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18.12.09

Entre o certo e o errado existem todas as coisas do mundo...

O texto de hoje é uma das mil teorias que elaborei no final de semana, mas precisamente de sábado pra domingo. Tem algumas que ainda não estão absolutamente prontas ao ponto de serem traduzidas em palavras, e menos ainda em escritos. Mas essa, eu vou tentar. É a minha segunda e última tentativa.
Descobri no último dia 13, ou melhor, cheguei à conclusão, de que a gente nunca vai aprender nada nessa vida. É isso mesmo. A frase "a gente aprende com os nossos erros" é pífia, é falsa. Isso porque, como saber se o que é certo em uma situação não é errado em outra? As pessoas adoram se enganar que usaram de determinadas situações para aprender (e geralmente aprendem que não devem arriscar, que a prudência é sua melhor amiga), mas o que elas não vêem, é que uma situação nunca será igual à outra, por mais parecidas que elas possam ser, então, nem adianta colocar na cabeça "eu não devo fazer isso, caso aconteça de novo, ou deva, seja lá o que for" porque serão épocas diferentes, pessoas diferentes, e por mais que sejam as mesmas pessoas, elas não serão mais as mesmas, porque as pessoas mudam com o tilintar dos segundos - eu mesma por exemplo, não sou mais a mesma de cinco minutos atrás. A "alma" não é perene, e oscila como uma frequência ondulatória de um raio gama.
Cada um dá o sentido que quiser à sua vida: seja atrelado a uma fé em um mundo superior, no cumprimento de suas metas (como defenderia Albert Camus!), em um objetivo supremo acima de tudo. Esse objetivo pode ser uma BMW ou a paz mundial. Vai de cada um ver ou não sentido nas coisas, na sua própria existência. Mas uma coisa, é confirmada: durante essa existência não se aprende nada. E se tem algo que não se pode colocar como objetivo de vida é aprender. Conhecimento científico não é sinônimo de sabedoria. Sabedoria pode ser estar mais perto de Deus, ou mais longe. Tudo depende de como você vê. Do que você acredita. Não existe nenhuma verdade universal, porque nunca vai haver um teorema, tratado ou postulado aceito por todos. Por todas as crenças, etnias, religiões, cientistas. Até esses mesmos discordam entre si! Imaginem então...
E se você, não aprende nem da onde veio, como pode então, aprender alguma coisa com o que faz? Se isso de fato acontecesse, ninguém iria à falência, pessoas não seriam mortas por engano, ninguém sairia frustrado de relacionamentos. Erros existem? Não são os erros que existem! É só a incapacidade do ser humano criar fórmulas imutáveis pro certo e errado que existe. E a sua prepotência em não assumir isso. Portanto, desista! O "certo" de uma situação poderá ser o "errado" de outra, e não é porque deu certo uma vez que dará sempre. Você nunca irá aprender com seus relacionamentos, seu estágio, seu trabalho. Nunca irá aprender mais sobre você mesmo. Conhecimento? Autoconhecimento? A maior arma do ser humano para escolher em que acreditar. Mas não o suficiente para se achar em um patamar superior na escada da busca pelo certo e errado. Não o suficiente pra achar que a sua verdade vale mais do que a de um judeu ortodoxo ou a de um muçulmano xiita.
Por falar nisso, quem disse que devemos sempre promover a verdade? Isso é melhor pra quem? Quem foi que falou que a inverdade é um perjúrio? Quem foi que criou essa moral hipócrita que nada arrisca? E quem é que segue essa moral? Quem sabe se realmente é errado praticar a poligamia ou se é certo comer carne vermelha no domingo da páscoa? Ninguém. Porque ninguém sabe o que é o certo. Muito menos o errado.
O que fazer então? Viver. Arriscar. Jogar tudo pro alto de vez em quando. Cumprir nossas metas. Não se incomodar com regras pré-estabelecidas. Não acomodar com o que incomoda. Buscar conhecimento. De preferência, sem tentar aprender nada. É inútil. Se perder - pra se encontrar.

13.12.09

consciência x realidade exterior

esse dualismo existe?




(10:54 - domingo, algum dia de algum mes de algum ano)

7.12.09

Estou te querendo muito bem neste minuto. Tinha vontade que você estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas, e sem nenhuma importância, algumas. Fique feliz, fique bem feliz, fique bem claro, queira ser feliz. Mesmo que a gente tenha se perdido, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim.

30.11.09

Mais um sobre Andy Warhol.

Continuando a linha de raciocínio do post anterior, nada melhor do que um texto sobre Andy Warhol e toda a sua contribuição para a difusão e reinvento da pop art, assim como sua contribuição para a criação de ícones e mitos na segunda metade do século 20. Como exemplo, podemos citar o fato de que Warhol talvez tenha contribuído mais para o mito de Marilyn Monroe do que Hollywood e as revistas populares juntos. Ao retratar ídolos da música popular e do cinema, como Elvis Presley, Liz Taylor, Marlon Brando e, sua favorita, Marylin Monroe, Warhol mostrava o quanto personalidades públicas são figuras impessoais e vazias; mostrava isso associando a técnica com que reproduzia estes retratos, numa produção mecânica ao invés do trabalho manual. O problema, é que pessoas que deveriam ser imortalizadas por seus feitos e idéias, como Che Guevara, também acabaram sendo imortalizadas por essa simples série de produção em massa. Um diálogo bem pertinente de 'Edukators' (recomendo mil vezes esse filme por sinal, à todas diferentes vertentes políticas!!), dizia mais ou menos que o que antes significava protesto e subversão, agora pode ser comprado em toda loja barata. O que antes era anarquia, hoje é moda.
Mas a grande questão que quero trazer pra cá, é questionar até que ponto, elementos da cultura pop, podem ou não ser transformados em arte. O grande propósito da pop art: o épico passou a ser substituído pelo cotidiano, o que se produzia em massa recebeu a mesma importância do que era único e irreproduzível. Uma mudança vertiginosa no conceito de arte: "não só a cultura popular se torna um tema de arte, mas também a arte passa a ser integrante da cultura popular." E eu sinceramente, não sei até que ponto isso é bom, porque num mundo em que tudo vira arte, a arte clássica acaba perdendo seu valor.
Muitos defenderam que o motivo por uma arte publicitária não poder ser tomada como arte é por causa dos fins para que esta arte é feita, é uma arte que já nasce na concepção que precisa vender e ser vendida. Nisso, eu já discordo, pois, desde a extinção do mecenato, os artistas passaram a depender de capital monetário para obterem seus ganhos de vida, e até que ponto estes artistas eruditos, por exemplo, estão distantes de conceberem suas obras para serem vendidas? A diferença é que nem todos podem esperar pela sorte de terem suas obras aceitas em museus de renomes e tornarem suas obras bem rentáveis. Ou nem todos têm esse talento. Com o novo sistema social e econômico onde tudo vira capital, por quê não comercializar a arte? Já perdeu seu propósito há tanto tempo mesmo! A arte que antes, era uma coisa para poucos, passa a ser para todos. O único problema disso, é a banalização da arte como um mero produto de consumo, torná-la impreterivelmente, algo sem valor.
Apesar de ter formação erudita, Warhol veio mostrar que todo ídolo pode virar um artigo de consumo e que uma simples propaganda publicitária pode se tornar arte. O que também trouxe benefícios, pois, é a partir daí que surge exposições de filmes e fotografias. Provou uma nova concepção de arte através de um contato com a cultura comercial. Isto, é claro, dependendo do que significa arte para você.

27.11.09

Fala, Che!


Tombou no seu posto de combate pela libertação econômica, política e social da América Latina. Mas quem foi Che Guevara? Qual sua contribuição à causa socialista?
Nas décadas que se seguiram à sua trágica morte nas selvas bolivianas, Che foi perdendo sua substância e se transformando num ícone; na verdade, um dos maiores ícones da segunda metade do século 20. Seu rosto de guerrilheiro altivo foi estampado em camisetas, cartazes e pichações por todo o mundo. Se existe um lado positivo neste fenômeno, pois mantém viva a imagem de um dos maiores heróis latino-americanos; de outro, ele acaba acobertando as idéias e o projeto político pelo qual Guevara viveu e morreu: a libertação da América Latina do julgo imperialista, a conquista do socialismo e a construção do homem e da mulher novos.
O sistema capitalista tem uma incrível capacidade de incorporar alguns elementos da cultura alternativa, até mesmo revolucionária, e transformá-los em objetos de mercado, formas sem conteúdo, neutras, inofensivas. É aquele negócio: "quem tem medo assimila toda forma de expressão como protesto". No entanto, a personalidade forte de Che não pode ser presa, capturada, na camisa de força do ícone, da marca, do mito.
Por isso, para compreender o verdadeiro Che, é preciso ir para além do ícone, além da marca, além do mito. Estes não têm sangue correndo nas veias, não são de carne e osso, não sentem fome ou frio. Eles não têm dúvidas ou medos, são fantasmas que não convivem com as malditas contradições cotidianas.
Ao contrário dos ícones, os homens e mulheres de verdade, inclusive os mais revolucionários deles, padecem de todas essas vicissitudes humanas e Che foi, acima de tudo, um homem. Um homem do seu tempo. "Um grande homem? Não. Consigo ver apenas o autor de seu próprio ideal."

