Eu não acredito em gnomos. Eu não acredito em gnomos ou duendes, mas vampiros existem. Fique ligado, eles podem estar numa sala de bate-papo virtual, no balcão de um bar, no estacionamento de um shopping, vampiros e vampiras aproximam-se com uma conversa fiada, pedem seu telefone, ligam no outro dia, convidam para um cinema. Quando você menos espera, está entregando a eles seu rico pescocinho e mais. Este "mais" você vai acabar descobrindo o que é com o tempo.
Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiaça, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição, e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne.
Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia. E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor.
Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.
(Martha Medeiros)

17.8.08

Fanny & Alexander é mais um filme sueco que completa a lista de obras-primas de Bergman. Indubitavelmente bom, impressiona e estupefata com a incrível sensibilidade do ser o qual o fez. O paradoxo da imaginação irremediavelmente presente no âmbito real não está retratado em nenhum outro filme tão bem quanto. O mershandinsing não aconteceria visto a total imparcialidade quanto à esses assuntos de quem aqui escreve se de fato, não o fosse verdade. É conferir para crer,

14.8.08

Incrível a quantidade de placas, cartazes e propagandas de vereadores diferentes nessas eleições, não tão diferente das anteriores. Incrível a maneira de conquistar o voto do eleitor, seja por músicas sem sentido que fixem o número do candidato, seja por 1.001 promessas ou distribuição de presentes. Incrível os motivos (ou a falta deles) sem consistência os quais os fazem serem votados. E principalmente, incrível a sua falta de capacidade de o fazê-lo merecer, ou até mesmo de saber o que significa política na história desse país, suas reais necessidades e o real motivo de existir um Congresso para tal.

9.8.08

as pessoas devem viver e pensar por si só, perceber que a efemeridade da vida não é acompanhada pela inconstância do mundo, o qual nada mais é que um complemento insignificante do infinito particular de cada um.

7.8.08

Até logo, vocês.


Impressionante a rapidez do tempo. Há exatamente 1 ano e 59 dias, acontecia o último - por um longo período - show dessa banda. Uma das noites mais lindas que qualquer uma das 5 mil pessoas presentes já viveu. Pra mim, ontem. E agora o amanhã, cadê?
Da coxia, eu via aqueles quatro barbudos, deixando que o público os levasse. Em uma noite em que as estrelas da Lapa brilharam mais do que todas as outras, caíam lágrimas sofridas e o carnaval chegava ao fim.

3.8.08

comunismo ou impopulismo?


Fã assumida de Vargas, João Goulart é para mim o político o qual mais se assemelha a Getúlio. Com algumas singularidades particularmente relevantes que o fizeram não ser tão bem-sucedido como fora Getúlio Vargas em seu governo, talvez o que mais tenha faltado à Jango foi a base política, social e militar que tivera Vargas, principalmente no seu primeiro mandato.
Dando início à primeira reforma na estrutura agrária e urbana que não contaria com o apoio da burguesia, a queda de João Goulart nos demonstra o colapso do populismo no Brasil, bem como seus limites. O populismo consistia em uma política em que o Estado, pela figura de um líder carismático, agia como intermediário entre a burguesia e o proletariado urbano, "forçando" essa mesma burguesia a realizar concessões (por meio de uma política trabalhista), enquanto mantinha o proletariado sob controle.
No entanto, o prosseguimento do processo de industrialização viabilizado pelo populismo levou à expansão cada vez maior do proletariado urbano e ao surgimento de novas reivindicações, como uma distribuição de renda global. Os trabalhadores acabaram se voltando para o Estado, a quem estava atrelados, e de lá veio o projeto de distribuição de renda: as reformas de base. Nesse momento, o Estado não mais atendia aos interesses das elites, ou seja, o populismo deixava de ser um instrumento usado em benefício da burguesia. Nada mais justo que essa mesma elite ser aquela que promoveria a desmontagem do velho Estado populista (e de seu arcabouço jurídico-político) e a criação de um novo. Tal é o caráter do novo regime que surgiu em abril de 1964.
As semelhanças com o episódio do suicídio de Vargas são significativas. Mais uma vez um líder populista ficou "sozinho" ao lado do povo contra forças conservadoras, tendo à frente as Forças Armadas. E mais uma vez, o líder rejeitou a hipótese de luta armada. Diferente do cheque-mate lançado por Vargas em 1954 com a sua morte, Jango exilou-se. Morrendo de forma misteriosa anos depois no Uruguai. A pergunta paira no ar: Quem matou João Goulart? Especulações recaem sobre a CIA. É penoso remoer mazelas de um esquadrão da morte a serviço de um regime político, que veio a influenciar o código de honra de tropas de elite, milícias e traficantes, e manchar a reputação da pátria cordial nos seus piores anos do século XX. Soda cáustica na História do Brasil! E por que não dos Estados Unidos?

31.7.08

O golpe que não funcionou,

Os últimos 200 anos foram marcados no Brasil por uma intensa vida política. Das renúncias aos golpes, da república da espada à ditadura, entre semelhanças e diferenças, o que é pouco comentado nos livros de História, foram as ações empreitadas pelos políticos mal-sucedidos. A pior delas, na minha opinião, foi a renúncia de Jânio Quadros.
Não ligado intrísecamente à nenhum partido político, Jânio chegou ao poder através de uma eleição com uma das maiores margens de diferença para com os outros canditados da história. Adotanto medidas impopulares no combate à inflação (herança deixada por Juscelino), Jânio Quadros achou que a única pessoa que mandava no país era ele. Suas atitudes controversas, como a proibição do uso de biquínis, lança-perfumes e das brigas de galo, nada mais escondiam do que sua falta de planejamento e de propostas plausíveis e concretas para governar o país. Atacante feroz da corrupção, logo seus opositores e até mesmo aliados viram sua fraca base política e ideológica.
Com uma política externa independente, passou a ter inúmeras de suas decisões vetadas na câmara, e precisando de maior autonomia, Jânio Quadros renunciou. Não está parecendo claro pra você?
É simples: para ele, ninguém iria aceitar que um vice-precidente como João Gourlat assumisse a presidência; para o próprio Exército Jango era visto como um meio de ser implantado no Brasil um regime comunista. Além disso se julgava imprescidível para os partidos na campanha presidencial. O pedido de renúnica não sendo aceito, Jânio Quadros voltaria fortalecido para governar e tomar decisões independentes do Congresso, como sempre o tivera em mente.
Porém, como renúncias não são votadas e sim simplesmente comunicadas, o Congresso aceitou. E não havendo nenhuma ação significativa pelo retorno do presidente, seu mandato chegava ao fim. O tiro dessa vez, saiu pela culatra.

29.7.08

O dia mente, a cor da noite
O diamante, a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite, a dor da gente.

21.7.08


Depois de atravessar muitos caminhos
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias…
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.

E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.

O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.

Vinicius em 1933

20.7.08

Estados Unidos da China

Incrível como em um mundo cada vez menor pelas facilidades de comunicação vindas com a globalização, os dois países mais antagônicos e distantes do mundo possam controlar tão fortemente a economia mundial. Do extremo Oriente ao extremo Ocidente, as inúmeras diferenças até na forma de governo, sendo um capitalista e outro "comunista" não superam os interesses da burguesia monopolizadora.
Com vultuosos investimentos na bolsa de valores de Nova York, poucas economias do mundo são tão dependentes entre si quanto Estados Unidos e China. Se a bolsa quebra, a elite investidora que sustenta a economia chinesa também, e com ela, a China vai junto. Por sua vez, sem os produtos importados do Oriente, os norte-americanos em alguns setores não conseguiriam nem abastecer toda sua população, que continua a crescer em ritmo desenfreado.
Tudo bem que a China cresce a mais de 10% ao ano, mas... até quando?
Esse país asiático vai ter que mostrar muito além disso pra ser considerado superpotência. E a questão da exportação-investimento não faz-se suficiente vendo-se isolada. A China precisa conquistar o mundo, e dessa conquista, dependem os Estados Unidos e todo o resto do planeta.

14.7.08

, de arte contemporânea à arte naif ..

Adepta à corrente sofista, pra mim, nem a arte escapa às mudanças que movem, corroem e sustentam uma sociedade. Sua contemporaneidade nos últimos anos, é bela em sua essência e capaz de transformar essa forma de traduzir sentimentos em várias vertentes.
Uma delas, a Naif (confesso, uma de minhas preferidas) vem mostrando dógmas e palavras esquecidas outrora e intensificando uma interligação com outras áreas artísticas, como a música, que tanto me impressiona. Juntando cotidiano, beleza, graça e versos, Ana Camelo é uma das pioneiras a fazer até do Rio de Janeiro algo que escapa de sua real situação e que há tanto tempo não se via.
"A Moça" acima, não só me encanta como nos conta que ainda há maneiras de descapitalizar o mundo, e o que é mais bonito: de forma instintiva, inconsciente.

11.7.08

cinema expressionista alemão: influências expressionistas 80 anos depois

Se é pra falar de cinema, então vamos continuar. Tudo bem que nem sempre os filmes apreciados pela crítica e pelo público acabam caindo no teu gosto, mas, filmes indubitavelmente bons, são, sem dúvidas, os expressionistas alemães. Possuidor de uma abstrata interpretação da realidade, o paradoxo causado pelo cinema alemão das décadas de 1910 à 1930 nos remete a questionar desde o que é belo, até como filmes em preto e branco (e mudos) eram capazes de causar tanto sensacionalismo nas pessoas (e até hoje causam se pensarmos nas circunstâncias as quais foram filmados).
A resposta é simples: semelhante ao que ocorre hoje (óbvio, proporcionalmente em menor escala) com a indústria cinematográfica, no ínicio do século XX também eram produzidos muitos filmes alienantes, os quais provocados pela euforia de uma das maiores novidades da época acabavam vendendo. A diferença está nos filmes que se tornaram clássicos e perduram até hoje, quase cem anos depois, como os do cinema expressionista alemão, os quais além de representar uma ruptura com o modo de fazer cinema do início do século passado, começam a desenvolver em seu público uma nova forma de pensar, absorver informações e raciocinar filosoficamente em cima delas.
Filmes como 'Nosferatu' e o 'Gabinete do Dr. Caligari' são aqueles tipos de filme que permanecem na nossa mente por anos à fio, e nos remontam principalmente, à genialidade do autor. Por mais que essas obras fujam completamente ao estereótipo que estamos acostumados a ver nos anos 2000, Murnau, Robert Wiene e Bela Lugosi, não são mencionados até hoje nas grandes convenções cinematográficas em vão. Sinceramente, acho que todo mundo deveria dedicar um tempo a conhecer o cinema alemão e aprender apreciá-lo na íntegra, vendo o quanto existem influências expressionistas até hoje no cinema mundial e como isso acabou influenciando na sua trajetória, sua percepção da realidade e até, no comportamento das pessoas, que se formam também, pelo cinema.

