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31.7.08

O golpe que não funcionou,

Os últimos 200 anos foram marcados no Brasil por uma intensa vida política. Das renúncias aos golpes, da república da espada à ditadura, entre semelhanças e diferenças, o que é pouco comentado nos livros de História, foram as ações empreitadas pelos políticos mal-sucedidos. A pior delas, na minha opinião, foi a renúncia de Jânio Quadros.
Não ligado intrísecamente à nenhum partido político, Jânio chegou ao poder através de uma eleição com uma das maiores margens de diferença para com os outros canditados da história. Adotanto medidas impopulares no combate à inflação (herança deixada por Juscelino), Jânio Quadros achou que a única pessoa que mandava no país era ele. Suas atitudes controversas, como a proibição do uso de biquínis, lança-perfumes e das brigas de galo, nada mais escondiam do que sua falta de planejamento e de propostas plausíveis e concretas para governar o país. Atacante feroz da corrupção, logo seus opositores e até mesmo aliados viram sua fraca base política e ideológica.
Com uma política externa independente, passou a ter inúmeras de suas decisões vetadas na câmara, e precisando de maior autonomia, Jânio Quadros renunciou. Não está parecendo claro pra você?
É simples: para ele, ninguém iria aceitar que um vice-precidente como João Gourlat assumisse a presidência; para o próprio Exército Jango era visto como um meio de ser implantado no Brasil um regime comunista. Além disso se julgava imprescidível para os partidos na campanha presidencial. O pedido de renúnica não sendo aceito, Jânio Quadros voltaria fortalecido para governar e tomar decisões independentes do Congresso, como sempre o tivera em mente.
Porém, como renúncias não são votadas e sim simplesmente comunicadas, o Congresso aceitou. E não havendo nenhuma ação significativa pelo retorno do presidente, seu mandato chegava ao fim. O tiro dessa vez, saiu pela culatra.

29.7.08

O dia mente, a cor da noite
O diamante, a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite, a dor da gente.

21.7.08


Depois de atravessar muitos caminhos
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias…
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.

E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.

O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.

Vinicius em 1933

20.7.08

Estados Unidos da China

Incrível como em um mundo cada vez menor pelas facilidades de comunicação vindas com a globalização, os dois países mais antagônicos e distantes do mundo possam controlar tão fortemente a economia mundial. Do extremo Oriente ao extremo Ocidente, as inúmeras diferenças até na forma de governo, sendo um capitalista e outro "comunista" não superam os interesses da burguesia monopolizadora.
Com vultuosos investimentos na bolsa de valores de Nova York, poucas economias do mundo são tão dependentes entre si quanto Estados Unidos e China. Se a bolsa quebra, a elite investidora que sustenta a economia chinesa também, e com ela, a China vai junto. Por sua vez, sem os produtos importados do Oriente, os norte-americanos em alguns setores não conseguiriam nem abastecer toda sua população, que continua a crescer em ritmo desenfreado.
Tudo bem que a China cresce a mais de 10% ao ano, mas... até quando?
Esse país asiático vai ter que mostrar muito além disso pra ser considerado superpotência. E a questão da exportação-investimento não faz-se suficiente vendo-se isolada. A China precisa conquistar o mundo, e dessa conquista, dependem os Estados Unidos e todo o resto do planeta.

14.7.08

, de arte contemporânea à arte naif ..

Adepta à corrente sofista, pra mim, nem a arte escapa às mudanças que movem, corroem e sustentam uma sociedade. Sua contemporaneidade nos últimos anos, é bela em sua essência e capaz de transformar essa forma de traduzir sentimentos em várias vertentes.
Uma delas, a Naif (confesso, uma de minhas preferidas) vem mostrando dógmas e palavras esquecidas outrora e intensificando uma interligação com outras áreas artísticas, como a música, que tanto me impressiona. Juntando cotidiano, beleza, graça e versos, Ana Camelo é uma das pioneiras a fazer até do Rio de Janeiro algo que escapa de sua real situação e que há tanto tempo não se via.
"A Moça" acima, não só me encanta como nos conta que ainda há maneiras de descapitalizar o mundo, e o que é mais bonito: de forma instintiva, inconsciente.