25.11.09

A minha tv tá louca. - Parte II

A música de ontem retrata bem a minha opinião sobre o atual (atual?) estado da televisão brasileira. Talvez o problema na verdade, esteja em toda a televisão de canal aberto. É, a partir do momento em que o editor chefe do jornal mais assistido pela população brasileira - em suma 50 milhões assistem diariamente ao Jornal Nacional - afirma produzir suas pautas direcionadas ao Hommer Simpson - como William Bonner considera o homem brasileiro do século XXI -, imagine então o que pode-se esperar dos programas de domingo à tarde. De fato, o Hommer Simpson é bem equiparável ao cidadão brasileiro no que diz respeito à instrução e conhecimento; visão de mundo. E não é à toa que a Márcia Goldschmidt renova contrato todo ano. "Ora, quem fica em casa segunda à tarde assistindo tv?" O pior, é que nem se alguém quisesse. Os programas vespertinos são absolutamente intragáveis - não que os matutinos o sejam, enfim.
Para que público a televisão brasileira é direcionada? Crianças? Idosos? Classe baixa? Na verdade, até isso é um tanto paradoxal, um grande ciclo vicioso: esse público mais atrelado à tal meio de comunicação assiste aos programas ofertados pela falta de opção e tais programas continuam no ar pela sua audiência. De certo modo, querendo ou não, esses programas mostram o que "o povo gosta"; o que vende: polícia, casos familiares mais mal-resolvidos que os seus, e realitys shows com pessoas mais burras do que nós próprios. Abrindo um parêntese, vou relatar uma lembrança lastimável: Cida, de algum dos BBB's explicando à alguém sobre a Proclamação da República no 7 de setembro (isso mesmo que vocês leram), dizendo que a Princesa Isabel era a mulher do D. Pedro I, por isso assinou a Lei Áurea; aí outro vem e completa: logo após o Dia do Fico. (???????????????????????????????????) O pior é que o Big Brother, por exemplo, já faz parte da cultura popular do povo brasileiro, e eu conheço até gente que nem sai de casa em dia de paredão. Mas fica a pergunta: programas dessa espécie vão ao ar porque o povo gosta ou o povo gosta por que é a única coisa que passa?
Ana Maria Braga de manhã ensina à fazer comidinhas. Metendo Bronca ao meio-dia ensina a fazer barraco. Aí vem o programa da Sônia Abraão falando sobre o Big Brother (?), ou o da Márcia ensinando a falar mentira. A novela das 8 é um parágrafo à parte. Nasceu com o propósito do entretenimento. Mas sinceramente, tem como se entreter vendo sempre o José Mayer como galã e a Helena sempre com o final feliz? A cena repete. A cena não se inverte. Sempre a mesma história: só muda os personagens. Por isso continuo com a minha teoria de que a novela das 8 nasceu na verdade com outros propósitos específicos: além de alavancar sempre renovando o mercado da moda, fazer o Hommer Simpson (ou no caso, a Marge) dormir feliz após um longo dia de jornada dupla. E dá certo. A Rede Globo? Manipula o Brasil. E ainda que fosse só ela... dá certo. Afinal, o canal aberto em suma, está enraizado intrínsecamente ao seu um único propósito: alienar o país. E o pior? Dar certo.

24.11.09

A minha tv tá louca. - Parte I

A minha tv não se conteve
Atrevida passou a ter vida
Olhando pra mim.

Assistindo a todos os meus segredos,
minhas parcerias, dúvidas, medos.
Minha tv não obedece.

Não quer mais passar novela, sonha um dia em ser janela e não quer mais ficar no ar. Não quer papo com a antena nem saber se vale a pena ver de novo tudo que já vi.

Vi.

A minha TV não se esquece nem do preço nem da prece que faço pra mesma funcionar. Me disse que se rende a internet em suma não se submete a nada pra me informar.

Não quis mais saber de festa não pensou em ser honesta funcionando quando precisei. A notícia que esperava consegui na madrugada num site, flickr, blog, fotolog que acessei.

A minha TV tá louca, me mandou calar a boca e não tirar a bunda do sofá. Mas eu sou facinho de marré-de-sí, se a maré subir eu vou me levantar. Não quero saber se é a cabo nem se minha assinatura vai mudar tudo que aprendi, triste o fim do seriado, um bocado magoado sem saber o que será de mim.

Ela não SAP quem eu sou, ela não fala a minha língua...
(She doesn't speak my tongue)

Não.
"Pô tô cansado de toda essa merda que eles mostram na televisão todo dia mano, não aguento mais, é foda!"

Enquanto pessoas perguntam por que, outras pessoas perguntam por que não? Até porque não acredito no que é dito, no que é visto. Acesso é poder e o poder é a informação. Qualquer palavra satisfaz. A garota, o rapaz e a paz quem traz, tanto faz. O valor é temporário, o amor imaginário e a festa é um perjúrio. Um minuto de silêncio é um minuto reservado de murmúrio, de anestesia. O sistema é nervoso e te acalma com a programação do dia, com a narrativa. A vida ingrata de quem acha que é notícia, de quem acha que é momento, na tua tela querem ensinar a fazer comida uma nação que não tem ovo na panela, que não tem gesto, quem tem medo assimila toda forma de expressão como protesto.

Num passado remoto perdi meu controle...
Num passado remoto perdi meu controle...
Num passado remoto...

Era vida em preto e branco, quase nunca colorida reprisando coisas que não fiz, finalmente se acabando feito longa, feito curta que termina com final feliz..

Ela não SAP quem eu sou, ela não fala a minha língua.
Ela não SAP quem eu sou (sabe nada...), ela não fala a minha língua...

Eu não sei se pay-per-view ou se quem viu tudo fui eu.
A minha tv tá louca.
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[Xanéu nº 5 - Composição: Fernando Anitelli]

23.11.09

Eu sou igual à você, e daí?

Todo mundo acha que é diferente - bem, de fato, todo mundo é, eu mesma, nunca vi nenhum clone meu andando por aí. O único problema, é que essa busca decadente pela singularidade acaba levando todo mundo ao abismo da igualdade, da normalidade. É cool gostar de coisas que ninguém gosta, conhecer coisas que ninguém conhece. Se a sua banda preferida há anos for descoberta pela massa? A banda perde seu encanto. Puff. Por quê? A banda deixou de tocar música boa? Não, simplesmente "os novos fãs não sabem o que cantam". E como VOCÊ sabe disso? E isso não é só com música. Vejo acontecer frequentemente com filmes, livros, lugares... Dei ênfase em música porque é mais comum você ver alguém gritando "essa é MINHA música!!" - e de fato, nada impede que o seja, porém, nada também impede que o seja de outrem. Achar que é diferente só torna você igual à todos os outros. Diferente é ser normal.

18.11.09

Há mais ou menos um ano definia-se em um jogo político o nome do homem que iria ser a peça fundamental do jogo de xadrez planetário. Barack Obama ganhou esse jogo sob a bandeira da mudança. MUDANÇA. Em caps mesmo. Há poucas semanas da Conferência do Clima em Copenhague, o presidente dos Estados Unidos afirma: "Os países em crescimento também têm de pagar a conta". Ora, essa era a política do governo Bush, presidente!
Muito fácil falar que os países em crescimento têm de pagar a conta, já estão acostumados com isso, ? A exploração da América Latina no século XVI movimentou todo um comércio decante de especiarias. As riquezas da Coroa Espanhola se deveram às riquezas das ilhas da América Central. A partilha da África na Conferência de Berlim no final do século XIX foi a responsável pelo desenvolvimento da indústria em todo o continente Europeu. Partilha essa que abrigou tribos rivais em mesmos territórios, que não teve nenhum planejamento prático e que tinha como único objetivo moldar o mundo sob a ideologia capitalista de uma Europa que nunca teve nada para oferecer. E assim foi com os Estados Unidos: invadiram o Irã quando precisaram de petróleo, invadiram o Iraque para fundamentar uma guerra louca contra o terrorismo.
Agora vir falar em créditos de carbono? Muito fácil pedir para países emergentes a estagnação de seu processo desenvolvimentista depois de anos de exploração e sucumbência. No momento do início de seu lento progresso, falar: "Vamos ajudar o meio-ambiente!!". Um absurdo.
A política tem que vir primeiro dos grandes responsáveis por isso tudo. Não mandar-nos pagar uma dívida que não é nossa. Os países em desenvolvimento podem até ajudar, mas a obrigatoriedade é de vocês. Se propor a uma redução concreta de emissão de CO2 é o primeiro passo. O que já deveria ter sido feito há muito tempo. A Conferência de Copenhague vem aí. Será que George W. Bush ainda está no poder?

só o amor é luz


"E sentiu em relação à ela uma identidade tão grande, que logo do primeiro encontro, declarou: 'a partir de agora, eu tomo conta de você'."

