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30.8.08

Vampiros

Eu não acredito em gnomos. Eu não acredito em gnomos ou duendes, mas vampiros existem. Fique ligado, eles podem estar numa sala de bate-papo virtual, no balcão de um bar, no estacionamento de um shopping, vampiros e vampiras aproximam-se com uma conversa fiada, pedem seu telefone, ligam no outro dia, convidam para um cinema. Quando você menos espera, está entregando a eles seu rico pescocinho e mais. Este "mais" você vai acabar descobrindo o que é com o tempo.
Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiaça, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição, e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne.
Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia. E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor.
Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.
(Martha Medeiros)

17.8.08

Fanny & Alexander é mais um filme sueco que completa a lista de obras-primas de Bergman. Indubitavelmente bom, impressiona e estupefata com a incrível sensibilidade do ser o qual o fez. O paradoxo da imaginação irremediavelmente presente no âmbito real não está retratado em nenhum outro filme tão bem quanto. O mershandinsing não aconteceria visto a total imparcialidade quanto à esses assuntos de quem aqui escreve se de fato, não o fosse verdade. É conferir para crer,

14.8.08

Incrível a quantidade de placas, cartazes e propagandas de vereadores diferentes nessas eleições, não tão diferente das anteriores. Incrível a maneira de conquistar o voto do eleitor, seja por músicas sem sentido que fixem o número do candidato, seja por 1.001 promessas ou distribuição de presentes. Incrível os motivos (ou a falta deles) sem consistência os quais os fazem serem votados. E principalmente, incrível a sua falta de capacidade de o fazê-lo merecer, ou até mesmo de saber o que significa política na história desse país, suas reais necessidades e o real motivo de existir um Congresso para tal.

9.8.08

as pessoas devem viver e pensar por si só, perceber que a efemeridade da vida não é acompanhada pela inconstância do mundo, o qual nada mais é que um complemento insignificante do infinito particular de cada um.

7.8.08

Até logo, vocês.


Impressionante a rapidez do tempo. Há exatamente 1 ano e 59 dias, acontecia o último - por um longo período - show dessa banda. Uma das noites mais lindas que qualquer uma das 5 mil pessoas presentes já viveu. Pra mim, ontem. E agora o amanhã, cadê?
Da coxia, eu via aqueles quatro barbudos, deixando que o público os levasse. Em uma noite em que as estrelas da Lapa brilharam mais do que todas as outras, caíam lágrimas sofridas e o carnaval chegava ao fim.

3.8.08

comunismo ou impopulismo?


Fã assumida de Vargas, João Goulart é para mim o político o qual mais se assemelha a Getúlio. Com algumas singularidades particularmente relevantes que o fizeram não ser tão bem-sucedido como fora Getúlio Vargas em seu governo, talvez o que mais tenha faltado à Jango foi a base política, social e militar que tivera Vargas, principalmente no seu primeiro mandato.
Dando início à primeira reforma na estrutura agrária e urbana que não contaria com o apoio da burguesia, a queda de João Goulart nos demonstra o colapso do populismo no Brasil, bem como seus limites. O populismo consistia em uma política em que o Estado, pela figura de um líder carismático, agia como intermediário entre a burguesia e o proletariado urbano, "forçando" essa mesma burguesia a realizar concessões (por meio de uma política trabalhista), enquanto mantinha o proletariado sob controle.
No entanto, o prosseguimento do processo de industrialização viabilizado pelo populismo levou à expansão cada vez maior do proletariado urbano e ao surgimento de novas reivindicações, como uma distribuição de renda global. Os trabalhadores acabaram se voltando para o Estado, a quem estava atrelados, e de lá veio o projeto de distribuição de renda: as reformas de base. Nesse momento, o Estado não mais atendia aos interesses das elites, ou seja, o populismo deixava de ser um instrumento usado em benefício da burguesia. Nada mais justo que essa mesma elite ser aquela que promoveria a desmontagem do velho Estado populista (e de seu arcabouço jurídico-político) e a criação de um novo. Tal é o caráter do novo regime que surgiu em abril de 1964.
As semelhanças com o episódio do suicídio de Vargas são significativas. Mais uma vez um líder populista ficou "sozinho" ao lado do povo contra forças conservadoras, tendo à frente as Forças Armadas. E mais uma vez, o líder rejeitou a hipótese de luta armada. Diferente do cheque-mate lançado por Vargas em 1954 com a sua morte, Jango exilou-se. Morrendo de forma misteriosa anos depois no Uruguai. A pergunta paira no ar: Quem matou João Goulart? Especulações recaem sobre a CIA. É penoso remoer mazelas de um esquadrão da morte a serviço de um regime político, que veio a influenciar o código de honra de tropas de elite, milícias e traficantes, e manchar a reputação da pátria cordial nos seus piores anos do século XX. Soda cáustica na História do Brasil! E por que não dos Estados Unidos?