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31.8.09

Freud explica

E explica tão bem a psique humana que fica difícil não acreditar na relação consciente x subconsciente traçada pela psicologia profunda, ou pela psicanálise. Filho ilegítimo de sua época, revolucionou todo os dógmas e pragmatismos existentes, com uma teoria - que mesmo seguindo a corrente naturalista de explicação empírica - virtuava por um rumo radicalmente diferente de todos os outros traçados pelos filósofos e cientistas do final do século XIX, e até mesmo, de milênios anteriores.
Após um longo período de experiência com pacientes, Freud chegou à conclusão de que a consciência humana era apenas uma parte da psique. A consciência seria mais ou menos como a ponta de um iceberg que se eleva para além da superfície da água. Sob a superfície, ou sob o limiar da consciência está o subconsciente, ou o inconsciente.
Não podemos ter presente em nossa consciência, o tempo todo, todas as experiências que vivemos. Mas tudo o que pensamos ou vivemos e tudo de que nos lembramos quando pomos a cabeça para funcionar Freud chama de "pré-consciente". A expressão "inconsciente" significa, para Freud, tudo o que reprimimos. Quer dizer, tudo que nós queremos nos esquecer a qualquer preço por considerarmos desagradável, indecoroso ou repulsivo.
Este mecanismo funciona em todas as pessoas sadias. Para algumas pessoas, porém, o ato de banir tais pensamentos desagradáveis ou proibidos é algo tão estressante que elas ficam doentes. É que aquilo que foi reprimido desta forma, continua tentando emergir para o nível da consciência, de sorte que cada vez mais energia é despendida para se manter tais impulsos longes da crítica do consciente.
Vivemos sob a constante pressão de pensamentos reprimidos, que tentam se libertar do inconsciente. Por isso é que muitas vezes dizemos e fazemos coisas que na verdade 'não tínhamos a intenção de fazer' - principalmente quando estamos bêbados ou entorpecidos. Dessa forma, o inconsciente também pode guiar nossos sentimentos e ações. Freud dizia que nossa vida cotidiana está repleta de tais ações inconscientes. Muitas vezes nos esquecemos do nome de certa pessoa ou tropeçamos em nossas próprias palavras e acabamos trocando letras e nomes. Ele achava que tais atos falhos podiam nos revelar nossos segredos mais íntimos.
Não podemos escapar de nossos impulsos inconscientes. O segredo está em não se desgastar demais ao se empurrar as coisas desagradáveis para o inconsciente. Um neurótico é justamente alguém que despende energia demais na tentativa de banir de seu consciente tudo aquilo que o incomoda. São as chamadas "experiências traumáticas", muitas vezes, advindas desde a infância - trazidas à tona como assunto para texto por ninguém menos que o mestre do suspense Alfred Hitchcock, em "Marnie, confissões de uma ladra" nesta última sexta.
Os caminhos utilizados por Freud para chegar a tais traumas, e a partir da liberação dos mesmos do inconsciente, curar seu paciente, podia ser tanto pelo método da livre associação ou através da interpretação de sonhos - para ele, por meio dos quais nossos pensamentos inconscientes tentam se comunicar com nosso consciente.
Freud influenciou a arte, a literatura, as vanguardas européias, o movimento surrealista do início do século XX - que tentava a todo custo libertar o inconsciente, o devaneio, seja através do automatismo artístico ou da transposição onírica. Os surrealistas tentavam se aproveitar disso e buscavam um estado em que tudo parecia brotar espontâneamente. Eles sentavam-se à frente de uma folha de papel em branco e começavam a escrever, sem pensar no que estavam escrevendo. Era isso o que chamavam de escrita automática. Na verdade, a expressão vem do espiritismo, em que um "médium" acredita que o espírito de alguém que já morreu está dirigindo sua mão ao escrever, quando na verdade, ele é um médium do seu próprio subconsciente.
Além disso, Freud deu uma prova impressionante de como é fantástica a mente humana. Seu trabalho com pacientes convenceu-o de que guardamos no fundo de nossa mente tudo que vimos e vivemos. E todas essas impressões podem ser trazidas à tona novamente. Por exemplo, quando pensamos em alguém e momentos depois essa pessoa nos liga, muitas vezes não há nada de extraordinário nisso, é só, o simples fato de termos ouvido uma música no rádio, ou algo na tv que tenha haver com nossa história de alguma forma, que nosso consciente não apreenda, mas que nosso inconsciente tenha sido capaz.
Minha humilde abordagem sobre Freud, torna-se simplista e superficial tendo em vista a magnitude de sua obra e realização tanto para a ciência, quanto para a vida do homem contemporâneo. Todos somos muito mais do que aparentamos ser, só que sofremos limitações e imposições as quais nos ofuscam. Teorias como essa são chaves para os cadeados impostos.