9.11.09

Arquivos da repressão já!!!!

Estamos em 15 de abril de 1964 e um golpe de Estado do Exército brasileiro acaba de derrubar João Gourlat. O país é agora, governado pelos militares, e assim permaneceria por longos 21 anos. Já não se sabe mais em quem confiar. Os espiões do governo estão infiltrados nas salas de aula, nas reuniões dos sindicatos, em todos os negócios. Qualquer organização é duvidosa. Qualquer dúvida, uma tortura.
24 anos depois? Os arquivos da repressão ainda não foram revelados. Ora, a Central Globo de Produção é o 4º poder do país, revelá-los, seria escrachar a cumplicidade da família Marinho em esconder e promover as atrocidades cometidas. A Globo beneficiava-se dessa ditadura, como se beneficia até hoje de qualquer governo no poder. Porque são raríssimos os casos de conseguir vencer uma eleição sem o seu apoio, e ainda tá para existir na história desse país um candidato que chegue à presidência sem o apoio da burguesia brasileira.
Luís Inácio Lula da Silva tinha tudo para ser diferente, mas se vendeu. E como chegou onde está com o apoio de uma elite, não pode virar de costas para a mesma nesse momento. E assim, a história vai se repetir até o fim dos tempos. Revelar os arquivos da repressão seria revelar as mãos sujas de sangue da maior parte dos que têm imunidade parlamentar há algum tempo. Seria mexer com a alta classe burguesa, por revelar seus trâmites e culpabilidade na maior vergonha da nação. Eu disse maior vergonha? Menti. A maior vergonha é em 2009, os arquivos ainda não terem sido revelados - se é que um dia o serão. É os militares andarem anistiados e livres por aí, enquanto temos que engolir histórias de suicídios e desaparecimentos misteriosos.
Precisamos de mobilização. De guerrilhas do Araguaia. De memória. É disso o que o brasileiro mais precisa. Abrace esta campanha. É uma das minhas mais urgentes. Arquivos da repressão, mostrem-se à nação.
"A ditadura permanece, enquanto a verdade não aparece."

8.11.09

protestantismo liberal x catolicismo conservador

Primeiramente, gostaria de dedicar esse texto ao meu namorado, que me encheu a porra do saco para escrevê-lo. Te amo, námo!
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Pois bem, é 1929 e a bolsa de valores de Nova York quebra. Não só pela concessão de capitais especulativos desenfreados à uma classe média enriquecida pela guerra que assolou o Velho Mundo 12 anos antes; na verdade, os primeiros sinais de crise surgiram em meados dos anos 1920, quando a Europa, já recuperada da Primeira Guerra Mundial, diminuiu as importações de produtos agrícolas dos Estados Unidos. Isso levou muitos agricultores norte-americanos à falência. A indústria também foi atingida pela diminuição das importações, configurava-se assim, uma crise de superprodução.
Durante a guerra, a indústria bélica levantou o país, movimentou uma economia responsável por levar os Estados Unidos ao status de potência mundial. O american way of life era encarado por muitos como o que havia de mais moderno no mundo. Acontece que a economia norte-americana era apoiada sobre alicerces instáveis. E o mundo, ainda não estava pronto para as nuances de um capital especulativo global. Da especulação para a realidade, a utopia do liberalismo econômico finalmente quebrou.
Os protestantes, por sua vez, tiveram que fazer o Estado intervir fundo nessa economia. E essa intervenção veio, e o New Deal de Franklin Roosevelt deu bons resultados. Após a Grande Depressão, passaram-se anos até cair por completo a idéia do welfare state (estado de bem-estar social). Foi na década de 70, a partir da Revolução Técnico-Científica que se voltou a falar no liberalismo econômico. Sob a faceta do neoliberalismo.
A verdade é que os norte-americanos têm fama de serem liberais em tudo, estarem à frente do seu tempo, lutarem contra as guerras (como a do Vietnã e a do Iraque). Mas isso não passa de doce ilusão. O estadunidense adora uma guerra e só luta pelo seu fim, quando está perdendo, quando há grande mobilização midiática. E sinceramente, tem como ser diferente? Ora, a potência norte-americana se constituiu sobre o espectro de duas guerras mundiais; a ideologia democrático-capitalista se expandiu através da guerra fria.
O liberalismo é outra fachada. Liberais até a página dois. Quando isso não fere seus interesses. Cortar fundo os subsídios do etanol brasileiro parece ótimo. Ir de encontro aos acordos bilaterais do Mercosul também. Apóia de corpo e alma organizações como a OMC, mas na hora de suas reuniões levantar o dedinho e abaixar suas tarifas alfandegárias... onde fica o liberalismo dos protestantes?
O Brasil é um país conservador. Fato. Tem tradição católica e sonha com o dia de conquistar sua cadeira permanente na ONU. Não faz caso com a Bolívia na estatização de empresas brasileiras de gás natural só pra ter o apoio total da América do Sul na disputa. Os Estados Unidos, se dizem liberais. Liberais onde? Podem ter tido uma independência precoce, estar na frente do Brasil na abolição da escravatura, ter escolhido tornar-se um Estado democrático de Direito previamente. Têm um sistema eleitoral muito mais avançado que o nosso, e o PIB, nem se fala. Porém, desde quando desenvolvimento quer dizer liberalidade? Onde está toda essa liberalidade no que diz respeito à economia? Cadê o protestantismo liberal no respeito ao mundo islâmico?
Podemos ter inveja da historiografia norte-americana, sim. Ter inveja do que eles fizeram do que fizeram deles. Mas a cultuar um liberalismo que só existe na teoria e querer para si a responsabilidade de tornar o resto do mundo mero agente regulador de seus interesses, prefiro ainda, ficar com meu catolicismo conservador. Os Estados Unidos querem pré-definir o mundo por um padrão criado em Washington - não vejo nada de liberal nisso. Pelo menos, o conservadorismo brasileiro é mais honesto consigo mesmo: prega um culto a um país que ficará conservado no seu estado atual e permanente de "país emergente". E não, à Terra do Nunca.

5.11.09

Bem guardado nos diários de Andy Warhol

Numa das minhas intermináveis conversas sobre a vida, os amores, as dores, as alegrias e tudo mais com a Nayara, nós duas falamos sobre o "Respeite a natureza". Contextualizando tudo, passamos a adaptar isso à vida. O "Respeite a Natureza" é, sem duvida, o respeito ao ser humano, aos próprios sentimentos, dores, faltas, "tempos", esperas, acontecimentos. É um dos meus defeitos (será muito defeito?) ser imediatista. Querer que tudo aconteça. Mas não assim normalmente. "Eu quero tudo e quero agora". Às vezes isso angustia, mas te faz correr atrás das coisas. Quando essa angústia chega, o primeiro pensamento que tende a vir precisa ser o respeite a natureza. Das coisas, do tempo, do sofrimento, do corpo. Saber que não adianta pular etapas e nem se afogar dentro do mais obscuro que existe em ti. Respeitar o que é o ser humano enquanto dor e felicidade. Vida pra continuar e, às vezes, um nó na garganta pra carregar. Às vezes as pessoas deixam que os mesmos problemas as tornem infelizes por anos à fio, quando deveriam dizer apenas e daí? Essa é uma das minhas expressões favoritas; e daí? minha mãe não gostava de mim. E daí? Meu marido não faz amor comigo. E daí? Não sei como consegui sobreviver aqueles anos todos, antes de aprender esse truque. Custei muito a aprendê-lo - mas uma vez que a gente aprende, nunca mais esquece.

