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28.10.08

suspeitas algemas da liberdade

A falsa impressão ocidental de que a liberdade está ausente da vida das pessoas apenas em países não-democráticos, impede a percepção da realidade a qual nos cerca - câmeras, catracas, muros, carros blindados - pequenas prisões as quais muitas vezes são mais eficientes que a extinta penitenciária do Carandiru e são tão cotidianas que passam desapercebidas.
Se hoje sabemos o que ocorria no Chile de Pinochet é porque, querendo ou não, a máquina repressiva do Estado apresentava falhas. Mas a máquina repressiva do atual estado brasileiro não. É só olhar para as ruas. Depois das onze da noite, elas estão vazias. Nas escuras, motoristas avançam sinais sem nenhum pudor. O medo é maior. Elas não são mais habitadas por crianças brincando. Não dá mais.
Outra prisão intimamente presente na vida dos cidadãos é a eleição. Por mais estranho que isso possa parecer, é só olhar para a História: há 30 anos, não existia o direito de eleger o governante de seu Estado e hoje, 23 anos após o término da ditadura militar, as coisas não mudram tanto assim. Conversando com dez pessoas aleatórias nas ruas, isso pode ser comprovado: o cárcere das pesquisas ou de benefício próprio estará inserido em pelo menos sete delas.
É triste. Mas tudo nos condiciona a sermos limitados. Estamos presos em concepções e conceitos que não foram formulados por nós. Estamos presos em nossas casas, presos por bandidos, presos pela propaganda política - a qual não nos dá nem o direito de refletir de verdade sobre o nosso candidato. Estamos presos pela mídia, a qual nos impõe valores e vontades. Estamos presos em relacionamentos.
Enfim, as prisões do dia-a-dia podem ser percebidas a cada passo, minuto, segundo. Basta querer reparar de verdade. Podem aumentar ou diminuir, de acordo com sua classe social. Mas não adianta fugir. Até o nosso consciente é uma prisão, da qual apenas Freud, conseguiu-se libertar.

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