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30.7.09

Nada é mais repugnante do que a maioria.

Pois ela compõe-se de uns poucos antecessores enérgicos; velhacos que se acomodam; de fracos, que se assimilam, e da massa que vai atrás de rastros, sem nem de longe saber o que quer.
Ah, Goethe.

24.7.09

genealogia musical brasileira


Nelson Rodrigues costumava chamar o Brasil de pátria de chuteiras. Em tese, porque o povo brasileiro é indiscutivelmente, uma das nações mais apáticas pelo seu país do mundo inteiro, que só veste a camisa quando é véspera de Copa do Mundo, justamente por achar que o futebol, é um dos únicos trunfos desse país. Realmente, sob um olhar histórico rápido do Brasil, não há com o quê se indignar dessa afirmação. Porém, sob um olhar mais crítico, tenho embasamento suficiente para discordar.
Primeiro, pela nossa incomparável literatura, a qual já rendeu inúmeros textos nesse blog. Segundo, pelo que deveria ser o maior orgulho dos filhos deste solo: a música popular brasileira, que irá render de maneira bem sutil, o texto dessa madrugada.
Ela veio chegando particularmente com os portugueses, sofrendo influências trovadorescas do medievalismo, mesclando-se com o batuque inconfundível dos cocares e anos depois, dos Palmares. Mas só com a chegada da corte portuguesa no início do século XIX, é que a Polca e a modinha tocada nos bailes de carnaval promovidos pela Corte, começaram de fato, a determinar os traços da música brasileira. De cortajaca à flor amorosa, aos cantos e encantos das senzalas, foi na era do rádio que a evolução musical passou a determinar os traços mais agudos da música que anos mais tarde, seria perpetuada pelo mundo.
O rádio chegou ao Brasil na década de 20 alastrando sucessos e sambas consagrados nas vozes imortais de Noel Rosa e Wilson Batista como 'Fita Amarela' e 'Trem das Onze', e foi responsável em parte pelo sucesso absurdo em volta do ícone Carmem Miranda, até então mais envaidecida nos Estados Unidos do que no Brasil (e ainda perguntam por quê ela voltou americanizada!) .
Mas o sucesso das cantoras Aurora e Carmem Miranda no exterior era apenas uma prévia da plenitude que a música popular brasileira ainda iria alcançar. 'Fossas Nossas' e a explosão empírica da bossa nova, trazida no LP de João Gilberto 'Chega de saudade', foram retratos fiéis disso. Ao contrário do que muitos pensam, 'Garota de Ipanema' só veio para solidificar uma vertente musical que mudara para sempre a cara e o próprio batuque do samba. A vontade de pegar um calhambeque e ir a uma festa de arromba com a Jovem Guarda surgiu anos depois, outro fenômeno obscurecido pelo que seguiria sendo uma das maiores febres nacionais: os festivais.
No primeiro ano, 'A Banda' ganhou em disparada, mesmo contra todos os esforços de seu autor - Francisco Buarque de Hollanda, até então com apenas 18 anos - de promover o contrário. Em 1967, no segundo ano de festival, 'Ponteio' não causou tanta polêmica quanto sua antecessora, muito menos quanto a que viria depois. Afinal, o ano seguinte era o ano de 1968, e pela preliminar da história não poderia nunca deixar de ser o mais tumultuado. Como a morbidez de 'Sabiá' poderia ganhar de 'Pra não dizer que não falei das flores'? Pois como 68 foi o ano mais imprevisível da historia do país e do mundo, foi o que aconteceu. Porém, nada perto do que viria após os festivais: a maior revolução no modo de fazer música e fazer crítica, pensar e escrever, reinvidicar e lutar, que já existiu na história de um país totalmente apático para subverter a ordem vigente: a tropicália, ou tropicalismo foi um movimento reacionário contra uma ditadura que impedia a manutenção de uma vida sem opressão, deflagrada na impunidade e no medo, onde queima de arquivo era banalidade. Sem lenço, sem documento, valorizava a pátria e tudo que era nacional. Para isso, utilizou mecanismos como o antropofagismo de Oswald de Andrade, criado durante o modernismo de 20, onde seria necessário deglutir alguns valores europeus na busca de uma identidade cultural própria - afinal fomos colonizados por europeus. Tal movimento que foi dos festivais para as ruas, teve como resposta o mais repressor Ato Institucional da história das ditaduras militares na América Latina - o AI-5 era um atentado não só ao pudor, mas à vida, à manifestação do ser humano como ser livre para exercer qualquer potencialidade inerente. Apesar de você, a anistia veio em 1985, após 21 anos de uma ditadura responsável por elevar a inflação ao que o brasileiro jamais veria em 509 anos de história, ou estória. Responsável por uma das maiores dívidas externas - proporcionalmente à renda per capita da nação - já vista no século XX. De uma ditadura manchada pelo sangue frio de quem até hoje não revelou os arquivos da repressão.
Só música para amenizar a dor. E ela vem, sempre vem. Veio com Legião Urbana e o rock enfurecido que clamava por justiça na década de 80! Tal reacionaridade tinha que vir acompanhada de figuras como Ney Matogrosso e Rita Lee. Falar em subversão, é falar em anarquismo, em maneiras alternativas de ver a vida, é falar em Raul Seixas - toca Raul, porra! - e finalmente em Cazuza, e sua doce e perene crítica da burguesia, para a burguesia.
Porque aqui nesse país tem samba, sim, mas também tem rock'n'roll, tem bossa nova, tem psicodelia. Tem influência externa, tem Chuck Berry, tem Elvis, tem Beatles, mas é responsável por grande influência interna, tem voz, violão, pandeiro, mas acima de tudo, paixão. É isso que a genealogia musical do Brasil vem mostrar: pra ter orgulho, é só por a vitrola pra tocar.