2.11.09

Perturbação dos sentidos

05:21. Acabei de terminar de ler o livro que me atormenta há duas semanas. História do olho. Sonhei com imagens do Pierre Molinier e André Kertész – de fato, Bataille está para além do Breton e da obviedade, como referência, de Cronenberg e Lynch; Bataille trouxe ligações imagéticas inesperadas e perturbadoras.
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Creio na poesia, no amor e na morte.
Escrevo um verso, escrevo o mundo; existo, existe o mundo.
Da ponta do meu dedo mínimo corre um rio. O céu é sete vezes azul.
Esta pureza é de novo a primeira verdade, a minha última vontade.
Risos.

26.10.09

Com amor, para Ronaldo Guerra.

O post de hoje começa sendo na verdade uma das mil pesquisas que fiz nesses últimos meses para o meu professor de história da fotografia. Só que a dessa semana, resolvi transformar em texto. Descobri nesse intervalo de tempo fotógrafos incríveis, dos quais nunca nem tinha ouvido falar, mas que seus trabalhos inspiraram gerações inteiras à retratar de forma demasiada artística nada mais do que a banalidade. Seja com qualquer uma das influências vanguardistas: dadaístas, cubistas, surrealistas etc., os fotógrafos da semana mereciam no mínimo uma análise aprofundada de seus trabalhos e todas as implicações para a fotografia analógica tal qual conhecemos hoje, porém, tendo em vista o pouco conhecimento de quem aqui escreve, minha análise supérflua será o início de uma longa jornada rumo à esses artistas no mínimo, interessantíssimos.

Vou começar por Man Ray. Fundador do grupo dadaísta de Nova York após sofrer influência direta de Duchamps, é o maior nome da fotografia da década de 20! É a fusão do dadaísmo com o surrealismo na pintura e na fotografia. "Pinto o que não pode ser fotografado, algo surgido da imaginação, ou um sonho, ou um impulso do subconsciente. Fotografo as coisas que não quero pintar, coisas que já existem." Sentou em cafés parisienses ao lado de Picasso, Dali, Miró e desvendou novas facetas para o movimento cubista. Fundou uma das maiores academias de arte de Nova York, a qual abrigou artistas como Berenice Abbott, fotógrafa renomada por seu acervo fotográfico documentário sobre NY.



Man Ray

Berenice Abbott


É impossível ter vivido até meados do século XX sem ter sofrido nenhum tipo de influência das vanguardas européias. A mais forte delas no que diz respeito à fotografia, é a surrealista. Também, pudera, com as três linhas de frente lideradas por Freud na psicologia, Bergson na filosofia, e Breton nas artes plásticas, era quase impossível ficar imune. E é por isso que o fotógrafo ponto alto da pesquisa - Manuel Alvarez Bravo, tem tantos traços surrealistas, por mais que não se considerasse um ativista de nenhum movimento artístico ou literário, isso fora inevitável: era exposto a muitos de seus fundadores.

Além disso, a realidade exterior de um artista influencia irremediavelmente suas obras. Por mais que os expressionistas tentem dizer o contrário, meu argumento é simples: o que está fora revela o que está dentro, logo, de um jeito ou de outro, a arte também é de maneira subjetiva, um retrato da realidade. Caso ela seja interna, está amparada intrínsecamente pela externa. É por isso que Manuel Bravo é revolução. E essa vem da América Latina. O movimento zapatista, a revolução Mexicana e o assassinato de Trótsky no mesmo período, estão relatados em sua fotografia como não o foram de nenhum outro modo, por nenhum outro ser vivo. É também (por que não?) um trabalho político. Mas ainda assim, por mais que estivesse envolvido com muitos artistas e escritores revolucionários, não deixou que a política oprimisse os aspectos pessoais do seu trabalho e continuou a criar belas fotografias de sonho (olha a influência surrealista bretoniana aí!) e da vida no México até o fim de seus episódios contínuos. Porque os capturados por uma máquina? Esses não morrem nunca! Um ícone da arte contemporânea e da fotografia latina discutido em todas as academias de arte do mundo.





Manuel Alvarez Bravo

Agora é a vez de August Sander. Fotógrafo alemão nem tanto conhecido pelo próprio contexto histórico no qual viveu. Como todo fotógrafo que se preze, buscava relatar a realidade nua e crua, a vida como ela é e não como ela deveria ser. O problema é que a realidade era o regime nazista da década de 30. Eram as câmaras de gás de Hitler, a censura, a opressão, o extermínio, a ideologia imposta sobre uma ótica anti-semita. Logo, o seu trabalho e vida pessoal eram muito limitadas. Seu primeiro livro fotográfico foi apreendido em 1936 e as placas fotográficas destruídas. Seu estúdio foi destruído em um bombardeio de 1944.

Seu trabalho inclui paisagem, natureza, arquitetura e fotografia de rua, mas ele é mais conhecido por seus retratos, como exemplificado por sua série de "Pessoas do Século 20". Nesta série, ele pretende mostrar um corte transversal da sociedade durante a República de Weimar. A série é dividida em sete seções: o agricultor, o comerciante hábil, a mulher, classes e profissões, os artistas, a cidade, e as últimas pessoas (pessoas sem abrigo, veteranos, etc.).

O legado de imagens que Sander deixou ainda assim, não foi pouco. Porém, em um acervo de 40.000 imagens, os ensaios fotográficos são apenas uma amostra, do que o mundo deixou de ver pelo regime nazista.


Pessoas do século 20 - August Sander


E como sempre: o melhor por último. É de André Kertész que falo. Sua fotografia foi sem dúvida, a que mais me impressionou. É o mais complexo dos fotógrafos e sua vida (logo, sua arte) é dividida em vários períodos. Conhecido por seus esforços em desevolver o que hoje chamamos de ensaio fotográfico, foi completamente autodidata com relação à fotografia, pela própria falta de apoio de sua família. Pioneiro e peça-chave da fotojornalismo, sua carreira - muito pouco conhecida em vida - é dividida em três fases.

A primeira, é durante seu período húngaro. Acompanhando o exército austro-húngaro durante a Segunda Guerra Mundial, a fotografia das trincheiras trás o leitor ao combate. É esse o papel do jornalista, e porque não dizer... do fotojornalista. Crucial para o desenvolvimento dessa profissão, seus relatos - através das fotos - sobre a guerra são uns dos mais bonitos que já vi. (Lembra professor: "quero fotografar uma guerra"? Esse desejo partiu de Kertész!). É dessa época também o seu trabalho "Distorções". Uma de suas maiores obras-primas, que surgiu a partir da fotografia de um nadador cuja imagem está distorcida pela água.

Após ter sido ferido na guerra, em Paris, vem sua fase mais brilhante. É o resultado de encontros com personalidades como Brassai e Man Ray. É o resultado de seu impressionismo com relação ao cubismo e ao dadaísmo, movimentos artísticos presentes em inúmeras de suas obras. Foi onde durante toda sua carreira, obteve a maior projeção. Porém, ínfima perto do que merecia (e do que teria após sua morte). Kertész, sabia muito bem disso.

Chegou em Nova York com a inspiração de finalmente, encontrar sua fama na América. Porém, os trabalhos nunca lhe agradavam. Um pouco de prepotência talvez achar que suas obras estavam além dos trabalhos ofertados. Mas a verdade é que para Kertész não havia porquê fazer algo que fosse de encontro à sua vontade e à sua maneira de ver a vida, de fotografá-la. Para completar, uma revista que finalmente publicou uma série de fotografias do artista, creditou-as a Ernie Prince, ex-chefe de Kertész. Enfurecido, Kertész resolveu não trabalhar com revistas ilustradas nunca mais. Publicando ainda assim alguns trabalhos, o apogeu de sua fase surrealista - proveniente do fervilhão cultural europeu - como todos os outros, não teve o destaque que merecia. A sorte não permitiu a André Kertész que o mundo conhecesse em vida todo o legado que ele deixaria para a arte e para a fotografia, ainda que sua gama de assuntos fosse limitada. Da fotojornalismo ao movimento surrealista retratado por ele como por nenhum outro, o acaso mais uma vez, torna-se peça fundamental. Como Kertész - sem dúvida, meu preferido.




André Kertész

Da paixão para a expressão. É assim na fotografia, e assim que escrevo sobre minhas mais novas descobertas que meu amado curso me proporcionou: tais fotógrafos e tantos outros. Brassai, Molinier, Bresson... quem sabe ainda escrevo sobre esses também. - Claro, se eu ganhar algum ponto extra.

