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30.5.08

medidas erradas para um país errado (?)

"As ruas de São Paulo terão, até o fim de abril, mais 354 radares de trânsito, segundo a Secretaria Municipal de Transportes. As três licitações abertas para a aquisição dos aparelhos serão concluídas em março. São 175 radares fixos, 26 móveis e 153 lombadas eletrônicas. (...) Em 2007, a média de multas aplicadas por mês em São Paulo chegou a 330 mil. Atualmente, há 40 equipamentos fixos e 100 lombadas eletrônicas na capital. Com os novos radares, a Prefeitura estimou, na previsão orçamentária deste ano, arrecadar R$ 557 milhões com multas, um aumento de 17% em relação a 2007. Nos últimos três anos, a elevação chega a 70% - em 2004, foram arrecadados R$ 328 milhões. Entre 1997 e 2006, o valor obtido com as autuações na capital superou R$ 3,2 bilhões."

A única verdade que eu vejo nisso tudo, é a mesma a qual até aqueles que defendem um código de trânsito mais rígido, por exemplo, admitem: que o atual sistema de multas, adotado em 1998, com grande estardalhaço, só foi eficaz até o ano 2000. Depois disso, o número de infrações voltou a crescer, até atingir os auais níveis. Isso se explica, entre outras coisas, pela capacidade que tem o ser humano de se adaptar a situações adversas. É como se ele fosse ficando imune a pequenas doses de um remédio, demandando concentrações cada vez mais cavalares para atingir o mesmo efeito.
Nesse caminho, a lógica repressiva adotada pelas autoridades públicas indica que o Brasil terá que ser transformado num imenso presídio, vigiado por câmeras a cada dez metros e policiados por soldados em tanques de guerra.
Medidas têm que ser tomandas? Claro, e com urgência. Mas de nada adianta reforçar o aparato repressivo, enquanto escolas públicas são desmanteladas, os serviços públicos de saúde são depauperados, e as obras públicas são feitas para impressionar eleitores às vésperas da ida às urnas. E, pior ainda, se partem dos homens públicos os mais graves exemplos de corrupção, de desrespeito às leis, de assalto ao erário nacional.
Na prática, a indústria das multas avança - para engordar sabe-se lá quais cofres - e o arbítrio policial aumenta em magnitude e proporção; em contrapartida, a sociedade civil fica mais acuada, enconlhida, sufocada. Pobre país.

26.5.08

paz impossível, guerra provável

A cifra é da própria Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro: em 2007, a polícia executou, em média, 107 "bandidos" e narcotraficantes" por mês (aspas são indispensáveis, pois as vítimas não foram julgadas). É um massacre mensal como o praticado na Casa de Dentenção do Carandiru, em 1992, em São Paulo. A brutalidade é ainda maior quando se considera que se tornou rotina, no Rio, o uso do mandato coletivo de busca, que autoriza a polícia a entrar em qualquer residência situada em determinada área (por exemplo, nos morros). Revogou-se o direito constitucional à privacidade e à inviolabilidade do lar.
Enquanto o morticínio de 1992 causou comoção, os números divulgados pela polícia fluminene encontram a apatia, quando não o aplauso de amplos setores da opinião pública. É certo que os eventos no Carandiru foram muito mais "espetaculares", e por isso incendiaram a imaginação pública; os detentos estavam desarmados, ao contrário dos narcotraficantes; os presos não constituíam mais uma ameaça à sociedade, ao passo que o narcotráfico exerce um efeito deletério. Tudo isso é verdade, mas é pouco para explicar o orgulho exibido pelas autoridades ao anunciarem o balanço de 2007, ainda mais quando se sabe que boa parte das vítimas nunca foram "narcontraficantes" nem "bandidos".
A razão de fundo é outra, e muito grave: cansada de ser vítima cotidiana da deliqüência, impontente diante do crime como fato consumado, atemorizada pelos tiroteios que matam inocentes, boa parte da sociedade dá carta branca ao aparelho repressivo do Estado. Pode chacinar, invadir lares, vitimar inocentes - desde que assegure alguma ordem social. "Ordem" se confunde com força bruta; a paz possível é a dos cemitérios.
O Rio vive uma tragédia: banalização das chacinas, diminuição dos direitos individuais, sobreposição do aparelho repressivo sobre as instituições democráticas. Com isso, os outros caminhos para combater o crime e o narcotráfico ficam obscurecidos, eclipsados pelo brilho dos projéteis. Pobre Bagdá.

