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10.1.09

rosas e vinho tinto

O gosto do senso comum é, em sua base, o mesmo em todos os tempos. Hoje ele pode ser encontrado nas pessoas que assistem às novelas. O consumidor cultural de senso comum não compreende ironias refinadas, reflexões sobre o sentido da existência; rejeita obras que contenham inovações formais, obrigando-o a rever esquemas narrativos já consagrados. Ele quer ler narrativas, ou poemas concentrados na emoção, em assuntos de caráter afetivo-sentimental (histórias de amor); quer romances com finais de desfecho surpreendente, recheados de acontecimentos extraordinários, inverossímeis, quer sentir medo - emoção - através do terror, vibrar com heróis de força física inacreditável, comover-se, enfim, viver uma grande utopia.
Utopia através da qual o espectador pode ver um mundo melhor do que ele é sem precisar trabalhar para isso. Os resquícios do gosto aristocrático (o qual contrapõem-se ao gosto burguês, ao senso comum), hoje em dia tornaram-se a arte erudita restrita a uma pequena parcela intelectualizada da população. A internet e a televisão só serviram para contribuir com a banalização da antiga arte aristocrática manchada pelo modo de produção capitalista, que passou a vê-la como uma mercadoria a ser vendida para produzir lucro, e não para obter prestígio social, como era no período do Renascimento.
Ainda assim, mesmo banalizada, em proporção, a arte aristocrática encontra-se praticamente diluída em um mundo que passou a levar em conta única e exclusivamente o gosto do público burguês, não mais aquele grupo acostumado a conviver com a produção dos mais refinados criadores da arte erudita, e sim, um grupo sem história de contato com esse tipo de arte, um público de senso comum. Legado que as Revoluções burguesas nos deixaram. O sistema de mecenato e o gosto da corte aristocrática poderiam fazer-se presente hoje em dia, restringindo-a sim, mas livrando ao menos a arte, de virar capital.

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