19.10.09

le tourbillon de la vie

Em algumas situações, meu lado crítico de cinema clama por vir à tona. Observando de forma contínua minha evolução escrita, fica claro minha pugna por determinados estereótipos de filmes hollywoodianos (em suma maioria) e minha clara devoção por alguns diretores - Truffaut é um deles. Tentando despertar esse meu lado crítico após um final de semana repleto de filmes europeus, não podia deixar de comentar sobre uma de suas maiores obras-primas: Jules et Jim.
Será que Henri-Pierre Roché, algum dia pensou em obter tamanha projeção de sua imagem ao escrever esse livro? E será que de fato o teria, se casualmente, em um passeio por um dos sebos de Paris, ninguém menos que o cineasta François Truffaut, encontrasse sua obra e decidisse a partir de então levá-la às telas? É muito provável que não. Ele era apenas mais um escritor anônimo em um fervilhão cultural que há muito havia se tornado a capital francesa. Mas o acaso fez com que assim não o fosse. E da literatura para o cinema, o "hino à vida" de Truffaut, com extraordinária atuação de Jeanne Moreau, vem de forma única cantar o amor e a amizade.
É 1962 e o libertário triângulo amoroso de Jules, Jim e Catherine, vem com um desfecho surpreendente, diálogos eloquentes, incitações pertinentes. Reflexões paradigmáticas. Aborto de idéias. Relatos que sutilmente... incomodam. Por clamarem um pouco de nossas dúvidas e verdades. Contestar conceitos da sociedade. Como pode o cinema trazer tudo isso à tona em apenas 105 minutos?

Pretenção. Pois Truffaut vem provar que pode. E com classe!
Lindo. Como o turbilhão da vida.

E tudo isso, sem falar na trilha sonora...

14.10.09

Eu também sou desmedida.

'Porque há desejo em mim, é tudo cintilância. '
(Hilda Hilst)
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'O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade...sei lá de quê!'
(Florbela Espanca)
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A moderação sempre me intrigou, não consigo compreendê-la direito e tenho um certo medo dessas pessoas deliberadas e pausadas, que pensam no que lentamente falam e fazem sempre o que devem fazer, nos limites que querem observar. Só consigo ser desabrida e só me dou efetivamente bem com os desabridos, seja como pessoas, seja como artistas ou seja como pensadores.

12.10.09

Holanda: é pra lá que eu vou!


A nação holandesa surgiu como resultado da união de sete províncias que se rebelaram contra o domínio espanhol em 1579 e passaram a funcionar como uma federação independente a partir de 1588. Uma delas chamava-se Holanda, nome que depois passou a designar o conjunto das Províncias Unidas dos Países Baixos.
Ao contrário de outras regiões da Europa, onde ainda vigorava o sistema feudal, ou que haviam se constituído em monarquias absolutistas, as sete províncias dos Países Baixos adotaram a República como forma de governo.
Na República holandesa, cada província tinha autonomia para decidir suas questões internas. Além disso, em uma época em que a intolerância religiosa entre católicos e protestantes provocava sangrentos conflitos na Europa, a Holanda se tornou um símbolo da liberdade de crença.
A liberdade religiosa e a garantia de direitos políticos para a população civil fizeram com que muitas pessoas que sofriam perseguições em seu país de origem procurassem abrigo na Holanda. Ali, puderam publicar livremente jornais, panfletos e livros que logo se espalharam pela Europa. Em tais textos, os autores criticavam a Igreja católica e os regimes absolutistas.
Nessas circunstâncias, o século XVII foi de grande efervescência cultural na Holanda. Poetas, intelectuais, músicos e filósofos formavam associações para melhor difundir suas obras e defender seus interesses. Alguns dos melhores pintores do norte da Europa, como Frans Halls, Rembrandt van Rijn e Jan Vermeer, viviam e trabalhavam em território holandês. Ao mesmo tempo, dois dos filósofos precursores do Iluminismo - o inglês John Locke e o francês René Descartes - residiram na Holanda, onde participaram dos debates intelectuais que, no século XVII, fizeram desse país um lugar de produção de idéias originais.
Mais uma vez, faz-se necessário remontar à história, para entender porquê ainda hoje, a Holanda é um país à frente do seu tempo. Ela nasceu desafiando as tradições pragmáticas européias, e no século XXI, desafia os dógmas de uma civilização ainda influenciada pela cultura cristã. É o caso da legalização do aborto nesse país, e da existências de ONG's holandesas que viajam pelo mundo inteiro fazendo valer esse direito inerente ao sexo feminino.
Mais exemplos não faltam: a busca pelo aumento da taxa de natalidade permitindo relações sexuais em praça pública a partir das 11 da noite e o fato de ser o primeiro país no mundo a legalizar a maconha, coloca de novo a Holanda no topo da liderança pela modernidade e pela adequação do ordenamento jurídico à realidade, o que falta ao extremo nos países retrógrados e conservadores do mundo contemporâneo; como o nosso.
A Igreja era a culpada pelo atraso durante a Idade Média. E agora, a culpa é de quem?

8.10.09

dentro do sono

A história de hoje começa no verão de 2006. É julho e Salinas é o palco principal. É o palco de histórias ímpares, improváveis, subversivas e inacreditáveis, como essa que conto agora. Acabo de chegar da minha viagem de 15 anos pela América do Norte, minha guia (de 17 anos na época), se tornara minha amiga e ia me dar uma carona pra praia. O motorista? seu irmão mais velho, ou o meu namorado, o amor da minha vida, se assim preferirem. Mas isso, na época eu ainda não sabia. E assim sucederam caronas atrás de caronas, todas as tardes, conversas tímidas, encontros casuais, amigos em comum, até o último dia de julho, no qual, por ironia do destino, eu tranquei o seu carro com a chave dentro. Tudo conspirava pra que ele me odiasse, mas assim não foi. Nossos melhores amigos se pegaram e surgiu uma vontade absurda de ambas as partes de formarem um novo casal: nós dois. Mas os desencontros da vida não deixaram que assim o fosse, pelo menos, não naquele ano. E olha que tentaram. Nossos relacionamentos paralelos também atrapalharam um pouco, mas quando chegou o dia, o 27 de abril de 2007, em que eu tive que ir tirar visto em Brasília e ele também, o acaso fez com que fôssemos juntos, na mesma excursão, mesmo vôo, mesma fileira de assentos (tá, isso nao foi o acaso, hahha). E a partir daí, duas metades começaram a se completar, se entender ao mesmo tempo. Em belém, tudo virou confusão. Um quebra-cabeça de cabeça para baixo. Intrigas que só com o tempo se tornaram risadas. Pessoas que no fim das contas só foram capazes de aumentar ainda mais a graça dessa história. Se ficamos juntos? não. Acho que no fundo, nem pretendíamos ainda. Só o tempo veio mostrar o que era certo. Afinal, onde já se viu o loro apaixonado por uma menina? Mas quem já conseguiu dominar o amor? O caso, é que ele foi atrás dessa menina, escreveu cartão, fez serenata, desenhou na neve, pixou o asfalto, mandou flores, pediu ela em casamento, gritou pra lua, e conseguiu. Conseguiu dominar o amor, o amor dela, o meu amor. Que há sete meses, me faz ser a pessoa mais completa que eu poderia ser. Revela em mim tudo o que há de belo e fascinante, como esse amor que enlouquece e entorpece toda vez que sinto um frio na barriga só de pensar em estar do teu lado.

E que assim seja. Sempre: nossas palhaçadas, nossos filmes (e todos os outros que não conseguimos chegar ao fim), nossas comidinhas (as mais deliciosas tortas de banana, os temakis e as tuas pizzas que sempre saem queimadas), nossas músicas, cheiros, conversas, passeios, abraços, dengos, preguiças, teu conforto, nossos apelidos (alguns odiosos ¬¬ hahha), tua voz, teu cheiro, tua respiração forte, tuas implicâncias, nossas loucuras, nossos silêncios e até nossas brigas, sempre resolvidas no mesmo momento. Acho que nunca ficamos mais de 15 minutos sem nos falar. E eu amo isso. Amo nossas discussões sobre os mais variados assuntos. Contigo sei que posso sortear qualquer tema em uma caixinha e começar uma calorosa conversa sobre o mesmo. Amo cada momento, cada encontro, seja para uma cervejinha gelada, ou seja para uma noite capiciosa. Amo nossas situações improváveis, amo cada parte tua que eu fiz questão de decorar. Eu amo os sábados à noite. Eles são vermelhos, laranjas e amarelos. São fortes, são cores, são sensações. Na verdade eu amo a terça, a quarta, a quinta... só não a segunda porque a gente quase nunca se vê.

Tu és a minha melhor companhia, meu desejo de sensações compartilhadas.

Não precisamos de rótulos. Não precisamos de evidências. Só tenho a certeza de que quero dividir contigo todos os episódios da minha vida. Porque 'o sono de Mariana sempre chega antes do fim, na melhor parte da história que sua mãe insiste em lhe contar todas as noites.'

