Pages

28.12.08

2008: ainda em espírito de monarquia?

Em 4 de março deste ano, foi realizado na mansão de Lily Marinho um grande jantar para se comemorar os duzentos anos da transferência da corte portuguesa para o Brasil. Nessa festa estiveram presentes cento e cinqüenta convidados da alta sociedade brasileira, além do representante da própria família de Bragança, tetraneto do D. Pedro. Foi marcante a ostentação com que o local foi decorado, dos detalhes das velas às flores douradas no jardim, da prataria até os pratos com o brasão da Família Real. "Os grandes banquetes eram assim. Sempre sonhei com uma festa dessas", declarou uma convidada.
Esse jantar pode ser comparado à tradição dos bailes oferecidos pela monarquia no período do Império, em que o luxo e os excessos tinham espaço garantido nas colunas dos jornais. Talvez a mais famosa dessas festas tenha sido o baile da Ilha Fiscal, última festa da monarquia antes da proclamação da República, ocasião em que, segundo relatos não confirmados, D. Pedro II, após um tombo teria dito: "O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu."
Festas em períodos tão distintos, mas com características tão semelhantes, fazem-nos questionar até que ponto a configuração social brasileira mudou desde a tão falada vinda da corte para o Brasil.
Se traçarmos um paralelo, assim como em 1808, quando os brasileiros foram desalojados de suas residências para abrigar os nobres que acabavam de chegar, hoje muitos brasileiros são privados do direito de moradia para outros poucos se abrigarem em condomínios luxuosos. Se as faculdades de engenharia e medicina criadas por D. João tinham exclusividade de acesso aos filhos dos nobres e da oligarquia brasileira, hoje a educação de qualidade ainda é um privilégio das elites. Se D. João mantinha o luxo da corte com favores daqueles que tinham posses e, em troca concedia títulos de nobreza, nossa realidade política mantém a mesma lógica de troca de favores, conchavos e interesses particulares acima dos públicos.
Portanto, neste ano de revisão do significado da chegada da corte portuguesa ao Brasil, não devemos apenas nos preocupar com a questão de ter sido uma fuga, ou estratégia de D. João VI, ou com criação de caricaturas das figuras históricas envolvidas, mas, principalmente, precisamos refletir sobre as conseqüências dessa vinda para nossas relações sociais, no que diz respeito à dependência econômica e à concentração de riquezas nas mãos de uma elite com pompa de corte.

Nenhum comentário: