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28.5.09

culturalidade da raça à toda prova

Um dos discursos racistas mais disseminados é o de tentar negar que existem raças. Dizem que raça é um termo ultrapassado, demodé, sem sentido nos tempos atuais, superado pelo entendimento científico de que raça mesmo só existe uma: a humana. Em outras palavras, somos todos, brancos, negros, índios, mulatos, mestiços, amarelos, iguais perante Deus, a lei, o Estado, a sociedade, a tradição, a família e a propriedade. É claro que isso é um engodo. Não somos, nunca fomos e, se duvidar, nunca seremos, iguais. Apesar de todos os cientistas do mundo admitirem que entre indivíduos de cores diferentes existem diferenças genéticas irrelevantes a ponto de quase se anularem, no mundo aqui fora as pessoas ocupam lugares sociais que dependem bastante da cor que carregam na pele. O racismo, que é cultural e não biológico, se baseia nessa diferença. E é essa diferença que se tenta superar quando a comunidade negra, apesar de tudo, afirma sua raça, para se localizar diante desse mundo racista. É claro que raça aqui é no sentido de identidade. O que se afirma não são os valores fenotípicos de uma determinado etnia per se (cabelos crespos, pele escura etc) mas as implicações culturais que eles carregam.
Mas as pessoas têm dificuldade de entender isso. Um argumento muito comum de se ouvir de brancos é que se um negro usar uma camisa escrito “100% negro” todo mundo vai achar ótimo, mas se um branco usar outra “100% branco”, vão acusá-lo de racista. Como esse, existe aquele outro de que chamar alguém de “preto safado” é racismo, mas de “branquelo azedo” não. Na mesma linha, eles questionam: existe a revista Raça, voltada para o público negro, mas se eu fizer uma revista “Raça Branca”, dedicada aos brancos, vão me acusar de racista. Esse tipo de pensamento ingênuo é consequência daquela tara por querer parecer que somos iguais: se uns podem, outros têm que poder também. Aí eu os olho sorrindo e digo:
Meus filhos, uma das descobertas mais importantes do pós-positivismo foi dar tratamento diferentes à categorias desiguais, justamente para promover a igualdade. Vocês são brancos de olhos azuis, vocês podem, sempre puderam e ainda querem continuar podendo, afirmar a superioridade racial de vocês. Vocês não precisam de uma revista “Raça Branca”, porque todas as revistas já são dedicadas aos brancos. Vocês não precisam de uma camisa “100% branco” porque o mundo já tenta ser 100% branco. Vocês não precisam se convencer de que o tipo de cabelo que vocês têm é bonito porque a indústria da chapinha e dos cosméticos já fez isso muito bem. Vocês não precisam negar diariamente as bobagens que muita gente esclarecida diz por aí. Quem não viveu na senzala não precisa provar pra ninguém que pode chegar à casa grande.

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