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26.5.08

paz impossível, guerra provável

A cifra é da própria Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro: em 2007, a polícia executou, em média, 107 "bandidos" e narcotraficantes" por mês (aspas são indispensáveis, pois as vítimas não foram julgadas). É um massacre mensal como o praticado na Casa de Dentenção do Carandiru, em 1992, em São Paulo. A brutalidade é ainda maior quando se considera que se tornou rotina, no Rio, o uso do mandato coletivo de busca, que autoriza a polícia a entrar em qualquer residência situada em determinada área (por exemplo, nos morros). Revogou-se o direito constitucional à privacidade e à inviolabilidade do lar.
Enquanto o morticínio de 1992 causou comoção, os números divulgados pela polícia fluminene encontram a apatia, quando não o aplauso de amplos setores da opinião pública. É certo que os eventos no Carandiru foram muito mais "espetaculares", e por isso incendiaram a imaginação pública; os detentos estavam desarmados, ao contrário dos narcotraficantes; os presos não constituíam mais uma ameaça à sociedade, ao passo que o narcotráfico exerce um efeito deletério. Tudo isso é verdade, mas é pouco para explicar o orgulho exibido pelas autoridades ao anunciarem o balanço de 2007, ainda mais quando se sabe que boa parte das vítimas nunca foram "narcontraficantes" nem "bandidos".
A razão de fundo é outra, e muito grave: cansada de ser vítima cotidiana da deliqüência, impontente diante do crime como fato consumado, atemorizada pelos tiroteios que matam inocentes, boa parte da sociedade dá carta branca ao aparelho repressivo do Estado. Pode chacinar, invadir lares, vitimar inocentes - desde que assegure alguma ordem social. "Ordem" se confunde com força bruta; a paz possível é a dos cemitérios.
O Rio vive uma tragédia: banalização das chacinas, diminuição dos direitos individuais, sobreposição do aparelho repressivo sobre as instituições democráticas. Com isso, os outros caminhos para combater o crime e o narcotráfico ficam obscurecidos, eclipsados pelo brilho dos projéteis. Pobre Bagdá.

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