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31.1.09

(sem título)

Segundo o filósofo Nietszche, os inimigos têm grande importância na vida do homem, à medida que o indivíduo só se desenvolve a partir do embate com quem têm opiniões e condutas diferentes das suas. No entanto, é sábio também que o companheirismo, a cumplicidade e o apoio de um bom amigo são fundamentais para garantir a felicidade e o crescimento de cada um.
Isso porque no mundo, historicamente, tem prevalecido a solitária noção de competição entre as pessoas. Já na pré-história competia-se por comida e por espaço e, hoje, irmãos brigam pela atenção dos pais, alunos competem pela melhor vaga em uma universidade e profissionais lutam entre si por um emprego. Dessa forma, torna-se imprescindível que se tenha alguém de confiança para dar conforto e com quem se possa contar. Afinal, um amigo para dividir alegrias, compartilhar das aflições e trocar conselhos e confidências faz o homem sentir-se menos sozinho e lhe dá força em sua caminhada, no contexto social em que as disputas entre os indivíduos ficam cada vez mais acirradas.
É claro que, como bem afirmou o pensador do século XVI, Montaigne, não é nada fácil conquistar-se uma relação de "intimidade sem reservas". Todavia, desde que se encontre a amizade verdadeira, pode-se descobrir um sentimento, às vezes, superior até ao mais sublime amor de um homem por uma mulher justamente como foi lustrado numa passagem do romance 'Iracema' de José de Alencar, em que Martim abandona sua amada índia Tabajara por um longo tempo para lutar ao lado de seu amigo, guerreiro da tribo dos Potiguaras, a quem devia a lealdade e a cumplicidade de um irmão.
A amizade é, pois, essencial na construção da personalidade e da felicidade de qualquer pessoa. Porque, se um inimigo pode lhe desafiar a melhorar através de um confronto de idéias divergentes, um amigo de verdade preenche o vazio das relações interpessoais competitivas e dá a sustentação de um pilar de aço e o conforto de uma pluma na subida do homem ao ápice da pirâmide de suas vidas.

26.1.09

má gramática da vida...

A má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas.

A vida é bem maior do que as regras gramaticais da nossa língua portuguesa. A vida é bem maior que nós, com todas as nossas tentativas de entendimento, com toda a nossa agressividade cotidiana, com toda a nossa alegria febril, com todas as nossas tempestades e todos os nossos copos d’água. A vida é bem maior que nós, com toda a nossa fúria de ocasião, com todo o nosso desespero momentâneo, com toda a nossa solidão etérea, com toda a nossa capacidade ou incapacidade de estender a mão.


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24.1.09

É tudo tão diferente (deve ser)

O tempo batia as asas. No mundo dela era sempre noite. Mesmo de manhã, o céu permanecia no mais completo breu. Cansada daquela mesmice, passou a questionar os porquês de sua existência e da origem do mundo no qual vivia. Procurava a lógica dos fatos e se perdia em suas próprias explicações. Uma idéia fixa martelava em sua cabeça: precisava sair dali e descobrir se tudo era sempre daquele jeito ou se lá longe, bem distante, haveria uma outra realidade. E pôs-se a caminhar. Todo chão era pouco perto do desejo que a movia. E então chegou numa das pontas do mundo: tudo continuava a ser sempre daquele jeito e lá longe, bem distante, não havia nenhuma outra realidade. Deu a volta e seguiu obstinada. Quanto mais andava mais sentia o tamanhão do mundo. De seus pés brotavam calos. O corpo padecia, descascava, transmutava. E os porquês se tornavam cada vez mais audíveis reverberando nas paredes de seu coração. E no que cruzou o sul, o norte, o leste e o oeste do mundo: tudo continuava a ser sempre daquele jeito e lá longe, bem distante, não havia nenhuma outra realidade. Quanto mais andava mais sentia o tamanhinho do mundo. Não havia mais pra onde ir e seu corpo também não suportava mais acompanhar o ritmo frenético dos porquês de sua cabeça. A massa corpórea dela padecia, pipocava, inchava. Achou que fosse morrer naquele instante e quando olhou de volta para si foi que percebeu a transformação. O corpo dela havia crescido tanto que já não cabia em seu mundo. Com toda aquela pressão, o céu foi se rasgando vagarosamente até revelar a luz. Em seu novo mundo era sempre dia. Mesmo de noite, as estrelas garantiam uma luminosidade que ela jamais poderia prever enquanto lagarta andante dentro da caixa de sapato. Agora era diferente. Ela batia as asas.

23.1.09

É como se eu nascesse todo dia.

Não é incrível que existam bananeiras, abacateiros e jabuticabeiras? De onde será que veio tudo isso? Todo dia eu me faço as mesmas perguntas. É como se eu estivesse vendo as coisas do mundo sempre pela primeira vez. Os vales, a chuva, os mares. A terra, os animais e as floretas. O fogo, o tempo e a claridade. Sem falar no céu com todas as suas estrelas e na lua com todas as suas fases. Como surgiu tudo isso? Os meus porquês são palavras incontáveis. O sentimento de absurdo me invade quando reparo na arquitetura humana. O sistema nervoso, veias e artérias, músculos e ossos, cérebro e coração. Bocas e braços, narizes e olhos, ouvidos e mãos. O ser humano é feito de uma perfeição absurda. Realmente inexplicável. Me admiro o tempo inteiro e acredito que nunca vou me acostumar com as coisas do mundo. Quem criou tudo isso? A resposta óbvia me remete a Deus e eu pergunto: Se Deus criou tudo, quem criou Deus? Se tudo surgiu dele, de onde ele surgiu então? As perguntas continuam sendo as mesmas, só muda o sujeito da oração. Eu vejo as coisas do mundo como quem assiste à um espetáculo de mágica. Num grande truque, o belo coelho branco surge de dentro da cartola até então vazia. Como assim? Não sei. Mas quero muito saber. Todo dia eu acordo buscando saber quem sou e de onde vem o mundo. E me faço as mesmas perguntas. É como se eu estivesse vendo as coisas do mundo sempre pela primeira vez. É como se eu nascesse de novo, todo dia.

