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24.7.09

genealogia musical brasileira


Nelson Rodrigues costumava chamar o Brasil de pátria de chuteiras. Em tese, porque o povo brasileiro é indiscutivelmente, uma das nações mais apáticas pelo seu país do mundo inteiro, que só veste a camisa quando é véspera de Copa do Mundo, justamente por achar que o futebol, é um dos únicos trunfos desse país. Realmente, sob um olhar histórico rápido do Brasil, não há com o quê se indignar dessa afirmação. Porém, sob um olhar mais crítico, tenho embasamento suficiente para discordar.
Primeiro, pela nossa incomparável literatura, a qual já rendeu inúmeros textos nesse blog. Segundo, pelo que deveria ser o maior orgulho dos filhos deste solo: a música popular brasileira, que irá render de maneira bem sutil, o texto dessa madrugada.
Ela veio chegando particularmente com os portugueses, sofrendo influências trovadorescas do medievalismo, mesclando-se com o batuque inconfundível dos cocares e anos depois, dos Palmares. Mas só com a chegada da corte portuguesa no início do século XIX, é que a Polca e a modinha tocada nos bailes de carnaval promovidos pela Corte, começaram de fato, a determinar os traços da música brasileira. De cortajaca à flor amorosa, aos cantos e encantos das senzalas, foi na era do rádio que a evolução musical passou a determinar os traços mais agudos da música que anos mais tarde, seria perpetuada pelo mundo.
O rádio chegou ao Brasil na década de 20 alastrando sucessos e sambas consagrados nas vozes imortais de Noel Rosa e Wilson Batista como 'Fita Amarela' e 'Trem das Onze', e foi responsável em parte pelo sucesso absurdo em volta do ícone Carmem Miranda, até então mais envaidecida nos Estados Unidos do que no Brasil (e ainda perguntam por quê ela voltou americanizada!) .
Mas o sucesso das cantoras Aurora e Carmem Miranda no exterior era apenas uma prévia da plenitude que a música popular brasileira ainda iria alcançar. 'Fossas Nossas' e a explosão empírica da bossa nova, trazida no LP de João Gilberto 'Chega de saudade', foram retratos fiéis disso. Ao contrário do que muitos pensam, 'Garota de Ipanema' só veio para solidificar uma vertente musical que mudara para sempre a cara e o próprio batuque do samba. A vontade de pegar um calhambeque e ir a uma festa de arromba com a Jovem Guarda surgiu anos depois, outro fenômeno obscurecido pelo que seguiria sendo uma das maiores febres nacionais: os festivais.
No primeiro ano, 'A Banda' ganhou em disparada, mesmo contra todos os esforços de seu autor - Francisco Buarque de Hollanda, até então com apenas 18 anos - de promover o contrário. Em 1967, no segundo ano de festival, 'Ponteio' não causou tanta polêmica quanto sua antecessora, muito menos quanto a que viria depois. Afinal, o ano seguinte era o ano de 1968, e pela preliminar da história não poderia nunca deixar de ser o mais tumultuado. Como a morbidez de 'Sabiá' poderia ganhar de 'Pra não dizer que não falei das flores'? Pois como 68 foi o ano mais imprevisível da historia do país e do mundo, foi o que aconteceu. Porém, nada perto do que viria após os festivais: a maior revolução no modo de fazer música e fazer crítica, pensar e escrever, reinvidicar e lutar, que já existiu na história de um país totalmente apático para subverter a ordem vigente: a tropicália, ou tropicalismo foi um movimento reacionário contra uma ditadura que impedia a manutenção de uma vida sem opressão, deflagrada na impunidade e no medo, onde queima de arquivo era banalidade. Sem lenço, sem documento, valorizava a pátria e tudo que era nacional. Para isso, utilizou mecanismos como o antropofagismo de Oswald de Andrade, criado durante o modernismo de 20, onde seria necessário deglutir alguns valores europeus na busca de uma identidade cultural própria - afinal fomos colonizados por europeus. Tal movimento que foi dos festivais para as ruas, teve como resposta o mais repressor Ato Institucional da história das ditaduras militares na América Latina - o AI-5 era um atentado não só ao pudor, mas à vida, à manifestação do ser humano como ser livre para exercer qualquer potencialidade inerente. Apesar de você, a anistia veio em 1985, após 21 anos de uma ditadura responsável por elevar a inflação ao que o brasileiro jamais veria em 509 anos de história, ou estória. Responsável por uma das maiores dívidas externas - proporcionalmente à renda per capita da nação - já vista no século XX. De uma ditadura manchada pelo sangue frio de quem até hoje não revelou os arquivos da repressão.
Só música para amenizar a dor. E ela vem, sempre vem. Veio com Legião Urbana e o rock enfurecido que clamava por justiça na década de 80! Tal reacionaridade tinha que vir acompanhada de figuras como Ney Matogrosso e Rita Lee. Falar em subversão, é falar em anarquismo, em maneiras alternativas de ver a vida, é falar em Raul Seixas - toca Raul, porra! - e finalmente em Cazuza, e sua doce e perene crítica da burguesia, para a burguesia.
Porque aqui nesse país tem samba, sim, mas também tem rock'n'roll, tem bossa nova, tem psicodelia. Tem influência externa, tem Chuck Berry, tem Elvis, tem Beatles, mas é responsável por grande influência interna, tem voz, violão, pandeiro, mas acima de tudo, paixão. É isso que a genealogia musical do Brasil vem mostrar: pra ter orgulho, é só por a vitrola pra tocar.

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