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31.12.08

60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

É finalmente a transição de uma concepção hobbesiana de soberania concentrada no Estado para uma concepção kantiana de soberania concentrada no cosmopolitismo ético e na cidadania universal. A ética dos direitos humanos é a ética que vê no outro um ser merecedor de igual consideração e profundo respeito, dotado do direito de desenvolver as potencialidades humanas, de forma livre, autônoma e plena. É a ética orientada pela afirmação da dignidade e pela prevenção ao sofrimento humano. Os direitos humanos constituem uma plataforma emancipatória inspirada no princípio da esperança e na capacidade criativa e transformadora de realidades. Só falta agora, -la em prática.

28.12.08

2008: ainda em espírito de monarquia?

Em 4 de março deste ano, foi realizado na mansão de Lily Marinho um grande jantar para se comemorar os duzentos anos da transferência da corte portuguesa para o Brasil. Nessa festa estiveram presentes cento e cinqüenta convidados da alta sociedade brasileira, além do representante da própria família de Bragança, tetraneto do D. Pedro. Foi marcante a ostentação com que o local foi decorado, dos detalhes das velas às flores douradas no jardim, da prataria até os pratos com o brasão da Família Real. "Os grandes banquetes eram assim. Sempre sonhei com uma festa dessas", declarou uma convidada.
Esse jantar pode ser comparado à tradição dos bailes oferecidos pela monarquia no período do Império, em que o luxo e os excessos tinham espaço garantido nas colunas dos jornais. Talvez a mais famosa dessas festas tenha sido o baile da Ilha Fiscal, última festa da monarquia antes da proclamação da República, ocasião em que, segundo relatos não confirmados, D. Pedro II, após um tombo teria dito: "O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu."
Festas em períodos tão distintos, mas com características tão semelhantes, fazem-nos questionar até que ponto a configuração social brasileira mudou desde a tão falada vinda da corte para o Brasil.
Se traçarmos um paralelo, assim como em 1808, quando os brasileiros foram desalojados de suas residências para abrigar os nobres que acabavam de chegar, hoje muitos brasileiros são privados do direito de moradia para outros poucos se abrigarem em condomínios luxuosos. Se as faculdades de engenharia e medicina criadas por D. João tinham exclusividade de acesso aos filhos dos nobres e da oligarquia brasileira, hoje a educação de qualidade ainda é um privilégio das elites. Se D. João mantinha o luxo da corte com favores daqueles que tinham posses e, em troca concedia títulos de nobreza, nossa realidade política mantém a mesma lógica de troca de favores, conchavos e interesses particulares acima dos públicos.
Portanto, neste ano de revisão do significado da chegada da corte portuguesa ao Brasil, não devemos apenas nos preocupar com a questão de ter sido uma fuga, ou estratégia de D. João VI, ou com criação de caricaturas das figuras históricas envolvidas, mas, principalmente, precisamos refletir sobre as conseqüências dessa vinda para nossas relações sociais, no que diz respeito à dependência econômica e à concentração de riquezas nas mãos de uma elite com pompa de corte.

25.12.08

Limitações da concepção

Tenho um amigo (fictício mais típico) chamado Mauricinho que anda perplexo. Ele é um jovem profissional urbano em ascensão, noutro dia me telefonou, agitadíssimo.
'Liga a televisão! Liga a televisão!'
Liguei, no canal que ele mandou, e lá estava um grupo de pessoas enfrentando a polícia para protestar contra a venda da Vale. Algumas até apanhando. Mauricinho queria saber o que era aquilo. Eram malucos?
Não, não, expliquei. Eram pessoas que simplesmente não concordavam com a venda da Vale, estavam indignadas e, por isso, protestavam.
'Mas por quê?', insistiu Mauricinho.
Respirei fundo e comecei a explicar que o assunto era controvertido, que muita gente achava que a privatização da Vale... Mas Mauricinho me interrompeu. Não ligava para o assunto, estava intrigado com as pessoas. Por que elas se comportavam daquele jeito? Eram pagas para enfrentar a polícia?
- Não - respondi - que eu saiba, não.
- O que elas ganham se a Vale não for privatizada?
- Diretamente nada.
O silêncio do outro lado da linha significava que Mauricinho estava pensando. Esperei o fim do processo. Dali a pouco, ele veio.
- Artes marciais! Vira uma oportunidade para treinar artes marciais e...
- Não, Mauricinho. Estavam lá por princípios. Por um ideal.
- Um quê?
- Um ideal. Você também não tem um ideal?
- Tenho.
- E não brigaria por ele?
- Claro.
O ideal do Mauricinho é ter uma BMW antes dos 30. Não tive jeito de explicar ao Mauricinho por que alguém faria tanto esforço por algo menos que uma BMW antes dos trinta. Não podia esperar que ele entendesse, mesmo. Mauricinho tem 25 anos e, em toda a sua vida, foi a primeira vez que viu uma ação desinteressada.

23.12.08

nadadenovo

só enquanto eu respirar, vou me lembrar de vocês. me tornei uma pessoa melhor porque tenho um pouco de cada uma dentro de mim. obrigada por todo esse amor e todos os momentos felizes que nós vivemos juntas por entre camarins e coxias, todos esses anos. espero ter em 2009, minha família de volta. minha segunda casa, nosso cantinho de luz.

