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12.12.08

Uma conversa literária...

Impressionante a evolução literária brasileira - tão quanto pode-se esperar atrelada e influenciada pela portuguesa. Do barroco à literatura contemporânea, não houve sequer uma escola literária que não expressasse de alguma forma modelos e conteúdos da escola anterior - muitas vezes tão criticada - e que já anunciasse o que estaria por vir.
O classicismo resgatando os valores da Antigüidade, o barroco resgatando os medievais, o arcadismo resgatando o classicismo e assim sucessiva e ininterruptamente. A contradição, pensada errôneamente por muitos como característica exclusiva do barroco, fez-se presente ao longo de toda a evolução literária como fator preponderante e responsável por exprimir em uma manifestação artística o constante estado de incerteza humana.
Talvez contradição seja a palavra mais adequada para definir literatura brasileira e portuguesa. Não só no modernismo, em que os modernistas criticavam um sistema no qual os mesmos eram privilegiados ou falavam em buscar uma identidade cultural própria "deglutindo" valores europeus, mas em todas as escolas, em suas épocas e contextos históricos: da subjetividade exarcebada no romantismo à universalidade (muitas vezes forçada) do arcadismo português, da arte pela arte do parnasianismo à crítica direta aos parnasianos pelos modernistas por entre sapos-boi e poemas que abismaram a burguesia paulista no início do século XX. As oscilações entre cristianismo e mitologia grega de Gregório de Mattos não são nada se comparadas à todas as oscilações entre poemas sobre vasos e poemas sociais que mudaram tão drasticamente em apenas alguns anos.
A literatura brasileira foi firmada literalmente aos 'trancos e barrancos', com Gregório sendo indubitavelmente seu precursor (antes disso, ocorriam apenas manifestações) e com o romantismo, consolidando-a. Ainda há quem diga que essa afirmação de uma identidade verdadeiramente nacional veio apenas com o modernismo. Nossa literatura, até então marcadamente influenciada pela portuguesa, veio provar que não é apenas mais uma no contexto mundial.
Nossos Drummond, Vinícius, Castro Alves, Cruz e Souza, Machado e muitos outros, hoje mostram a qualidade dos poetas e escritores brasileiros em discrepância absurda e positiva para com os ingleses, norte-americanos e europeus. Eles vieram mostrar realmente o que é que o Brasil (também) tem: conversa literária. E ponha qualidade nessa conversa.

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