23.5.08

"I have a dream"


Há 40 anos, vítima dos tiros de um fanático, morria Martin Luther King. Em Wanshington, diante de uma multidão reunida no Lincoln Memorial, no 28 de agosto de 1963, com apenas 33 anos, King pronunciou seu discurso mais célebre, "I have a dream", que figura como modelo de sua retórica e da concepção que animou o movimento pelos direitos civis. Ninguém conseguiu transitar melhor que ele entre as referências cristãs e políticas, nem conectar tanto o movimento à Revolução Americana de 1776 e à sua Constiuição, em que era garantido a todos os homens (sem exceção à cor) os direitos inalienáveis à vida, liberdade e busca da felicidade. Esse movimento da palavra faz de King um intérprete clássico da aventura histórica dos Estados Unidos.
No sonho 'um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos serão capazes de dar as mãos e de sentar-se juntos na mesa da irmandade' e 'lá no Alabama, pequenos meninos e meninas negras serão capazes de dar as mãos a pequenos meninos e meninas brancas como irmãs e irmãos'. Nesse dia, 'todos os vales serão elevados e todas as colinas e montanhas serão rebaixadas, os lugares ásperos se tronarão lisos e os lugares sinuosos se tornarão retos'. A síntese é por demais conhecida, mas deve ser repetida: "Eu tenho o sonho que meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação na qual não serão julgados pela cor da sua pele mas pelo conteúdo de seu caráter'. O homem que morreu há 40 anos sonhava com o dia em que a palavra raça seria apagada da linguagem e da vida.

http://youtube.com/watch?v=PbUtL_0vAJk

22.5.08

fizeram a gente acreditar...

que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez acionado, nem chega com hora marcada. fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. se estivermos em boa companhia é só mais agradável. fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. não contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas. cada um vai ter que descobrir sozinho. e aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém.

ou seja; tenha amor próprio.

13.5.08

"Todo poder a Vargas!"