10.7.08

Deu a louca em Hollywood

Engraçado como em poucos anos, alguns de nossos conceitos amadurecem e fortificam-se, enquanto outros, se transformam radicalmente. Hoje, eu, que há uns anos era fã da cinematografia hollywoodiana, vejo o quanto o cinema norte-americano produz lixo, alienação, falta de senso crítico e percepção, extingüe bases filosóficas e cada vez mais é responsável pela formação de uma juventude sem a capacidade de pensar, raciocinar, alienada, que reprodruz tudo o que vê e possui a chamada "cultura-lixo".
Não generalizando, (salve alguns diretores como Steven Spierlberg) também produz bons filmes. Filmes clássicos que acabam caindo no gosto da crítica e do público e contrapondo-se aos besteiróis americanos os fazem não ter significância no cinema mundial. O que é passado para o resto mundo é que Hollywood, centro cinematográfico de grandes clássicos como 'O vento levou', 'Psicose', 'Titanic' e muitos outros, só prodruz filmes bons. O que nem de longe é verdade.
Produz alguns, sim, mas em proporção, os filmes ruins, alienantes e sem significância pessoal são produzidos em uma escala infinitésimamente maior - haja vista que os filmes os quais chegam ao Brasil, são os "melhores" (ou, os mais apreciados pelo público alienado), imagine o que sai de lá, e não chega aqui. Inexoravelmente, filmes como 'Uma mente brilhante' não compensam o lançamento de 6 'American Pie's'. Se você discorda, então ao menos concorde que os americanos colonizaram até seu subconsciente.

9.7.08

1968

Primavera de Praga, Guerra fria, bases nucleares em Cuba, a morte do maior combatente pela extinção da palavra raça da linguagem e da vida e o começo e uma árdua luta pelo fim da segregação, movimentos estudantis, revoltas pelo direito supra-constitucional à liberdade, tropicalismo, AI-5, indignação, clamor, luta. Há 40 anos não se tem um ano tão intrísecamente importante na história do Brasil e do mundo. Há até quem diga que esse ano pode ser considerado o início de uma nova Era. Exagero ou não, a verdade é que no ano 2008 nós estamos precisando mesmo de um pouco mais de ação, o que teve de sobra naquele ano, para impedir que crianças de 3 anos sejam metralhadas à 16 tiros por engano. Luto; esse já é o estado normal do país. Onde está a juventude revolucionária de 68? Conformados; a conformação tarda mas chega. E a de 2008? Apática; ao ver que em mais de 500 anos não existiu sequer uma luta vencida que tenha vindo de baixo. Mesmo assim, estamos aqui, sem lenço, sem documento, nada no bolso ou nas mãos, idêntico à 40 anos, com a mesma vontade de mudança, mas dessa vez, com menos coragem, devido à uma pequena singularidade existente: em 2008, quem manda no país não são os militares, mas os bandidos.

27.6.08

Afinidade acontece. Um mesmo signo, um mesmo par de sapatos caramelo, um mesmo livro de cabeceira. Afinidade acontece entre seres humanos. A mesma frase dita ao mesmo tempo, o diálogo mudo dos olhares e a certeza das semelhanças entre o que se canta e o que se escreve. Afinação acontece. Um mesmo acorde, um mesmo som, uma mesma harmonia. Afinação acontece entre instrumentos musicais. A mesma nota repetidas vezes, a busca pela perfeição sonora e a certeza das similaridades entre um tom acima e um tom abaixo. A incrível mágica acontece quando os instrumentos musicais descobrem afinidades humanas entre si no mesmo instante em que os seres humanos descobrem afinações musicais dentro deles mesmos.


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23.6.08

OH!BAMA

Incluir um discurso de mestiçagem em uma campanha eleitoral americana é muito fácil. O difícil é aplicar essa polítca em um país o qual através de grupos que agiram principalmente na década de 20 como Ku Klux Klan vem provando o caráter racista e xenofóbico que até hoje, impera nos Estados Unidos.
Um país que há 40 anos via o primeiro homem negro falar abertamente sobre a extinção da palavra raça, hoje, se mostra à frente das outras potências na corrida anti-racial.
O país mais preconceituoso da história, desde a época da guerra secessão, há dias atrás via-se no meio de duas campanhas: a disputa entre Obama e Hillary nada mais era senão uma disputa entre o feminismo e o anti-racismo. Um negro ou uma mulher? Qual seria o melhor candidato a quebrar o tabu de um país que por tanto tempo pregou a submissão desses mesmos grupos?
Barack venceu a primeira luta. Agora só resta saber se de fato, os democratas ganharão de McCain, ou se o partido de Abraham Lincoln mais uma vez permanecerá na Casablanca.
Esse ano, o que comanda as eleições norte-americanas não é a economia (mesmo porque não há muita diferença entre as duas propostas: por mais que os republicanos preguem a não-intervenção do Estado, a nuvem do protecionismo alfandegário já se aproxima por aí), mas sim, a política social. Obama diz que tira as tropas americanas do Iraque até o ano que vem. McCain desconversa. Omissão ou Mentira? O tempo dirá.

19.6.08

o maior golpe branco da história

Hoje, pode-se dizer que nenhum suicídio foi tão bem sucedido na história da humanidade quanto o de Getúlio Vargas. Fazendo juz à célebre frase "Entrarei no Palácio do Catete carregado pelo povo e de lá só sairei morto", aguentou até onde lhe era conveniente as pressões vindas de fora e de dentro do partido.
Depois do aumento em 100% do salário mínimo, pressão do Exército, da Aeronáutica, dos Estados Unidos, e até mesmo de parte do povo quando o aumento não veio em 54, seguido pelo atentado à Carlos Lacerda o qual 'a bala que errou Larcerda acertou Getúlio', Vargas diferentemente das teorias conspiratórias as quais dizem que sofreu um atentado à mando do FBI, em 24 de agosto de 1954 saiu da vida para entrar na história, neutralizando assim, todas as vantagens que seus adversários conseguiram acumular contra ele ao longo de seu governo. Fraqueza não: jogada de mestre.

Apelativa ou não, o sensacionalismo que causou a carta-testamento de Vargas mostrou a força que um governo autóritário pode ter. A tarja preta nos olhos da população pode causar muitos resultados se for bem aplicada, como no caso, o foi.

'Ao ódio, respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotaram, respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate.

Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vois dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeio passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.'

Em outras palavras: quebrem o jornal de Lacerda. Dito e feito.

9.6.08

1 ano de recesso


Hoje faz exatamente um ano que sob aplausos ensurdecedores, gritos de doer o ouvido e muito choro em uma Fundição Progresso lotada, a banda carioca Los Hermanos (ou a melhor banda do Brasil, se preferir), cantou um último Adeus você ao seu público, se despedindo temporariamente. A banda das Alines, Anna Júlias, Melissas e Bárbaras, mesmo um ano depois, ainda nos faz chorar lágrimas sofridas pelo tal 'recesso por tempo indeterminado'.
Pois é, uma primavera se vai e quem sabe quantas serão sem os hermanos que desde o primeiro andar nos emocionam com conversas de botas batidas, sambas à dois e casas pré-fabricadas. Ainda choram pierrots e colombinas, e fica pras morenas e pra todos os fãs, a certeza de que este não foi o último romance, e a esperança que nem todo carnaval tenha seu fim.

30.5.08

medidas erradas para um país errado (?)

"As ruas de São Paulo terão, até o fim de abril, mais 354 radares de trânsito, segundo a Secretaria Municipal de Transportes. As três licitações abertas para a aquisição dos aparelhos serão concluídas em março. São 175 radares fixos, 26 móveis e 153 lombadas eletrônicas. (...) Em 2007, a média de multas aplicadas por mês em São Paulo chegou a 330 mil. Atualmente, há 40 equipamentos fixos e 100 lombadas eletrônicas na capital. Com os novos radares, a Prefeitura estimou, na previsão orçamentária deste ano, arrecadar R$ 557 milhões com multas, um aumento de 17% em relação a 2007. Nos últimos três anos, a elevação chega a 70% - em 2004, foram arrecadados R$ 328 milhões. Entre 1997 e 2006, o valor obtido com as autuações na capital superou R$ 3,2 bilhões."

A única verdade que eu vejo nisso tudo, é a mesma a qual até aqueles que defendem um código de trânsito mais rígido, por exemplo, admitem: que o atual sistema de multas, adotado em 1998, com grande estardalhaço, só foi eficaz até o ano 2000. Depois disso, o número de infrações voltou a crescer, até atingir os auais níveis. Isso se explica, entre outras coisas, pela capacidade que tem o ser humano de se adaptar a situações adversas. É como se ele fosse ficando imune a pequenas doses de um remédio, demandando concentrações cada vez mais cavalares para atingir o mesmo efeito.
Nesse caminho, a lógica repressiva adotada pelas autoridades públicas indica que o Brasil terá que ser transformado num imenso presídio, vigiado por câmeras a cada dez metros e policiados por soldados em tanques de guerra.
Medidas têm que ser tomandas? Claro, e com urgência. Mas de nada adianta reforçar o aparato repressivo, enquanto escolas públicas são desmanteladas, os serviços públicos de saúde são depauperados, e as obras públicas são feitas para impressionar eleitores às vésperas da ida às urnas. E, pior ainda, se partem dos homens públicos os mais graves exemplos de corrupção, de desrespeito às leis, de assalto ao erário nacional.
Na prática, a indústria das multas avança - para engordar sabe-se lá quais cofres - e o arbítrio policial aumenta em magnitude e proporção; em contrapartida, a sociedade civil fica mais acuada, enconlhida, sufocada. Pobre país.

26.5.08

paz impossível, guerra provável

A cifra é da própria Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro: em 2007, a polícia executou, em média, 107 "bandidos" e narcotraficantes" por mês (aspas são indispensáveis, pois as vítimas não foram julgadas). É um massacre mensal como o praticado na Casa de Dentenção do Carandiru, em 1992, em São Paulo. A brutalidade é ainda maior quando se considera que se tornou rotina, no Rio, o uso do mandato coletivo de busca, que autoriza a polícia a entrar em qualquer residência situada em determinada área (por exemplo, nos morros). Revogou-se o direito constitucional à privacidade e à inviolabilidade do lar.
Enquanto o morticínio de 1992 causou comoção, os números divulgados pela polícia fluminene encontram a apatia, quando não o aplauso de amplos setores da opinião pública. É certo que os eventos no Carandiru foram muito mais "espetaculares", e por isso incendiaram a imaginação pública; os detentos estavam desarmados, ao contrário dos narcotraficantes; os presos não constituíam mais uma ameaça à sociedade, ao passo que o narcotráfico exerce um efeito deletério. Tudo isso é verdade, mas é pouco para explicar o orgulho exibido pelas autoridades ao anunciarem o balanço de 2007, ainda mais quando se sabe que boa parte das vítimas nunca foram "narcontraficantes" nem "bandidos".
A razão de fundo é outra, e muito grave: cansada de ser vítima cotidiana da deliqüência, impontente diante do crime como fato consumado, atemorizada pelos tiroteios que matam inocentes, boa parte da sociedade dá carta branca ao aparelho repressivo do Estado. Pode chacinar, invadir lares, vitimar inocentes - desde que assegure alguma ordem social. "Ordem" se confunde com força bruta; a paz possível é a dos cemitérios.
O Rio vive uma tragédia: banalização das chacinas, diminuição dos direitos individuais, sobreposição do aparelho repressivo sobre as instituições democráticas. Com isso, os outros caminhos para combater o crime e o narcotráfico ficam obscurecidos, eclipsados pelo brilho dos projéteis. Pobre Bagdá.