5.10.09

Brasil x EUA

Não há nas Américas dois países tão parecidos como Brasil e Estados Unidos, ambos terra de índios dizimados e gigantes continentais que apostaram na agricultura e na escravidão. Mas, por trás das semelhanças, existem diferenças cruciais.
No Brasil, os portugueses, depois de séculos sob a mística da poligamia moura, eram mais disponíveis aos impulsos dionisíacos diante da beleza das índias e das negras. Nos Estados Unidos, os ingleses brancos, caucasianos, não. Para os portugueses, a mulher era alvo e presa, e até padre católico se esgueirava nas sombras por um chamego de negra. Para os ingleses, a mulher era uma companheira e braço para o trabalho. Os portugueses chegaram sozinhos, sem mulher nem filhos, movidos pelo desejo de enriquecer e voltar à pátria-mãe, vitoriosos. Os ingleses, não. Vieram com família, dispostos a criar uma vida nova na nova terra. Nas pinturas que retratam as primeiras horas do Brasil e dos Estados Unidos, só no norte aparecem mães embalando berços. Os ingleses queriam fundar sua pátria calvinista. Os portugueses estavam em busca do Eldorado. Os ingleses eram colonizadores. Os portugueses, conquistadores. Longe da família, já com a cobiça pela riqueza tomando o lugar antes ocupado pela reverência católica à pobreza, o português, nos trópicos, fez-se outro.
Do caldeirão de diferenças e semelhanças nascem ordens políticas e econômicas tão diferentes entre o norte e o sul. Mas por quê? As instituições decorrem das condições materiais de cada lugar ou são moldadas pelo interesse do colonizador?
Acho que na verdade, isto é uma relação recíproca. Sejam as instituições produtos do meio ou do homem, ou um pouco de cada coisa, é certo que o atraso do Brasil resulta de sua riqueza inicial. É o paradoxo da abundância. A fartura de recursos naturais no raiar da colonização explica as instituições deformadas: exclusivistas, autoritárias, conservadoras. A relativa pobreza do norte da América Inglesa, onde a agricultura não convidava à escravidão e a propriedade privada da terra foi multiplicada, é a razão de suas instituições mais funcionais: homogêneas, igualitárias, democráticas.
Não há como tentar buscar respostas para essa discrepância absurda que separa o Brasil dos Estados Unidos no que diz respeito à educação e desenvolvimento, se não remontarmos à história. Os puritanos, que fugiam da perseguição anglicana na Inglaterra, vieram para as Américas com o propósito claro de fixar raízes rumo ao progresso na nova terra, aquela, seria sua nova pátria. Ao passo que os portugueses tinham um único propósito: explorar nossas riquezas. Somos colônia de exploração, não de povoamento. Esse é um fardo que teremos que carregar para sempre. Grande parte do motivo de nosso atraso em relação ao norte. Somos 46 anos atrasados só na declaração de independência, por sinal, esta feita pelo próprio descendente na família Real de Bragança. Nos tornamos república de forma apática, sem nem tomar conhecimento. São 23 anos de atraso na abolição da escravatura. 112 na redução do analfabetismo. Algumas singelas amostras do porquê de uns 200 no quesito desenvolvimento.
O brasileiro se acha esperto, acha que dá um "jeitinho" para tudo. Jeitinho? Então por que nunca demos um 'jeitinho brasileiro' na reforma agrária e urbana? Por que todas as vezes que tentaram fazer isso acabaram sendo torturados por agentes secretos da CIA? Ou morreram misteriosamente no Uruguai, como foi o caso de João Gourlat. Queria ver ao menos uma vez na minha vida darem um jeitinho para o Brasil deixar de ser "o país do futuro" e se tornar o país do presente. Alguém conseguir chegar ao topo sem a ajuda da elite, ou o que seria mais difícil, sem o apoio norte-americano.
É, a principal diferença está justamente aí: enquanto os americanos protestantes sempre trabalharam rumo ao progresso e ao desenvolvimento, os que mais tarde formariam o povo católico ocioso brasileiro - índios, negros e portugueses - já enraizavam o jeitinho brasileiro rumo à estagnação e à promessas de um futuro que não passa de ilusão.

1.10.09

Sobre a brevidade da vida

Vou tentar, nessa primeira madrugada de outubro, abordar mais uma vez - de maneira mais convincente (e por que não realista?) - esse tema. Isso porque meu primeiro texto sobre esse assunto não ficou do jeito que eu queria. Então é isso, pro lixo.
Mas vamos lá, o filme "Cazuza - O tempo não pára" sempre me deixa com uma espécie de felicidade pensativa. Tento explicar por quê. Cazuza mordeu a vida com todos os dentes. Não só ele, mas muitos outros, que nos fazem ver a veracidade de melodias que cantem que os bons morrem jovens. A doença e a morte parecem ter-se vingado de sua paixão exagerada de viver. A partir daí, é impossível não perguntar-se mais uma vez: o que vale mais, a preservação de nossas forças, que garantiria uma vida mais longa, ou a livre procura da máxima intensidade e variedade de experiências? Digo que a pergunta apresenta-se "mais uma vez" porque a questão é hoje trivial e, ao mesmo tempo, persecutória. Obedecemos a uma proliferação de regras que são ditadas pelos progressos da prevenção. Ninguém imagina que comer banha, fumar, tomar pinga, usar entorpecentes químicos, transar sem camisinha e tomar, sei lá, nitratos com Viagra seja uma boa idéia. À primeira vista, parece lógico que concordemos sem hesitação sobre o seguinte: não há ou não deveria haver prazeres que valham risco de vida ou, simplesmente, que valham o risco de encurtar a vida. De que adiantaria um prazer que, por assim dizer, cortaria o galho sobre o qual estou sentado? Nós jovens, temos uma boa razão para desconfiar de uma moral prudente e um pouco avara que sugere que escolhamos sempre os tempos suplementares. É que a morte nos parece distante, uma coisa com a qual nos preocuparemos só mais tarde, muito mais tarde. Mas nossa vontade de caminhar sobre a corda bamba e sem rede não é apenas a inconsciência de quem pode esquecer que o "tempo não pára". É também (e talvez sobretudo) um questionamento que nos desafia: para disciplinar a experiência, será que temos outras razões que não sejam só a decisão de durar um pouco mais?
E é lógico que não temos. Mas até onde vale à pena durar 80 anos olhando pra trás sem ter vivido nenhum?
Antes 20 do que nada, porque a vida, meus amigos, é agora.

30.9.09

yoñlu

O sol vê tudo, mas não conhece o amor de uma garota que tem o dom de deslocar, assim, a lua de netuno no ar. E quando a noite vem, e tráz consigo a dor, o sol se apaga e só um sonho a faz lembrar que a noite sempre vai ter fim. E eu aposto que ele nem sabe onde fica Erechim e não sabe o que é sofrer de amor. Mas, se é assim, ele está condenado a vagar por lugares sem luar. Se essa cidade te faz querer voltar, e se é saudade o que te leva para lá, é só sonhar que está em seu lugar. A pior coisa que Platão já inventou foi o amor que só tráz solidão. Mas ela vai reencontrar o chimarrão e a amizade num solstício de verão; de verão...
;~

29.9.09

acrópole


O epicentro, o lugar de origem de todo o pensamento - e conhecimento - ocidental. Talvez a Acrópole seja para mim o que o muro das lamentações seja para um judeu, o que o Vaticano ou o Santo Sepulcro seja para um cristão, o que a Meca seja para um muçulmano. A única diferença, é que a minha Meca, está em ruínas.

23.9.09

Todo dia de manhã...

é nostalgia das besteiras que fizemos ontem.

De ontem em diante serei o que sou no instante agora
Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa
Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada ]
[ são coisas distintas
Separadas pelo canto de um galo velho
Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho
Do versículo e da profecia
Quem surgiu primeiro? o antes, o outrora, a noite ou o dia?
Minha vida inteira é meu dia inteiro
Meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro!
Minha mochila de lanches?
É minha marmita requentada em banho Maria!
Minha mamadeira de leite em pó
É cerveja gelada na padaria
Meu banho no tanque?
É lavar carro com mangueira
E se antes um pedaço de maçã
Hoje quero a fruta inteira
E da fruta tiro a polpa
Da puta tiro a roupa
Da luta não me retiro
Me atiro do alto e que me atirem no peito
Da luta não me retiro.

Todo dia de manhã é nostalgia das besteiras que fizemos ontem.

14.9.09

A semiótica do imaginário utópico.

