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30.9.09

yoñlu

O sol vê tudo, mas não conhece o amor de uma garota que tem o dom de deslocar, assim, a lua de netuno no ar. E quando a noite vem, e tráz consigo a dor, o sol se apaga e só um sonho a faz lembrar que a noite sempre vai ter fim. E eu aposto que ele nem sabe onde fica Erechim e não sabe o que é sofrer de amor. Mas, se é assim, ele está condenado a vagar por lugares sem luar. Se essa cidade te faz querer voltar, e se é saudade o que te leva para lá, é só sonhar que está em seu lugar. A pior coisa que Platão já inventou foi o amor que só tráz solidão. Mas ela vai reencontrar o chimarrão e a amizade num solstício de verão; de verão...
;~

29.9.09

acrópole


O epicentro, o lugar de origem de todo o pensamento - e conhecimento - ocidental. Talvez a Acrópole seja para mim o que o muro das lamentações seja para um judeu, o que o Vaticano ou o Santo Sepulcro seja para um cristão, o que a Meca seja para um muçulmano. A única diferença, é que a minha Meca, está em ruínas.

23.9.09

Todo dia de manhã...

é nostalgia das besteiras que fizemos ontem.

De ontem em diante serei o que sou no instante agora
Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa
Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada ]
[ são coisas distintas
Separadas pelo canto de um galo velho
Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho
Do versículo e da profecia
Quem surgiu primeiro? o antes, o outrora, a noite ou o dia?
Minha vida inteira é meu dia inteiro
Meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro!
Minha mochila de lanches?
É minha marmita requentada em banho Maria!
Minha mamadeira de leite em pó
É cerveja gelada na padaria
Meu banho no tanque?
É lavar carro com mangueira
E se antes um pedaço de maçã
Hoje quero a fruta inteira
E da fruta tiro a polpa
Da puta tiro a roupa
Da luta não me retiro
Me atiro do alto e que me atirem no peito
Da luta não me retiro.

Todo dia de manhã é nostalgia das besteiras que fizemos ontem.

14.9.09

A semiótica do imaginário utópico.

Todo entendimento é histórico. E como defende o jurista e filósofo François Ost, é somente com o caminhar historiográfico que os costumes são reciclados, as instituições evoluem e o conhecimento humano é aprimorado. Tendo em vista essa concepção, toda revolução é um meio que nunca poderá alcançar seu fim. Isso porque, toda revolução prega uma drástica ruptura histórica, ruptura de costumes, de identidade e de valores, a qual a massa, nunca irá permitir-se fazer, por mais forte e penetrante que seja a propaganda ideológica.
É por isso que todo golpe de Estado acaba tornando-se tirânico. Foi assim com a Revolução Francesa, onde os jacobinos incumbiram-se de levar à guilhotina até seus próprios filhos. Consolidada repressoramente por Napoleão Bonaparte, a opressão continuou a mesma, só mudou o sujeito da oração. