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26.4.08

Meu círio, minha fé.


Chamo-me Maria do Socorro, tenho 57 anos, moro em Cametá e percorro o mesmo caminho feito pela Santa em 1793 há 30 anos. Sei que a minha história tem uma singularidade imensurável em relação às outras dois milhões que nascem a cada ano no segundo domingo de Outubro.

Mãe de cinco filhos, três foram vítimas da malária, a qual assola o interior do estado do Pará. Desesperada e sem meios para conseguir ajuda eficaz, recorri a fé, como tantos outros, mas com uma particularidade relevante: realmente acreditei no poder da Santa.

Um de meus filhos, morreu uma semana após minha promessa e o estado de outro só piorava, mas ainda assim, minha perseverança e fé continuaram inabaláveis. Isso talvez tenha sido o que me tornou diferente de tantos outros que acreditam na salvação sem acreditar no sofrimento. E o poder de Nazaré, com o passar do tempo mostrou-se presente, trazendo a cura de meus outros dois filhos.

A partir de então, juntei-me aos outros peregrinos na maior manifestação religiosa que o mundo conhece. Índios, negros, brancos, mulatos, estrangeiros e mestiços acompanham-me levando a Santa pela capital paraense. Nós não levamos a imagem por um simples culto, mas sim, por tudo que ela representa nas nossas vidas.

São histórias como a minha que contam a real importância do círio na vida do povo paraense. É isso que o faz ser diferente das outras tantas manifestações de fé que emocionam o país: não conseguiu ser destruído nem sequer modificado por um mundo o qual para você ser, é preciso ter. A fé que nos move vem mostrar que o amor, a gratidão e o reconhecimento ainda têm espaço nesse mundo caótico.

O círio é, sem dúvida, a forma mais linda de traduzir um sentimento, de mostrar a esperança que nem tudo está perdido e enquanto houver fé, haverá uma saída. No século XXI, a fé pode até não mover montanhas, mas ainda é capaz de mover dois milhões de pessoas atreladas em uma corda.

(Minha redação pro II concurso 'Meu círio, minha fé' - O círio que eu conto e me encanta. O resultado sai dia 12, afinal, não custa nada tentar, pô.)

Um comentário:

Helena Chermont disse...

a famosa Maria do Socorro, hahahaha. Vas ganhar mica!
Te amo