10.1.09

rosas e vinho tinto

O gosto do senso comum é, em sua base, o mesmo em todos os tempos. Hoje ele pode ser encontrado nas pessoas que assistem às novelas. O consumidor cultural de senso comum não compreende ironias refinadas, reflexões sobre o sentido da existência; rejeita obras que contenham inovações formais, obrigando-o a rever esquemas narrativos já consagrados. Ele quer ler narrativas, ou poemas concentrados na emoção, em assuntos de caráter afetivo-sentimental (histórias de amor); quer romances com finais de desfecho surpreendente, recheados de acontecimentos extraordinários, inverossímeis, quer sentir medo - emoção - através do terror, vibrar com heróis de força física inacreditável, comover-se, enfim, viver uma grande utopia.
Utopia através da qual o espectador pode ver um mundo melhor do que ele é sem precisar trabalhar para isso. Os resquícios do gosto aristocrático (o qual contrapõem-se ao gosto burguês, ao senso comum), hoje em dia tornaram-se a arte erudita restrita a uma pequena parcela intelectualizada da população. A internet e a televisão só serviram para contribuir com a banalização da antiga arte aristocrática manchada pelo modo de produção capitalista, que passou a vê-la como uma mercadoria a ser vendida para produzir lucro, e não para obter prestígio social, como era no período do Renascimento.
Ainda assim, mesmo banalizada, em proporção, a arte aristocrática encontra-se praticamente diluída em um mundo que passou a levar em conta única e exclusivamente o gosto do público burguês, não mais aquele grupo acostumado a conviver com a produção dos mais refinados criadores da arte erudita, e sim, um grupo sem história de contato com esse tipo de arte, um público de senso comum. Legado que as Revoluções burguesas nos deixaram. O sistema de mecenato e o gosto da corte aristocrática poderiam fazer-se presente hoje em dia, restringindo-a sim, mas livrando ao menos a arte, de virar capital.

7.1.09

doces deletérios

Incrível a capacidade do ser humano de formar pré-conceitos, idéias ou opiniões abstratas sem nenhum embasamento teórico ou prático os quais acabam sendo responsáveis pela grande parte dos conflitos e disparidades existentes. Ninguém escapa. E ninguém está insento de tê-los.
A verdade é que hoje, a palavra preconceito está muito relacionada à raça, religião, cor, etinia. E na realidade é infimamente mais cotidiana que isso. Eu mesma por exemplo, tenho um grande preconceito por best-sellers. Parece besta, mas todo mundo tem algum. O que eu realmente desejo, é que o seu não seja por pessoas, ou por alguém. É perda de tempo, acredite. Aprendi isso no momento em que eu resolvi olhar pra trás, pra finalmente, aprender alguma coisa pro futuro.

3.1.09

iaiá

se eu peco é na vontade, de ter um amor de verdade.

1.1.09

discurso burocrático?

Alguém disse que, nas eleições presidenciais americanas, todas as pessoas do mundo deveriam ter direito de voto. A ironia é uma evidência do poder de uma nação que, ao longo do último século, desenhou os traços mais agudos da economia e da política globais.
O filósofo francês Bernard-Henri Lévy escreveu uma carta aberta "ao próximo presidente dos Estados Unidos", que foi publicada no Huffington Post, um dos mais influentes blogs de política americanos. Lévy aborda o "excepcionalismo americano", ou seja, a idéia de que os Estados Unidos constituem uma nação marcada por uma singularidade absoluta.
Todas as nações são "excepcionais", "singulares". Mas, de fato, a república americana nasceu desafiando a tradição monárquica européia e prometendo a igualdade entre seus habitantes - ou, pelo menos, entre os cidadãos, o que excluía a massa de escravos do Sul. A república também nasceu virada de costas para a "política de poder" dos Estados europeus, prometendo orientar-se nas suas relações externas pelos elevados princípios da liberdade.
Liberdade pode significar muitas coisas. George W. Bush e os neoconservadores arrogaram-se a missão de reformar o mundo segundo um padrão definido em Washington. Fizeram isso reivindicando a continuidade da obra dos "Pais Fundadores" dos Estados Unidos, mesmo se a Declaração de Independência clamava por "um respeito decente às opiniões da humanidade". O resultado foi o desastre no Iraque e uma onda de anti-americanismo no mundo.
A combinação de guerra no exterior com redução de impostos para ricos e estímulos ao consumo financiado envenenou de vez uma economia apoiada sobre alicerces instáveis. É finalmente, 1º de janeiro de 2009, a hora do presidente do pós-desastre, Barack Obama, transformar em realidade seu discurso de mudança.