18.12.08

além do bem e do mal

A autocomplacência burguesa, os convencionalismos, o hábito de considerar o bem-estar material como razão suficiente de vida, o hábito de se só apreciar a ciência em função de sua utilidade técnica, o ilimitado desejo de poder, a bonomia dos políticos, o fanatismo das ideologias, a aspiração a um nome literário - tudo isso proclama a antifilosofia. E os homens não o percebem porque não se dão conta do que estão fazendo. E permancem inconscientes de que a antifilosofia é uma Filosofia, embora pervertida, que, se aprofunda, engendraria a própria aniquilação da humanidade.
A oposição se traduz em fórmulas como: a Filosofia é demasiado complexa; não a compreendo; está além do meu alcance; não tenho vocação para ela; e, portanto, não me diz respeito. Ora, isso equivale a dizer: é inútil o interesse pelas questões fundamentais da vida; cabe abster-se de pensar no plano geral para mergulhar, através de um trabalho consciencioso, num capítulo qualquer de atividade prática ou intelectual; em coisas supérfluas; quanto ao resto, bastará ter "opiniões" e contentar-se com elas.
A polêmica torna-se encarniçada. Um instinto vital, ignorado de si mesmo, odeia a Filosofia. Ela é perigosa. Se eu a compreendesse, teria de alterar minha vida. Adiquiriria outro estado de espírito, veria as coisas a uma claridade insólita, teria de rever meus juízos. Melhor é não pensar filosoficamente.
O problema crucial é o seguinte: a Filosofia aspira à verdade total, à verdade nas múltiplas significações do ser-verdadeiro segundo os modos do abragente, que o mundo não quer. A Filosofia é, portanto, pertubadora da paz.

15.12.08

Filosofia, eu quero uma pra viver.

Em uma abordagem particular sobre Aristóteles, explico que as virtudes são provenientes de nossas ações, nossos costumes, que são diretamente influenciados pelo meio no qual vivemos. Nos tornamos aquilo que praticamos e praticamos aquilo que praticam ao nosso redor. Já as aptidões naturais são tudo que está inato à existência humana e portanto, não podem ser modificadas nem ensinadas, apenas se manifestam.
Tendo em vista essa diferença, podemos perceber o qüão difícil é a afirmação de um único conceito filosófico, visto que o ponto de vista do mesmo varia radicalmente em cada autor. No existencialismo de Sartre, por exemplo, podemos ver que a questão fundamental é o que fez você de sua vida e ainda sim, que o importante não é o que fazem do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele. Retomando de forma diferente às aptidões e discutindo as virtudes, mesmo milênios depois.
Para Kant, onde deve haver um comando supremo ao homem conhecido como razão que o obrigue a seguir o tal imperativo categórico, as virtudes não fazem-se tão necessárias como em Maquiavel. Arbítrios da filosofia...
A palavra "bom", por exemplo, foi Nietzsche quem procurou demonstrar, em ataque furioso contra o cristianismo, que seu significado teria sido distorcido ou limitado pela cultura cristã. Bom entre os antigos, não apenas significava justo, mas também designava o forte guerreiro. Segundo Nietzsche, o cristianismo não apenas teria negado aos homens a compreensão exata do significado de tal palavra, como também, o que seria muito mais grave e perigoso, desviado o ser humano daquilo que melhor caracterizaria e expressaria sua natureza: o seu espírito guerreiro. Os antigos valorizavam, por exemplo, a guerra, na contramão do cristianismo que se diz pacifista.
É impossível desse modo, formular conceitos filosóficos perenes e universais, incluive para ética e moral. Como dizia Karl Jaspers: 'Eis por que a Filosofia não se transforma em credo. Está em contínua pugna consigo mesma'. E seja para Niestzsche, Popper, Dostoievski, Kant, Schopenhauer e muitos outros, a verdade é um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parece a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias. Triste ilusão.

12.12.08

Uma conversa literária...

Impressionante a evolução literária brasileira - tão quanto pode-se esperar atrelada e influenciada pela portuguesa. Do barroco à literatura contemporânea, não houve sequer uma escola literária que não expressasse de alguma forma modelos e conteúdos da escola anterior - muitas vezes tão criticada - e que já anunciasse o que estaria por vir.
O classicismo resgatando os valores da Antigüidade, o barroco resgatando os medievais, o arcadismo resgatando o classicismo e assim sucessiva e ininterruptamente. A contradição, pensada errôneamente por muitos como característica exclusiva do barroco, fez-se presente ao longo de toda a evolução literária como fator preponderante e responsável por exprimir em uma manifestação artística o constante estado de incerteza humana.
Talvez contradição seja a palavra mais adequada para definir literatura brasileira e portuguesa. Não só no modernismo, em que os modernistas criticavam um sistema no qual os mesmos eram privilegiados ou falavam em buscar uma identidade cultural própria "deglutindo" valores europeus, mas em todas as escolas, em suas épocas e contextos históricos: da subjetividade exarcebada no romantismo à universalidade (muitas vezes forçada) do arcadismo português, da arte pela arte do parnasianismo à crítica direta aos parnasianos pelos modernistas por entre sapos-boi e poemas que abismaram a burguesia paulista no início do século XX. As oscilações entre cristianismo e mitologia grega de Gregório de Mattos não são nada se comparadas à todas as oscilações entre poemas sobre vasos e poemas sociais que mudaram tão drasticamente em apenas alguns anos.
A literatura brasileira foi firmada literalmente aos 'trancos e barrancos', com Gregório sendo indubitavelmente seu precursor (antes disso, ocorriam apenas manifestações) e com o romantismo, consolidando-a. Ainda há quem diga que essa afirmação de uma identidade verdadeiramente nacional veio apenas com o modernismo. Nossa literatura, até então marcadamente influenciada pela portuguesa, veio provar que não é apenas mais uma no contexto mundial.
Nossos Drummond, Vinícius, Castro Alves, Cruz e Souza, Machado e muitos outros, hoje mostram a qualidade dos poetas e escritores brasileiros em discrepância absurda e positiva para com os ingleses, norte-americanos e europeus. Eles vieram mostrar realmente o que é que o Brasil (também) tem: conversa literária. E ponha qualidade nessa conversa.