Todo entendimento é histórico. E como defende o jurista e filósofo François Ost, é somente com o caminhar historiográfico que os costumes são reciclados, as instituições evoluem e o conhecimento humano é aprimorado. Tendo em vista essa concepção, toda revolução é um meio que nunca poderá alcançar seu fim. Isso porque, toda revolução prega uma drástica ruptura histórica, ruptura de costumes, de identidade e de valores, a qual a massa, nunca irá permitir-se fazer, por mais forte e penetrante que seja a propaganda ideológica.
É por isso que todo golpe de Estado acaba tornando-se tirânico. Foi assim com a Revolução Francesa, onde os jacobinos incumbiram-se de levar à guilhotina até seus próprios filhos. Consolidada repressoramente por Napoleão Bonaparte, a opressão continuou a mesma, só mudou o sujeito da oração. Oliver Cromwell na Revolução Inglesa, carregou para si a missão de pôr fim ao absolutismo tornando-se um ditador militar. E assim sucedeu na URSS de Stálin, em Cuba de Fidel Castro, na China de Mao Tsé-Tung, na Alemanha nazista de Hitler. Todos os regimes totalitários os quais se têm notícia surgiram de revoluções ou golpes de Estado. Em parte também, porque uma elite uma vez destronada, nunca aceitará sair passivamente do poder.
Para que serve então a revolução? Que valor tem os ideais utópicos? É preciso lhes fazer justiça. Pois é através das idéias revolucionárias que o homem tem se permitido viver de forma mais digna. Os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade pregados na Revolução Francesa influenciaram países do mundo inteiro a lutar por uma vida mais justa. É o caso da Declaração de Independência dos Estados Unidos, que nasceu desafiando a tradição monárquica européia prometendo a igualdade entre os seus habitantes.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos em 10 de dezembro de 1948, nunca teria tornado-se possível caso não fosse a árdua defesa de Voltaire do que seria os chamados Direitos Fundamentais em 1789. A carga horária máxima de trabalho, as férias remuneradas e a proibição do trabalho infantil, não estariam presentes na vida do trabalhador do século XXI se não fosse as incontáveis lutas e greves do operariado no século XX, inspiradas pelos ideais marxistas. Por isso, "proletários de todo o mundo, uni-vos!", porque o que permite o evolucionismo ao caminhar histórico não é propriamente a subversão à ordem vigente, mas sim, as minhas, as suas, as nossas idéias - revolucionárias, utópicas.
(Ana Cecília Sabbá)
.
A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.
(Eduardo Galeano)

10.9.09

Noel Rosa x Wilson Batista


A polêmica briga musical de Noel Rosa (1910-1937) com Wilson Batista (1913-1968) durou menos de três anos, mas rendeu músicas interessantes e virou parte do folclore musical brasileiro. Quando o entrevero começou, na década de 1930, o boêmio da Vila já era um respeitado compositor, freqüentador da Lapa, amigo de famosos e com o nome feito no meio radiofônico.

Já o garoto Wilson ainda era um aprendiz, candidato a malandro e disposto a qualquer coisa para se tornar conhecido. Justamente por isso muitos até hoje não entendem por que Noel começou a rixa.

Wilson Batista, que entraria para a história como um grande sambista da década de 1940, estava apenas começando a carreira quando compôs Lenço no Pescoço. A música foi a sua terceira gravação e, em versos simples, fazia apologia à malandragem:

LENÇO NO PESCOÇO - 1933
(Wilson Batista)

Meu chapéu do lado
Tamanco arrastando
Lenço no pescoço
Navalha no bolso
Eu passo gingando
Provoco e tenho orgulho
Em ser tão vadio

Meu chapéu do lado...

Sei que eles falam
Deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha
Andar no miserê
Eu sou vadio
Porque tive inclinação
Eu me lembro, era criança
Tirava samba-canção
Comigo não
Eu quero ver quem tem razão

Meu chapéu do lado...

E ele toca
E você canta
E eu não dou
Ai, meu chapéu do lado...

Por que Noel Rosa teria se importado tanto com a música a ponto de dar a ela uma resposta? Há quem diga que seria por influência de um amigo, chamado Orestes Barbosa. Ele teria escrito: "num momento em que se faz a higiene poética do samba, a nova produção de Sílvio Caldas, pregando o crime por música, não tem perdão". Mais tarde, a música seria censurada pela Confederação Brasileira de Radiofusão, em nome da moralidade e do respeito às autoridades constituídas - no primeiro governo de Vargas, onde a cultura midiática tentava dar vazão à imagem do homem trabalhador, e sucumbir a figura do malandro em algo nocivo, criminoso e repudiante à sociedade, como assim pregava a política (e a polícia) varguista.

Mas e Noel? O que ele teria contra a figura do malandro? Na verdade, Noel tinha simpatia por ela, que estava presente em muitas de suas músicas. Apenas a influência de Orestes Barbosa talvez não justificasse sua resposta.

Aí é que entra uma versão mais apimentada da história. Wilson Batista havia se engraçado com uma morena, freqüentadora da Lapa e que também teria atraído a atenção de Noel Rosa. Só que os argumentos de Wilson foram mais fortes, e ele ficou com a moça, deixando Noel desapontado e ansioso para revidar na primeira oportunidade. A letra de Lenço no Pescoço era a desculpa que Noel precisava para dar uma lição no moleque atrevido. E com a arma que o poeta melhor sabia manejar: o samba. Assim, Noel compôs Rapaz Folgado, com endereço certo ao seu rival:

RAPAZ FOLGADO - 1933
(Noel Rosa)

Deixa de arrastar o teu tamanco...
Pois tamanco nunca foi sandália
E tira do pescoço o lenço branco,
Compra sapato e gravata,
Joga fora essa navalha
Que te atrapalha.

Com chapéu do lado deste rata...
Da polícia quero que escapes
Fazendo samba-canção
(Eu) Já te dei papel e lápis
Arranja um amor e um violão.

Malandro é palavra derrotista...
Que só serve pra
Todo o valor do sambista.
Proponho ao povo civilizado
Não te chamar de malandro
E sim de rapaz folgado.

Rapaz Folgado só seria gravada em 1938, por Aracy de Almeida, mas já circulava de boca em boca nos meios freqüentados pelos compositores. Todos sabiam que a alfinetada era para Wilson, que não engolia provocações. "Brigar" com Noel era uma excelente chance para ficar famoso. Batendo na caixinha de fósforos e escrevendo a letra em papel de maço de cigarro, Wilson compôs a tréplica logo em seguida, intitulada Mocinho da Vila:

MOCINHO DA VILA - 1934
(Wilson Batista)

Você, que é mocinho da Vila,
Fala muito em violão,
Barracão e outras coisas mais.
Se não quiser perder o nome,
Cuide do seu microfone,
E deixe quem é malandro em paz.
Injusto é seu comentário,
Fala de malandro quem é otário,
Mas falando não se faz.
Eu, de lenço no pescoço,
Desacato
E também tenho o meu cartaz

Considerada fraca na letra e na melodia, a criação de Wilson foi ignorada por Noel, que continuou a escrever sambas sem nenhuma relação com o debate musical. Um desses sambas foi o belíssimo Feitiço da Vila, cuja versão original fora interpretada por João Petra de Barros em 1934:

FEITIÇO DA VILA - 1934
(Noel Rosa - Oswaldo Gogliano [Vadico])

Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos
Do arvoredo
E faz a lua nascer mais cedo!

Lá em Vila Isabel
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba
São Paulo dá café,
Minas dá leite
E a Vila Isabel dá samba!

A Vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem...
Tendo nome de Princesa
Transformou o samba
Num feitiço decente
Que prende a gente...

O sol da Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora:
Sol, pelo amor de Deus,
Não venha agora
Que as morenas vão logo embora!

Eu sei por onde passo
Sei tudo que faço
Paixão não me aniquila...
Mas tenho que dizer:
Modéstia à parte,
Meus senhores, eu sou da Vila!

Nesta exaltação ao bairro de Vila Isabel, podemos sentir claramente a boemia, tão presente na vida de Noel Rosa e responsável pelo agravamento de sua doença (tuberculose). Na canção, Noel implorava para que o sol não nascesse, pois a roda de samba terminaria e as mulheres iriam para casa. Vale destacar também a beleza da imagem de galhos balançando ao som do samba.

Outra referência interessante é feita à política do café com leite de São Paulo e Minas Gerais. Apesar de a política ter se encerrado em 1930, ela ainda estava bastante presente na memória das pessoas.

No programa Case, da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, Noel criou novos versos para o já sucesso Feitiço da Vila. Esses versos são fundamentais para se compreender a provocação seguinte de Wilson Batista:

Versos adicionais de Feitiço da Vila

Quem nasce pra sambar
Chora pra mamar
Em ritmo de samba.
Eu já saí de casa olhando a lua
E até hoje estou na rua.
A zona mais tranqüila
É a nossa Vila
O berço dos folgados;
Não há um cadeado no portão
Porque na Vila não há ladrão.