23.5.08

"I have a dream"


Há 40 anos, vítima dos tiros de um fanático, morria Martin Luther King. Em Wanshington, diante de uma multidão reunida no Lincoln Memorial, no 28 de agosto de 1963, com apenas 33 anos, King pronunciou seu discurso mais célebre, "I have a dream", que figura como modelo de sua retórica e da concepção que animou o movimento pelos direitos civis. Ninguém conseguiu transitar melhor que ele entre as referências cristãs e políticas, nem conectar tanto o movimento à Revolução Americana de 1776 e à sua Constiuição, em que era garantido a todos os homens (sem exceção à cor) os direitos inalienáveis à vida, liberdade e busca da felicidade. Esse movimento da palavra faz de King um intérprete clássico da aventura histórica dos Estados Unidos.
No sonho 'um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos serão capazes de dar as mãos e de sentar-se juntos na mesa da irmandade' e 'lá no Alabama, pequenos meninos e meninas negras serão capazes de dar as mãos a pequenos meninos e meninas brancas como irmãs e irmãos'. Nesse dia, 'todos os vales serão elevados e todas as colinas e montanhas serão rebaixadas, os lugares ásperos se tronarão lisos e os lugares sinuosos se tornarão retos'. A síntese é por demais conhecida, mas deve ser repetida: "Eu tenho o sonho que meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação na qual não serão julgados pela cor da sua pele mas pelo conteúdo de seu caráter'. O homem que morreu há 40 anos sonhava com o dia em que a palavra raça seria apagada da linguagem e da vida.

http://youtube.com/watch?v=PbUtL_0vAJk

22.5.08

fizeram a gente acreditar...

que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez acionado, nem chega com hora marcada. fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. se estivermos em boa companhia é só mais agradável. fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. não contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas. cada um vai ter que descobrir sozinho. e aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém.

ou seja; tenha amor próprio.

13.5.08

"Todo poder a Vargas!"

Sem a menor dúvida, podemos dizer que Getúlio foi um dos (senão o mais) importantes presidentes que o Brasil teve. Fosse por representar uma ruptura com o modo de administração e organização do Brasil (mesmo que não total) na década de 1930, ou pela proeza de conseguir satisfazer até certo ponto a elite (tornando-se parte desta os militares dissindentes - os tenentistas), e a classe operária, Vargas teve êxito em adotar no Brasil uma política até então desconhecida na América Latina - o populismo.
Assemelhando-se em alguns pontos com o fascismo, pela censura, exaltação ao líder e à seus feitos através da prograganda e pelo regime totalitário que implantou a partir da criação do Estado Novo em 1937, não pode ser considerado porém, um fascista, já que seu governo não tinha a principal característica do regime: não possuía partidos, ou seja, era apartidário (além disso, por mais que Vargas tenha perseguido seus opositores, podendo-se citar o caso de Luis Carlos Prestes e Olga, as atrocidades que cometia nem se comparavam às cometidas na Itália e na Alemanha). Finalmente, acabou por romper qualquer ligação com o Eixo, a partir do apoio aos Estados Unidos, no final da Segunda Guerra Mundial.
Mas afinal, qual é a explicação mais plausível para Vargas ter conseguido manter-se 15 anos diretos no poder (1930-45)? Ora, o apoio da classe operária: graças aos direitos trabalhistas, que mesmo sendo fruto das inúmeras lutas do operariado, foram implantados na era Vargas. Como direito à um salário mínimo, à férias remuneradas, implantação da carga horária máxima de trabalho, proibição do trabalho infantil e outros.
Fazendo acordos com a elite cafeeicultora (a grande elite brasileira), e incentivando-a a investir na indústria com o forte apoio do Estado, conseguiu agregar diferentes propósitos em um só: satisfazer os cafeeicultores e industrializar o país (com a ajuda da crise de 1929, e à conseqüente diminuição das importações, foi no seu governo, que a indústria realmente tornou-se significativa no Brasil). Não perdendo o apoio do Exército, que o ajudou a chegar ao poder, pode-se dizer que sua inteligência (ou de seus assessores) e capacidade de convencimento foi um dos maiores fatores para sua própria ditadura ter durado tanto tempo.
Se foi boa, não cabe à mim dizer. Por mais que não se tivesse liberdade de expressão, acho que quem melhor responde isso são os operários, que finalmente, puderam parar de trabalhar 16 horas por dia e passaram a ter assistência a acidentes de trabalho.
O populismo, ou paternalismo, utilizado pelo 'pai dos pobres', também foi adotado por Perón na Argentina, e difere-se principalmente pela situação em que foi imposto: em um país cuja estrutura de classes era bem mais articulada que no Brasil, o peronismo foi levado a promover a organização sindical em maior profundidade; ao mesmo tempo, tratou de cortar os interesses da classe dominante rural (o que não aconteceu no governo de Vargas, já que a elite cafeeicultora foi bastante representativa). No caso brasileiro, os apêlos simbólicos e as concessões econômicas às massas populares seriam a tônica do getulismo, ou pelo menos do primeiro governo de Vargas.
Governo esse que chegou ao fim como uma de suas causas, por ter se tornado contraditório: Brasil entra na Segunda Guerra contra os regimes totalitários da Europa. Mas onde está a democracia no Brasil?
Movimentos estudantis começam a eclodir, e o próprio exército não apóia mais Getúlio. Mesmo com apoio de antigos opositores, como Luis Carlos Prestes, que anistiado, recebia instruções de Moscou para apoiar qualquer tipo de governo que fosse contra ao nazifascismo, Getúlio é deposto. Para voltar 5 anos depois.

'Meu candidato é Eurico. Mas, se puder trocar uma letra, Eu fico.'

11.5.08

Heil Hitler?

Há indícios de que Hitler não tenha sido o maior assassino da história da humanidade: estima-se que mandou executar onze milhões de pessoas, porém, Stálin chega a atingir a marca das 35 milhões e Mao Tsé-Tung, 85 milhões no extremo oriente.
Hitler não só é o mais famoso pelo aberto anti-semitismo que pregava e pelas atrocidades cometidas (já que essas atrocidades também aconteciam na União Soviética e na China, respectivamente), mas sem dúvida, o fator decisivo para sua fama, deve-se à seu reinado ter acontecido na parte mais Ocidental do mundo, e de forma mais aberta.
Autor de 'Mein Kampf', e um estrategista de dar inveja, acho que Hitler pecou apenas por ter incluído em seu regime totalitário dois fatores: a perseguição racial e o anti-semitismo.
Esses dois fatores e sua total falta de humanidade é o que o assemelham à figura do próprio demônio, que mascara, querendo ou não, sua vontade de tornar a Alemanha um país próspero e acabar com sua submissão às outras potências do período entre guerras. Um sentimento nacionalista, que realmente levou o país ao topo do mundo, e que assim o estaria até agora, não tivesse conseguido isso por caminhos errados.
Erros esses, nem digo que são do não-cumprimento do Tratado de Versalhes, ou pela própria implantação de um regime extremamente autoritário (o que fazia-se necessário em praticamente toda a Europa na época), mas apenas, pela execução de 11 milhões de vítimas, sendo estas, 6 milhões de judeus.
Hitler, é uma daquelas figuras que mesmo depois de tantos anos causam nojo nas pessoas. Não só pela sua ideologia de culto à raça ariana (uma raça cuja superioridade ele próprio inventou), mas, principalmente pelo domínio que através da propaganda, da censura e de culto à seus feitos, ele conseguiu realizar na década de 30 e primeira metade de 40. Essa política também foi adotada aqui no Brasil por esse período, na forma do populismo, se estendeu até a Argentina na verdade, mas isso, é assunto pro próximo post.

2.5.08

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Quem pagará o enterro e as flores se eu morrer de amores?


(Vinícius de Moraes)

26.4.08

Meu círio, minha fé.


Chamo-me Maria do Socorro, tenho 57 anos, moro em Cametá e percorro o mesmo caminho feito pela Santa em 1793 há 30 anos. Sei que a minha história tem uma singularidade imensurável em relação às outras dois milhões que nascem a cada ano no segundo domingo de Outubro.

Mãe de cinco filhos, três foram vítimas da malária, a qual assola o interior do estado do Pará. Desesperada e sem meios para conseguir ajuda eficaz, recorri a fé, como tantos outros, mas com uma particularidade relevante: realmente acreditei no poder da Santa.

Um de meus filhos, morreu uma semana após minha promessa e o estado de outro só piorava, mas ainda assim, minha perseverança e fé continuaram inabaláveis. Isso talvez tenha sido o que me tornou diferente de tantos outros que acreditam na salvação sem acreditar no sofrimento. E o poder de Nazaré, com o passar do tempo mostrou-se presente, trazendo a cura de meus outros dois filhos.

A partir de então, juntei-me aos outros peregrinos na maior manifestação religiosa que o mundo conhece. Índios, negros, brancos, mulatos, estrangeiros e mestiços acompanham-me levando a Santa pela capital paraense. Nós não levamos a imagem por um simples culto, mas sim, por tudo que ela representa nas nossas vidas.

São histórias como a minha que contam a real importância do círio na vida do povo paraense. É isso que o faz ser diferente das outras tantas manifestações de fé que emocionam o país: não conseguiu ser destruído nem sequer modificado por um mundo o qual para você ser, é preciso ter. A fé que nos move vem mostrar que o amor, a gratidão e o reconhecimento ainda têm espaço nesse mundo caótico.

O círio é, sem dúvida, a forma mais linda de traduzir um sentimento, de mostrar a esperança que nem tudo está perdido e enquanto houver fé, haverá uma saída. No século XXI, a fé pode até não mover montanhas, mas ainda é capaz de mover dois milhões de pessoas atreladas em uma corda.

(Minha redação pro II concurso 'Meu círio, minha fé' - O círio que eu conto e me encanta. O resultado sai dia 12, afinal, não custa nada tentar, pô.)

21.4.08

la revolución cubana

De uns tempos pra cá, mais precisamente na última semana, meu interesse em Cuba e na sua revolução, tem feito eu procurar saber e entender mais sobre o assunto. Tentar entender os fatos, os prós e contras dessa revolução, é sem dúvida a melhor forma de começar a compreedê-la, para poder então, questioná-la.
Aposto que Ernesto Che Guevara em sua primeira viagem pela América Latina, com seu fiel amigo Alberto Granado, como retrata o filme 'Diários de Motocicleta' não imaginava o quanto seu nome iria ser falado, mesmo 50 anos depois de seus "feitos heróicos" na Revolução Cubana. O que eu vejo, é muita gente usando aquela velha camisa com o rosto do Che estampado, mas na maioria das vezes, sem nem saber o que de fato isso significa. Ernesto não era nada mais senão, um homem com ideais e sonhos invejáveis, que abismado com a injustiça do mundo, se achava no dever de fazer alguma coisa. Um apenas, como tanto outros, o que o diferencia, é que ele de fato, o fez.
Fiel à Fidel até o momento em que isso não feria seus princípios, o comandante de guerrilhas lutou por seu ideal de uma ilha sem desigualdade social, sem preconceitos, sem ditadura.
Fidel Castro em 8 de agosto de 1958, meses antes da queda do então presidente e ditador de Cuba, Fulgêncio Batista, afirma:
"Quando terminarmos essa guerra, os comandantes militares não poderão ocupar posições políticas. Temos que permanecer como guardiães morais da revolução. Nosso dever é garantir que sejam cumpridas as promessas feitas ao povo. Nosso objetivo primário era restaurar a democracia e vi que as pessoas, os jovens que se juntaram ao Exército Revolucionário, personificam esse clamor de todos os cubanos pelo retorno do regime democrático. Mas, ao mesmo tempo, a Revolução começou a se alimentar de novas idéias, junto com o restabelecimento da democracia, vamos adotar reformas econômicas e sociais em benefício do povo cubano - reforma agrária, reforma urbana, todas elas subordinada às regras legais."
Por ironia do destino, Fidel seria na verdade, o próximo ditador da ilha que permaceria no poder por longos 49 anos.
Com a sucumbência de Cuba à União Soviética e a conseqüente adoção da política stalinista "socialismo num só país", Che Guevara revoltou-se silenciosamente contra a renúncia à exportação da revolução, abandonou o governo de Cuba e continuou a lutar por seus princípios, reemergindo no Congo, como guerrilheiro, antes de concluir heróica e melancolicamente sua trajetória na Bolívia.
Como nem sempre, os sonhos se encaixam na realidade, Fidel Castro para levar a idéia da Revolução adiante, teve que mudar (acho que isso é o que mais diferencia os dois líderes da revolução: talvez Che tenha milhões de camisas estampadas com seu rosto e Fidel não, porque ele, por nem um momento abandonou seus príncipios). Acontece, que ele mudou tanto, que acabou se tornando o que mais criticava: um ditador. Admiro-o por ter conseguido se opor à política e hegemonia norte-americana por quase longos 50 anos, por ter feito reforma agrária e defender o socialismo sob quaisquer circunstâncias durante todo esse tempo. Agora, do ponto de vista social, a verdade é que os indicadores sociais positivos da Cuba pré e pós-revolucionária não são fruto da sua ditadura, nem de Fulgêncio Batista (derrubada pelos guerrilheiros da Sierra Maestra), mas um produto das singularidades da história colonial da ilha caribenha. Em contraste com os territórios do istmo centro-americano, Cuba havia sido um dos mais dinâmicos centros políticos da colonização espanhola na América. A "jóia da coroa espanhola" no Caribe atraiu fluxos incessantes de prósperos colonos espanhóis, que constituíram uma elite numerosa e cosmopolita.
Fidel, como antes dele Batista, herdou uma nação cuja história entrelaçou-se muito cedo com a modernidade. Esse é o fundamento verdadeiro das conquistas sociais cubanas. O resto é mito.

13.4.08

socialismo x capitalismo

Eu acho muito engraçado o modo das pessoas se comportarem em relação ao socialismo nos dias de hoje. Pelo o que vejo, quase todo mundo acha que socialismo é sinônimo de atraso, de pobreza, de decadência. Acontece, que a verdade não é bem essa. Ouço inúmeras coisas, até do meu próprio pai, do tipo: "O mundo só vai realmente progredir, quando não houverem mais tentativas falhas e impoderáveis de outros sistemas, que obviamente não dão certo, como é o caso de Cuba, e do socialismo que prega." Mas peraí, não dá certo pra quem?
Aposto que quando a União Soviética se desfez, as pessoas que não estavam satisfeitas com a situação na qual viviam - a grande maioria, diga-se de passagem, tomaram dois rumos: os que tinham meios para conseguir acumular capital, ficaram felizes, enquanto quem foi demitido das fábricas por causa de cortes de gasto para não falirem e conseguirem competir no mercado internacional, ficou em uma situação pior do que já estava. Aí eu pergunto: o capitalismo foi melhor nesse caso? Depende do ponto de vista. Pro primeiro grupo citado, foi ótimo, mas já para o segundo...
Isso nos remete a pensar o que vale mais: um país onde a vida seja igualitária, por mais que não seja luxuosa, ou um outro onde poucos têm muito, e muitos têm pouco?
Afinal, todos nós sabemos que as condições para conseguir integrar-se no mundo globalizado não são iguais para todas as pessoas, nem para todos os países (como exemplo, podemos citar a África, continente que teve suas riquezas usurpadas pelos países europeus durante séculos).
Eu particularmente, não acho que o socialismo seja melhor que o capitalismo, ou vice-versa. Concordo que o capitalismo tráz mobilização de capital, através da lei do mercado, a qual gera competição, conseqüentemente preços baixos e conseqüentemente empregos. Acho que se o sistema for bem administrado, pode ser bom para a maior parte da população e que se não fosse por essa mobilidade e crescente pesquisas de métodos para produzir mais em menos tempos e cada vez produtos melhores e avançados tecnológicamente, ainda estáriamos vivendo igual ao início do século passado. Não, não acho o capitalismo melhor que o socialismo ou vice-versa, só acho que nenhum é de todo podre, os dois carregam consigo aspectos positivos e aspectos negativos, o que ninguém entende quando eu tento explicar, é que não dá pra dizer que um é melhor que o outro, porque são dois sistemas completamente antagônicos e incomparáveis.

11.4.08

dueto

Consta nos astros, nos signos, nos búzios, eu li num anúncio, eu vi num espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás, serás o meu amor, serás a minha paz. Consta nos autos, nas bulas, nos dógmas, eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais, serás o meu amor, serás a minha paz. Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar, mas se o destino insistir em nos separar, danem-se os astros, os autos, os signos, os dógmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, os projetos, profetas, sinopses, espelhos, conselhos, se danem o evangelho e todos os orixás, serás o meu amor, serás amor, a minha paz.

6.4.08

surrealismo

Tendo sido um movimento que teve início na França, em 1924, procurava unir arte e psicanálise. Duas foram as linhas de atuação do surrealismo no seu início: as experiências criadoras automáticas e o imaginário extraído do sonho. Freud, na psianálise, e Bergson, na filosofia, já haviam destacado a importância do mundo interior do ser humano, as zonas desconhecidas, ou pouco conhecidas da mente humana. Encaravam o incosciente, o subconsciente e a intuição como fontes inesgotáveis e superiores de conhecimento do homem, pondo assim, em segundo plano o pensamento sensível, racional e consciente.
O automatismo artístico consiste em extravasar sem nenhum controle da razão ou do pensamento os impulsos criadores do subconsciente. O artista, ao proceder assim, põe na tela ou no papel seus desejos interiores profundos, sem se importar com coerência, significados, adequação, etc.
A outra linha de atuação surrealista, a onírica, busca a transposição do universo dos sonhos para o plano arístico.
O sonho, na concepção de Freud, é a manifestação das zonas ocultas da mente, o incosciente e o subconsciente. Os surrealistas pretendiam criar uma arte livre da razão, que correspondesse à transferência direta das linguagens artísticas do incosciente para a tela ou para o papel, uma arte produzida num estado de consciência em que o artista estaria "sonhando acordado".
Nessas duas linhas de pesquisa e trabalho são freqüentes o ilogismo, o devaneio, o sonho, a loucura, a hinopse, o humor negro, as imagens surpreendentes, o impacto do inusitado, a livre espressão dos impulsos sexuais etc.
A rejeição do surrealismo ao mundo burguês, racional, mercantil e moralista levaria alguns membros do grupo a ter ligações com o comunismo. Para alcançar o objetivo maior do movimento - amor, liberdade e poesia -, eles acreditavam ser necessária uma transformação radical da sociedade, por meio da qual se pusesse fim ao modo de produção capitalista e à estrutura de classes sociais.
Embora o surrealismo tenha oficialmente desaparecido com a Segunda Guerra, resquícios do movimento ou tentativas de recuperá-lo são vistos até os dias de hoje, em diferentes linguagens artísticas, o que comprova sua força criadora e a contemporaneidade de suas prospostas, pra mim, geniais.

4.4.08

a dança e a alma
















a dança? não é movimento,
súbito gesto musical,
é concentração, num momento,
da humana graça natural.

no solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
a dança - não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.

um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado...

onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir à forma do ser,
por sobre o mistério das fábulas.

(carlos drummond de andrade)

23.3.08

expressionismo

No começo do século XX, na França e na Alemanha, surgiu um grupo de pintores chamados expressionistas. Curiosamente, o objetivo dos integrantes desse grupo era combater o impressionismo, tendênica da qual eles provinham.
O impressionismo consistia em uma corrente da pintura que valorizava a impressão, isto é, era uma arte sensorial e subjetiva quanto ao modo da captação da realidade. Na relação entre o artista impressionista e a realidade, o movimento da criação vai do mundo exterior para o mundo interior. Já no expressionismo ocorre o oposto: o movimento da criação parte da subjetividade do artista, do seu mundo interior, em direção ao mundo exterior. Assim para o artista expressionista, a obra de arte é reflexo direto de seu mundo interior e toda a atenção é dada à expressão, isto é, ao modo como uma forma e conteúdo livremente se unem para dar vazão às sensações do artista no momento da criação. Essa liberdade de expressão assemelha-se à que os futuristas pregavam com seu lema "palavras em liberdade".
Durante e depois da Primeira Guerra, o expressionismo assumiu um caráter mais social e combativo, denunciando os horrores da guerra, as condições de vida desumanas das populações carentes, etc.
Segundo o crítico Giulio Argan, "o expressionismo se põe como antítese do impressionismo, mas o pressupõe: ambos são movimentos realistas, que exigem a dedicação total do artista à questão da realidade, mesmo que o primeiro a resolva no plano do conhecimento e o segundo no plano da ação".
Mas afinal, o que vem a ser arte, exatamente?
Para mim, a arte não é imitação, mas criação subjetiva livre. A arte é expressão dos sentimentos. A razão é objeto de descrédito, e se a realidade que circunda o artista é horrível, por que não deformá-la, ou eliminá-la, criando-se a arte abstrata?
A arte é criada sem obstáculos convencionais, o que representa um repúdio à repressão social e se desvincula do conceito de belo e feio, tornando-se uma forma de contestação.
Isso sim é arte, expressionismo é que o é, e não Monteiro Lobato, quando diz que os artistas que fazem arte pura são os que veêm normalmente as coisas. Mas o que é ver normalmente as coisas?
Como já dizia Renato 'Às vezes o que eu vejo, quase ninguém vê'. Não se pode definir, cada um tem sua própria forma de ver o mundo, de ver as coisas, de entendê-lo, de explicá-lo.