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13.11.08

Ciência e ética - a possibilidade (ou utopia?) da transcedência de um além de nós mesmos.

A ética lida com aquilo que pode ser diferente do que é. O terremoto que aniquila uma comunidade ou a leucemia que destrói a vida de um jovem provocam em nós um sentimento íntimo de revolta, mas não se prestam à condenação moral. São eventos naturais determinados por mecanismos causais inerentes ao mundo físico e que independem por completo da vontade e escolha humanas. Podemos é claro, evitar a construção de cidades em áreas de risco e buscar a cura da leucemia; ou aceitar estoicamente os fatos; ou rezar. Mas seria um absurdo supor que eventos como esses possam ser diferentes do que são.
Completamente distinta, é a nossa relação diante do bombardeio aéreo de civis ou de um atropelamento na porta de uma escola. Ao sentimento de revolta junta-se aqui à desaprovação moral - o juízo ético e a atribuição de responsabilidade (dolosa ou culposa) aos causadores do mal.
Fazemos isso porque acreditamos estar diante de eventos que, de alguma forma, poderiam perfeitamente não ter ocorrido. Em contraste com a ótica estritamente científica dos fenômenos, dentro da qual 'apenas o que acontece é possível', o ponto de vista moral abre uma brecha para a possibilidade de que o mundo como ele é esteja aquém do mundo como ele pode e deve ser. A abordagem ética parte da crença na existência de uma fissura - alguns diriam abismo - separando a realidade humana do potencial humano.
Dentro desta perspectiva, a importância do conhecimento científico dos fatos e de suas inter-relações causais não deve ser subestimanda. Parafraseando a fórmula kantianiana, pode-se afirmar que 'a ética desligada da ciência é vazia; a ciência desligada da ética é cega'. A abordagem ética conseqüente requer, antes de mais nada, uma apreciação objetiva da realidade como ela é, por mais que isso fira nossas preferências subjetivas ou opiniões políticas.
Além disso, há o problema da exeqüibilidade. Muitas vezes sabemos onde estamos e também para onde desejamos ir, mas supondo que os dois lugares sejam isoladamente factíveis, nada garante de antemão que exista uma trajetória alternativa exeqüível ligando os mesmos. A utopia pode estar não na crença do lugar no qual gostaríamos de estar, mas na suposição que a trajetória existe. A arte da travessia requer uma determinação realista do domínio do exeqüível.
A ciência positiva é, portanto, um insumo valioso para a reflexão ética. Mas seria um grave erro acreditar que ela pode responder sozinha pelo produto final. Uma das conquistas mais importantes da filosofia moderna é a tese de que nenhuma quantidade de conhecimento sobre o mundo como ele é pode nos permitir, por si só, dar o passo seguinte e fazer afirmações sobre o mundo como ele deve ser. Mas pode ajudar.

5.11.08

.:. soneto da separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

(Vinícius de Morais)

1.11.08

Little joy!

O óbvio utópico sonho de qualquer fã de Strokes e de Los Hermanos: um trabalho conjunto de um integrante de cada uma dessas bandas. Um dos melhores sons já ouvidos por mim nesses últimos tempos. Uma música indiscutivelmente boa e uma singela forma de matar a saudade,
/myspace.com/littlejoymusic

não tem como não gostar.