Nos novos versos, Noel fez uma volta à infância, não só na referência ao choro pra mamar em ritmo de samba, mas, sobretudo, aos tempos em que a Vila Isabel gozava a má fama de atrair ladrões. Segundo Noel, esse tempo já teria passado, e o bairro podia se orgulhar de dormir sem cadeado nos portões. Nesse momento, Wilson Batista viu uma oportunidade de entrar novamente em ação.

Desde que sua canção Mocinho da Vila fora ignorada por Noel, Wilson Batista estava fora de cena. Ainda fiel ao sonho de ser famoso e sabedor de que nenhum compositor popular brasileiro estava tão em evidência quanto Noel, Wilson não perdeu tempo e escreveu Conversa Fiada:

CONVERSA FIADA - 1935
(Wilson Batista)

É conversa fiada
Dizerem que o samba
Na Vila tem feitiço.
Eu fui ver pra crer
E não vi nada disso.
A Vila é tranqüila,
Porém é preciso cuidado:
Antes de irem dormir,
Dêem duas voltas no cadeado.
Eu fui lá na Vila ver o arvoredo se mexer
E conhecer o berço dos folgados.
A lua nessa noite demorou tanto,
Assassinaram-me um samba.
Veio daí o meu pranto.

Noel não podia ignorar a nova canção. O ajustamento de ritmo e a bela melodia já continham elementos que permitiam antever o grande sambista que Wilson Batista seria. A música era indiscutivelmente bem-feita, e o bairro de Vila Isabel tinha sido debochadamente atacado.

O contra-ataque tinha que ser definitivo, mortal e em grande estilo. Veio na forma de um samba intitulado Palpite Infeliz - um dos mais populares e bem elaborados de toda a obra de Noel.

PALPITE INFELIZ - 1935
(Noel Rosa)

Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém,
Só quer mostrar que faz samba também.

Fazer poema lá na Vila é um brinquedo,
Ao som do samba dança até o arvoredo.
Eu já chamei você pra ver,
Você não viu porque não quis
Quem é você que não sabe o que diz?
Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém,
Só quer mostrar que faz samba também.

A Vila é uma cidade independente
Que tira samba mas não quer tirar patente.
Pra que ligar a quem não sabe
Aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?

Obra-prima da música brasileira, o samba ficaria para sempre na memória do povo e de Wilson Batista. Logo no primeiro verso, Noel chama atenção para o fato de o rival ainda não ser tão conhecido: "Quem é você que não sabe o que diz?".

Mais do que provocativa, Palpite Infeliz também é uma obra integradora, que promove a confraternização do mundo do samba. A canção defende a Vila Isabel com elegância, sem colocá-la acima de Estácio de Sá, Salgueiro ou Mangueira. Para Noel, a disputa estava encerrada. Já Wilson pensava diferente, e a nova resposta veio com um golpe baixo intitulado Frankenstein da Vila. O samba era uma pilhéria com Noel, satirizando a sua feiúra provocada pelo defeito que tinha no queixo, causado por um acidente na hora do parto.

FRANKENSTEIN DA VILA - 1936
(Wilson Batista)

Boa impressão nunca se tem
Quando se encontra um certo alguém,
Que até parece o "Frankenstein".
Mas, como diz o rifão,
Por uma cara feia,
Perde-se um bom coração.

Entre os feios estás na primeira fila,
Eu te batizo "Fantasma da Vila".
Essa indireta é contigo,
E depois não vás dizer
Que eu não sei o que digo.
(Sou teu amigo)

Algumas testemunhas afirmam que Noel não deu importância ao samba, achando até graça do deboche. Outros garantem que a história não foi bem assim. Cícero Nunes, companheiro de muitas cervejadas, jura ter visto Noel chorar ao tocar no assunto. Ainda no mesmo ano, Wilson escreveu Terra de Cego, e cantou o samba para Noel no Café Leitão:

TERRA DE CEGO - 1936
(Wilson Batista)

Perde a mania de bamba
Todos sabem qual é
O teu diploma no samba.
És o abafa da Vila, eu bem sei,
Mas na terra de cego
Quem tem um olho é rei.
Pra não terminar a discussão
Não deves apelar
Para um barulho na mão.
Em versos podes bem desabafar
Pois não fica bonito
Um bacharel brigar.

Noel gostou da melodia, mas pediu para trocar a letra no próprio botequim. Como Wilson também havia andado de namoro com Ceci - uma antiga paixão de Noel Rosa -, a nova letra foi dedicada a ela. Com a música pronta, Noel viveu um "amor de parceria": a mulher era Ceci; o parceiro, Wilson Batista.

DEIXA DE SER CONVENCIDA - 1936
(Noel Rosa - Wilson Batista)

Deixa de ser convencida
Todos sabem qual é
Teu velho modo de vida.
És uma perfeita artista, eu bem sei,
Também fui do trapézio,
Até salto mortal
No arame eu já dei.
(Muita medalha eu ganhei!)
E no picadeiro desta vida
Serei o domador,
Serás a fera abatida.
Conheço muito bem acrobacia
Por isso não faço fé
Em amor, em amor de parceria.

Era o fim de uma briga musical da qual pouca gente tomou conhecimento na época (com exceção do meio artístico). É difícil saber até que ponto Noel guardou alguma mágoa ou ressentimento, principalmente com relação ao samba Frankenstein da Vila. Quanto a Wilson, façamos justiça: não foi por causa da rixa que ele se tornou alguém na vida. Seu tempo chegou pelo próprio talento - ainda que, em minha opinião, Noel Rosa fosse superior musicalmente falando. Noel faleceu em maio de 1937. E a Wilson restou saudade, respeito e grande admiração.

9.9.09

.:. Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
.
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
.
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
.
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar.
.
.
Alphonsus de Guimarães - 2ª geração romântica; Um dos meus poemas preferidos de todos os tempos. Mesmo com as três escolas literárias necessárias para destronar o romantismo - parnasianismo, naturalismo e realismo - ainda sim, o romântico do século XIX é tão atemporal e onipresente, que sempre vai estar intrínseco à contemporaneidade da nossa literatura. E diga-se de passagem, que literatura.

8.9.09

O Irã dos aiatolás

Há 30 anos, a revolução iraniana derrubou a ditadura sangrenta do xá Rheza Pahlevi, aliado incondicional dos Estados Unidos, e conduziu ao poder o aiatolá Khomeini, líder xiita que convocava os islâmicos de todo o mundo a combater as superpotências da época - Estados Unidos e União Soviética (que, no final de 1979, invadiria o vizinho Afeganistão). Inaugurava-se então, uma nova etapa no cenário político internacional, que colocava o mundo islâmico - e o Irã - no centro do jogo de xadrez planetário. Ao contrário, porém, de uma imagem construída pela mídia que procura mostrar o Irã como um país governado por loucos radicais, preocupados em explodir o mundo com bombas atômicas e avesso à reflexão política, o regime iraniano é resultado de uma história bastante complexa e ainda em desdobramento.
Todo esse jogo de forças contraditórias, por vezes antagônicas, reflete uma sociedade dinâmica e em transformação. Um dos reflexos mais óbvios disso é o poder de sedução do cinema iraniano, considerado um dos mais inovadores do mundo contemporâneo. A revolução de 1979, para além de todas as simplificações e caricaturas feitas pela mídia, escapou à lógica das superpotências, ao desafiar ambas. A revolução aparentemente oferecia ao mundo uma alternativa que escapava à lógica dos grandes blocos, e conferia ousadia, dignidade e autoconfiança a toda uma região do Terceiro Mundo que, durante todo o século XX, foi superexplorada, marginalizada e humilhada pelas potências. Pagou um elevado preço por isso: para desestabilizar a revolução, e com a cumplicidade de Sadam Hussein, Washington e Moscou fomentaram guerra contra o Iraque, que, nos anos 80, ceifou pelo menos 1,5 milhão de vidas dos dois lados.
É por essa razão que, xiita ou sunita, fundamentalista ou não, árabe ou não-árabe, ninguém poderia ficar indiferente à revolução de 1979. Bem ou mal, ela foi a única revolução que suportou, praticamente sem fissuras, os dramáticos feitos da queda do Muro de Berlim (em 9 de novembro de 1989), e que mantém uma certa coerência política interna face à nova ordem pós-Guerra Fria, apesar de todas as divergências internas. A revolução de Khomeini se alimenta do mito do Estado igualitarista muçulmano, assim como alimenta esse mito. Este é um dos segredos do seu fascínio.