Sem a menor dúvida, podemos dizer que Getúlio foi um dos (senão o mais) importantes presidentes que o Brasil teve. Fosse por representar uma ruptura com o modo de administração e organização do Brasil (mesmo que não total) na década de 1930, ou pela proeza de conseguir satisfazer até certo ponto a elite (tornando-se parte desta os militares dissindentes - os tenentistas), e a classe operária, Vargas teve êxito em adotar no Brasil uma política até então desconhecida na América Latina - o populismo.
Assemelhando-se em alguns pontos com o fascismo, pela censura, exaltação ao líder e à seus feitos através da prograganda e pelo regime totalitário que implantou a partir da criação do Estado Novo em 1937, não pode ser considerado porém, um fascista, já que seu governo não tinha a principal característica do regime: não possuía partidos, ou seja, era apartidário (além disso, por mais que Vargas tenha perseguido seus opositores, podendo-se citar o caso de Luis Carlos Prestes e Olga, as atrocidades que cometia nem se comparavam às cometidas na Itália e na Alemanha). Finalmente, acabou por romper qualquer ligação com o Eixo, a partir do apoio aos Estados Unidos, no final da Segunda Guerra Mundial.
Mas afinal, qual é a explicação mais plausível para Vargas ter conseguido manter-se 15 anos diretos no poder (1930-45)? Ora, o apoio da classe operária: graças aos direitos trabalhistas, que mesmo sendo fruto das inúmeras lutas do operariado, foram implantados na era Vargas. Como direito à um salário mínimo, à férias remuneradas, implantação da carga horária máxima de trabalho, proibição do trabalho infantil e outros.
Fazendo acordos com a elite cafeeicultora (a grande elite brasileira), e incentivando-a a investir na indústria com o forte apoio do Estado, conseguiu agregar diferentes propósitos em um só: satisfazer os cafeeicultores e industrializar o país (com a ajuda da crise de 1929, e à conseqüente diminuição das importações, foi no seu governo, que a indústria realmente tornou-se significativa no Brasil). Não perdendo o apoio do Exército, que o ajudou a chegar ao poder, pode-se dizer que sua inteligência (ou de seus assessores) e capacidade de convencimento foi um dos maiores fatores para sua própria ditadura ter durado tanto tempo.
Se foi boa, não cabe à mim dizer. Por mais que não se tivesse liberdade de expressão, acho que quem melhor responde isso são os operários, que finalmente, puderam parar de trabalhar 16 horas por dia e passaram a ter assistência a acidentes de trabalho.
O populismo, ou paternalismo, utilizado pelo 'pai dos pobres', também foi adotado por Perón na Argentina, e difere-se principalmente pela situação em que foi imposto: em um país cuja estrutura de classes era bem mais articulada que no Brasil, o peronismo foi levado a promover a organização sindical em maior profundidade; ao mesmo tempo, tratou de cortar os interesses da classe dominante rural (o que não aconteceu no governo de Vargas, já que a elite cafeeicultora foi bastante representativa). No caso brasileiro, os apêlos simbólicos e as concessões econômicas às massas populares seriam a tônica do getulismo, ou pelo menos do primeiro governo de Vargas.
Governo esse que chegou ao fim como uma de suas causas, por ter se tornado contraditório: Brasil entra na Segunda Guerra contra os regimes totalitários da Europa. Mas onde está a democracia no Brasil?
Movimentos estudantis começam a eclodir, e o próprio exército não apóia mais Getúlio. Mesmo com apoio de antigos opositores, como Luis Carlos Prestes, que anistiado, recebia instruções de Moscou para apoiar qualquer tipo de governo que fosse contra ao nazifascismo, Getúlio é deposto. Para voltar 5 anos depois.

'Meu candidato é Eurico. Mas, se puder trocar uma letra, Eu fico.'

11.5.08

Heil Hitler?

Há indícios de que Hitler não tenha sido o maior assassino da história da humanidade: estima-se que mandou executar onze milhões de pessoas, porém, Stálin chega a atingir a marca das 35 milhões e Mao Tsé-Tung, 85 milhões no extremo oriente.
Hitler não só é o mais famoso pelo aberto anti-semitismo que pregava e pelas atrocidades cometidas (já que essas atrocidades também aconteciam na União Soviética e na China, respectivamente), mas sem dúvida, o fator decisivo para sua fama, deve-se à seu reinado ter acontecido na parte mais Ocidental do mundo, e de forma mais aberta.
Autor de 'Mein Kampf', e um estrategista de dar inveja, acho que Hitler pecou apenas por ter incluído em seu regime totalitário dois fatores: a perseguição racial e o anti-semitismo.
Esses dois fatores e sua total falta de humanidade é o que o assemelham à figura do próprio demônio, que mascara, querendo ou não, sua vontade de tornar a Alemanha um país próspero e acabar com sua submissão às outras potências do período entre guerras. Um sentimento nacionalista, que realmente levou o país ao topo do mundo, e que assim o estaria até agora, não tivesse conseguido isso por caminhos errados.
Erros esses, nem digo que são do não-cumprimento do Tratado de Versalhes, ou pela própria implantação de um regime extremamente autoritário (o que fazia-se necessário em praticamente toda a Europa na época), mas apenas, pela execução de 11 milhões de vítimas, sendo estas, 6 milhões de judeus.
Hitler, é uma daquelas figuras que mesmo depois de tantos anos causam nojo nas pessoas. Não só pela sua ideologia de culto à raça ariana (uma raça cuja superioridade ele próprio inventou), mas, principalmente pelo domínio que através da propaganda, da censura e de culto à seus feitos, ele conseguiu realizar na década de 30 e primeira metade de 40. Essa política também foi adotada aqui no Brasil por esse período, na forma do populismo, se estendeu até a Argentina na verdade, mas isso, é assunto pro próximo post.

2.5.08

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Quem pagará o enterro e as flores se eu morrer de amores?


(Vinícius de Moraes)