Um paraíso perdido.


Óleo sobre tela?
Não. É só a lua iluminando a praia mais ímpar do mundo: Salinas. Existe algum lugar apto à comparação?
Porque eu desconheço.

28.8.09

Eu acredito no acaso.

E ao meu ver, é inimaginável acreditar que não passamos de marionetes nas mãos de uma coisa intitulada destino. Que não somos mais do que atores de uma peça escrita sabe-se lá por quem. É tão evidente o fato de possuirmos livre-arbítrio para tudo, que nos esconder atrás de uma suposta história pré-determinada só nos mostra nossa fraqueza frente à responsabilidade de assumirmos nossos próprios atos. Nossas atitudes de hoje determinam o que seremos amanhã. E quem determina tais atitudes somos nós mesmos, e um pouco de todos ao nosso redor. Isto é para mim, tão inquestionável quanto o fato de sermos responsáveis pelos movimentos do nosso próprio corpo.
Coincidências? É claro que elas existem! Elas são fruto do acaso, que querendo ou não, ajuda também a determinar nossa existência, nossa essência. O fato das pessoas não atentarem para a ocorrência de acasos, explica-se devido ao enorme interesse a tudo o que é sobrenatural ou inatingível. Vamos tomar um exemplo bem simples: digamos que eu esteja pensando em um amigo e que no momento seguinte ele me telefone ou então apareça na minha casa. Muitos consideram uma coincidência como essa algo sobrenatural. Acontece, porém, que penso com frequência nesse meu amigo e nem por isso ele toca a campainha da minha casa toda vez que penso nele. E acontece também, de ele me telefonar muitas vezes, sem que eu esteja pensando nele. O problema maior é que as pessoas sempre pensam naquelas ocasiões em que as duas coisas acontecem ao mesmo tempo. E é este o ponto. Se achamos na rua uma nota de dez reais quando estamos precisando com urgência de dinheiro, a primeira coisa que nos vem à cabeça é que há algo de "sobrenatural" naquela coincidência. Ainda que a gente viva duro trezentos e sessenta e cinco dias por ano! E é exatamente assim que vão se acumulando as histórias sobre toda a sorte de "experiências sobrenaturais" que nos são contadas por nossos avós e tios. As pessoas se interessam tanto por histórias assim que estas se multiplicam cada vez mais.
O fato de nós nos atermos com tanta voracidade ao "sobrenatural" pode ser explicado por um tipo raro de cegueira, que não nos permite enxergar o maior dos mistérios: o fato de que existe um mundo. Muitos se interessam mais por marcianos e discos voadores do que por todo o enigma da criação que se desenrola bem debaixo dos nossos narizes.
Nesse ponto, não acredito que o mundo seja um acaso. Acredito em um motivo. Acho que o universo é fruto de uma vontade. Um dia você percebe que por detrás de todas essas miríades de estrelas e galáxias oculta-se uma intenção. Por exemplo, a probabilidade de nenhum dos nossos antepassados ter morrido ainda criança era uma para muitos bilhões. Todos, todos os nossos antepassados cresceram e tiveram filhos em épocas que foram palco das mais terríveis catástrofes naturais e que, além do mais, possuíam índices assustadores de mortalidade infantil. Sim, no fundo, todos travamos uma guerra contra nós mesmos e contra nossas possibilidades de nascer séculos e séculos mais tardes. Ainda sim, estamos aqui, vivos. Logo, realmente talvez tivesse sido um mero acaso eu ter estado tantas vezes na hora e no lugar certo. Também podia ter sido um acaso o fato de me ter chegado às mãos tantas oportunidades únicas. Mas com certeza, há alguma intenção por detrás do fato de eu estar viva.

25.8.09

Penso, logo existo.

- diria Descartes.

- Mas da onde retiras o conceito de pensar? Por que acreditas em causa e efeito? O que te dá o direito de falar de um Eu, e até mesmo de um Eu como causa, e por fim, de um Eu como causa de pensamentos? - lhe responderia Nietzsche.
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Nem tudo é tão óbvio quanto parece.

