Pages

24.8.09

Um curinga em Atenas.

Provavelmente se lhe perguntassem qual o maior nome da História da humanidade, você responderia: Jesus Cristo. Essa é pelo menos, a resposta de qualquer contemporâneo leigo da Era Cristã.
Pois eu vos retruco: Sócrates. Responsável - junto com alguns de seus antepassados, contemporâneos e seguidores - até mesmo por podermos publicar nossos textos na internet através de um aparelho altamente tecnológico.
Esse homem, há aproximadamente 450 a.C., vivia em Atenas e rompeu com a tradição dos chamados filósofos da natureza de tentar descobrir apenas o que deu origem à todas as criaturas do planeta e voltou sua reflexão para o homem. Incomodou toda a elite ateniense ao fazê-los constatar que seus conhecimentos sobre si próprios eram tão sólidos quanto o ar que respiravam, e foi condenado a tomar cicuta. Aparentemente, é inexpressiva a importância dele para nossas vidas hoje, mas a famosa constatação de Sócrates que pode ser exprimida pela sua frase 'Só sei que nada sei', levou-o a tentar buscar respostas para todos as suas infindáveis perguntas. Curiosamente (em tom caracteristicamente irônico), foi a partir daí que surgiu a Astronomia, a Matemática, a Arquitetura, as Escolas e as Academias fundadas por seus seguidores, que deram origem à todo o conhecimento ocidental. Ancestrais das ciências humanas, da engenharia, da tecnologia. Incrível pensar como tudo pode ter surgido da filosofia, e a contribuição para isso de um determinado homem - Sócrates -, que inspira o pensamento ocidental há quase 2.500 anos, por refletir ceticamente quem somos e da onde viemos, e instigar tais reflexões nas pessoas. Pois é na busca de respostas para as "grandes" perguntas que o homem tem encontrado respostas claras e definitivas para as "pequenas" perguntas. É a constatação que as perguntas movem o mundo, não as respostas.
Esse homem - que costumava colocar em prática a arte de pensar coisas aparentemente óbvias, as quais na verdade são os maiores mistérios do mundo, os quais ficam obscurecidos pelo interesse das pessoas em coisas banais e efêmeras - tem várias peculiaridades com Jesus Cristo: os dois incomodaram o ápice da pirâmide social de suas épocas, queriam libertar seus povos de uma visão fechada sobre o universo que os cercava (ainda que Sócrates quisesse fazer as pessoas pensarem por si mesmas criando opiniões próprias e Jesus Cristo falasse em um mundo eterno onde houvesse redenção), nenhum deles deixaram escritos e os dois foram condenados à morte. A maior diferença entre os mesmos é que hoje, Sócrates caiu no esquecimento, ao passo que Jesus é aclamado em toda Igreja barata. Por quê? Porque as pessoas só se interessam pelo que lhes é sobrenatural ou aparentemente inexplicável. E entre endeusar uma pessoa que foi peça-chave na criação do que hoje seriam as ciências humanas e exatas, e todas suas implicações indissociáveis à vida do homem do século XXI, e outra na qual construíram um mito onde um morto voltou à vida, a segunda opção é a mais atraente. Gostamos de ter uma visão mítica do mundo, colecionamos experiências que parecem ser sobrenaturais, muitas vezes inclusive, para adequarmo-nos à nossa religião, o maior ópio, refúgio do povo. Além disso, é mais reconfortante pensar que um dia poderemos voltar a viver, do que inconvenientemente termos de admitir que somos um pouco de poeira estelar que só tem uma chance, que só vivemos uma única vez.
Sócrates, certo dia, ao conhecer um homem o qual todos julgavam sábio, constatou que era mais sábio do que ele simplesmente por saber que um não tinha mais conhecimento que o outro - já o homem acreditava que o tinha. Mais produtivo seria, portanto, se pensássemos igual Sócrates e admitíssemos que ninguém sabe mais do que ninguém. Isso sim, é a coisa mais sábia do mundo, pois aí, poderíamos usar a única chance que temos, nossa única vida, para tentar deixar algum legado de conhecimento para a humanidade - e não se esconder atrás de crenças e religiões que revelam muito menos sobre nós do que nós mesmos seríamos capazes sozinhos.
Liberte-se.

Um comentário:

Edson Camara disse...

Gostei muito do seu ponto de vista que bate certinho com o meu nesta visão sobre a importância do Sócrates para humanidade. Acredito que a religião é um lugar de pessoas que passam pela vida e não valorizam a vida em si. Parabéns pela sua coragem em expressar este pensamento. Por favor, continue nos brindando com estes seus insights maravilhosos.
Gostei muito do seu blog.