6.7.09

O que é arte para você?


Uma interpretação de arte conceituada na livre subjetividade seria sem dúvidas, a mais adequada. Mas ainda assim a pergunta se faz pertinente. Existe arte nas ruas? O que deve ou não ser considerado arte em um mundo, que como diria Adorno e Horkheimer, banalizou toda e qualquer forma de expressão artística erudita?

A verdade é que o conceito de arte é muito mais perene e intransitável do que se imagina. Tanto a arte erudita, cultivada nos tempos áureos do Renascimento por uma elite aristocrática que realmente entendia do assunto, quanto a popular arte trovadoresca dos camponeses da Idade Média, estão inseridas em um âmbito consagrado pelo caminhar da humanidade e valorizado sobre a preliminar do tempo histórico. Mas é induvidável que quando a burguesia chegou ao poder, por entre conchavos e revoluções, a mesma inverteu irreversivelmente a ordem das coisas. Até então, existiam dois tipos de arte: a erudita, e a arte popular das ruas. A partir do surgimento da classe burguesa e de todas suas implicações de ordem econômica e social, a arte clássica produzida pelas mãos dos detentores do conhecimento, passou, junto com o dinheiro, a cair nas mãos de quem utilizava a arte como mecanismo para se inserir em um mundo que não era seu, tentando copiar fielmente uma nobreza. Porém, como seu sustento, ou tentativa do mesmo, em uma nova pirâmide social que se construía com os Estados Modernos, provinha de trabalho, não havia tempo para o ócio em que a nobreza vivia, onde podia aprofundar-se no conhecimento e na aprendizagem de criação artística. A partir então do momento em que a arte caiu nas mãos de pessoas as quais não detinham o conhecimento necessário para a perpetuação do eruditismo, a linha divisionária entre clássico e popular, tornou-se tênue.

100 anos depois, com o surgimento dos meios de produção em massa e meios com forte poder de popularização, como o cinema e os meios de comunicação em geral, como diria uma vertente adorniana da Escola de Frankfurt, aquela arte aristocrática caiu literalmente nas mãos de um povo que não sabia o que fazer com ela. Devo concordar que Walter Benjamim se enganou profundamente ao dizer que tais meios serviriam para a expansão do conhecimento e da arte, serviram sim, para sua banalização. Não existiu mais, desde então, divisão entre popular e clássico, por mais que os núcleos pseudo-intelectuais tentem provar o contrário. Os livros de autores como Dostoévski e Schopenhauer publicados pela MARTIN CLARET estão aí para provar isso.

Porém, houve tanta subversão da ordem, que no século XXI, tudo se tornou arte. E os leigos no assunto ainda ousam dizer: arte clássica. Pobres coitados. Não tem noção da historicidade dos fatos, e dessa mescla inelutável do que era aristocrático com o que era senso comum promovido pelas revoluções burguesas, pelos "novos ricos". Tem gente que sai por aí dizendo que pinturas grafitadas nas ruas são arte. Eu, na minha concepção subjetiva-livre sobre arte diria: "Se isso é arte para você, então é e pronto." Agora dizer que é arte clássica, é preciso no mínimo, mandá-la dar uma voltinha pela Capela Sistina, conhecer a arte produzida por quem estudava sobre ela durante o Classicismo.

A discussão sobre o que é ou não arte atravessa de maneira inviolável o passar dos séculos, e torna-se saudável quando tenta-se colocar no lugar e no olhar do outro, no meio em que ele vive, para poder entedê-lo sobre sua definição de atividade artística. Arte pode ser o que você quiser: de arte contemporânea à arte naif, de pinturas de Michelângelo à pixações em prédios, de monumentos e esculturas de Rodin às exposições mais bizarras no MASP, de mpb à tecno-brega, de modernismo de 22 à incoerência absurda que predomina no século 21 sobre como tratar artistas!

A compreensão artística, ou a falta dela, só vem mostrar que a incompreensão entre os seres humanos está inserida em todos os campos do conhecimento e da vida. Se eu pudesse fazer um único pedido a um Deus supostamente cristão, seria pedir maior compreensão entre as pessoas, o que geraria mais amor no mundo. A incompreensão só mostra a nossa imensa fragilidade quanto a tudo que nos é ameaçador ou diferente. É necessário compreender, para crescer. Afinal, o crescimento da humanidade, contrariando a teoria evolucionista de Hegel, depende dos nossos atos de hoje, ele não é interdependente à nossa capacidade de estender a mão, da nossa capacidade de compreensão. Ou da falta dela, tanto na arte, quanto na própria vida.