24.8.09

Um curinga em Atenas.

Provavelmente se lhe perguntassem qual o maior nome da História da humanidade, você responderia: Jesus Cristo. Essa é pelo menos, a resposta de qualquer contemporâneo leigo da Era Cristã.
Pois eu vos retruco: Sócrates. Responsável - junto com alguns de seus antepassados, contemporâneos e seguidores - até mesmo por podermos publicar nossos textos na internet através de um aparelho altamente tecnológico.
Esse homem, há aproximadamente 450 a.C., vivia em Atenas e rompeu com a tradição dos chamados filósofos da natureza de tentar descobrir apenas o que deu origem à todas as criaturas do planeta e voltou sua reflexão para o homem. Incomodou toda a elite ateniense ao fazê-los constatar que seus conhecimentos sobre si próprios eram tão sólidos quanto o ar que respiravam, e foi condenado a tomar cicuta. Aparentemente, é inexpressiva a importância dele para nossas vidas hoje, mas a famosa constatação de Sócrates que pode ser exprimida pela sua frase 'Só sei que nada sei', levou-o a tentar buscar respostas para todos as suas infindáveis perguntas. Curiosamente (em tom caracteristicamente irônico), foi a partir daí que surgiu a Astronomia, a Matemática, a Arquitetura, as Escolas e as Academias fundadas por seus seguidores, que deram origem à todo o conhecimento ocidental. Ancestrais das ciências humanas, da engenharia, da tecnologia. Incrível pensar como tudo pode ter surgido da filosofia, e a contribuição para isso de um determinado homem - Sócrates -, que inspira o pensamento ocidental há quase 2.500 anos, por refletir ceticamente quem somos e da onde viemos, e instigar tais reflexões nas pessoas. Pois é na busca de respostas para as "grandes" perguntas que o homem tem encontrado respostas claras e definitivas para as "pequenas" perguntas. É a constatação que as perguntas movem o mundo, não as respostas.
Esse homem - que costumava colocar em prática a arte de pensar coisas aparentemente óbvias, as quais na verdade são os maiores mistérios do mundo, os quais ficam obscurecidos pelo interesse das pessoas em coisas banais e efêmeras - tem várias peculiaridades com Jesus Cristo: os dois incomodaram o ápice da pirâmide social de suas épocas, queriam libertar seus povos de uma visão fechada sobre o universo que os cercava (ainda que Sócrates quisesse fazer as pessoas pensarem por si mesmas criando opiniões próprias e Jesus Cristo falasse em um mundo eterno onde houvesse redenção), nenhum deles deixaram escritos e os dois foram condenados à morte. A maior diferença entre os mesmos é que hoje, Sócrates caiu no esquecimento, ao passo que Jesus é aclamado em toda Igreja barata. Por quê? Porque as pessoas só se interessam pelo que lhes é sobrenatural ou aparentemente inexplicável. E entre endeusar uma pessoa que foi peça-chave na criação do que hoje seriam as ciências humanas e exatas, e todas suas implicações indissociáveis à vida do homem do século XXI, e outra na qual construíram um mito onde um morto voltou à vida, a segunda opção é a mais atraente. Gostamos de ter uma visão mítica do mundo, colecionamos experiências que parecem ser sobrenaturais, muitas vezes inclusive, para adequarmo-nos à nossa religião, o maior ópio, refúgio do povo. Além disso, é mais reconfortante pensar que um dia poderemos voltar a viver, do que inconvenientemente termos de admitir que somos um pouco de poeira estelar que só tem uma chance, que só vivemos uma única vez.
Sócrates, certo dia, ao conhecer um homem o qual todos julgavam sábio, constatou que era mais sábio do que ele simplesmente por saber que um não tinha mais conhecimento que o outro - já o homem acreditava que o tinha. Mais produtivo seria, portanto, se pensássemos igual Sócrates e admitíssemos que ninguém sabe mais do que ninguém. Isso sim, é a coisa mais sábia do mundo, pois aí, poderíamos usar a única chance que temos, nossa única vida, para tentar deixar algum legado de conhecimento para a humanidade - e não se esconder atrás de crenças e religiões que revelam muito menos sobre nós do que nós mesmos seríamos capazes sozinhos.
Liberte-se.