11.7.08

cinema expressionista alemão: influências expressionistas 80 anos depois

Se é pra falar de cinema, então vamos continuar. Tudo bem que nem sempre os filmes apreciados pela crítica e pelo público acabam caindo no teu gosto, mas, filmes indubitavelmente bons, são, sem dúvidas, os expressionistas alemães. Possuidor de uma abstrata interpretação da realidade, o paradoxo causado pelo cinema alemão das décadas de 1910 à 1930 nos remete a questionar desde o que é belo, até como filmes em preto e branco (e mudos) eram capazes de causar tanto sensacionalismo nas pessoas (e até hoje causam se pensarmos nas circunstâncias as quais foram filmados).
A resposta é simples: semelhante ao que ocorre hoje (óbvio, proporcionalmente em menor escala) com a indústria cinematográfica, no ínicio do século XX também eram produzidos muitos filmes alienantes, os quais provocados pela euforia de uma das maiores novidades da época acabavam vendendo. A diferença está nos filmes que se tornaram clássicos e perduram até hoje, quase cem anos depois, como os do cinema expressionista alemão, os quais além de representar uma ruptura com o modo de fazer cinema do início do século passado, começam a desenvolver em seu público uma nova forma de pensar, absorver informações e raciocinar filosoficamente em cima delas.
Filmes como 'Nosferatu' e o 'Gabinete do Dr. Caligari' são aqueles tipos de filme que permanecem na nossa mente por anos à fio, e nos remontam principalmente, à genialidade do autor. Por mais que essas obras fujam completamente ao estereótipo que estamos acostumados a ver nos anos 2000, Murnau, Robert Wiene e Bela Lugosi, não são mencionados até hoje nas grandes convenções cinematográficas em vão. Sinceramente, acho que todo mundo deveria dedicar um tempo a conhecer o cinema alemão e aprender apreciá-lo na íntegra, vendo o quanto existem influências expressionistas até hoje no cinema mundial e como isso acabou influenciando na sua trajetória, sua percepção da realidade e até, no comportamento das pessoas, que se formam também, pelo cinema.

10.7.08

Deu a louca em Hollywood

Engraçado como em poucos anos, alguns de nossos conceitos amadurecem e fortificam-se, enquanto outros, se transformam radicalmente. Hoje, eu, que há uns anos era fã da cinematografia hollywoodiana, vejo o quanto o cinema norte-americano produz lixo, alienação, falta de senso crítico e percepção, extingüe bases filosóficas e cada vez mais é responsável pela formação de uma juventude sem a capacidade de pensar, raciocinar, alienada, que reprodruz tudo o que vê e possui a chamada "cultura-lixo".
Não generalizando, (salve alguns diretores como Steven Spierlberg) também produz bons filmes. Filmes clássicos que acabam caindo no gosto da crítica e do público e contrapondo-se aos besteiróis americanos os fazem não ter significância no cinema mundial. O que é passado para o resto mundo é que Hollywood, centro cinematográfico de grandes clássicos como 'O vento levou', 'Psicose', 'Titanic' e muitos outros, só prodruz filmes bons. O que nem de longe é verdade.
Produz alguns, sim, mas em proporção, os filmes ruins, alienantes e sem significância pessoal são produzidos em uma escala infinitésimamente maior - haja vista que os filmes os quais chegam ao Brasil, são os "melhores" (ou, os mais apreciados pelo público alienado), imagine o que sai de lá, e não chega aqui. Inexoravelmente, filmes como 'Uma mente brilhante' não compensam o lançamento de 6 'American Pie's'. Se você discorda, então ao menos concorde que os americanos colonizaram até seu subconsciente.

9.7.08

1968

Primavera de Praga, Guerra fria, bases nucleares em Cuba, a morte do maior combatente pela extinção da palavra raça da linguagem e da vida e o começo e uma árdua luta pelo fim da segregação, movimentos estudantis, revoltas pelo direito supra-constitucional à liberdade, tropicalismo, AI-5, indignação, clamor, luta. Há 40 anos não se tem um ano tão intrísecamente importante na história do Brasil e do mundo. Há até quem diga que esse ano pode ser considerado o início de uma nova Era. Exagero ou não, a verdade é que no ano 2008 nós estamos precisando mesmo de um pouco mais de ação, o que teve de sobra naquele ano, para impedir que crianças de 3 anos sejam metralhadas à 16 tiros por engano. Luto; esse já é o estado normal do país. Onde está a juventude revolucionária de 68? Conformados; a conformação tarda mas chega. E a de 2008? Apática; ao ver que em mais de 500 anos não existiu sequer uma luta vencida que tenha vindo de baixo. Mesmo assim, estamos aqui, sem lenço, sem documento, nada no bolso ou nas mãos, idêntico à 40 anos, com a mesma vontade de mudança, mas dessa vez, com menos coragem, devido à uma pequena singularidade existente: em 2008, quem manda no país não são os militares, mas os bandidos.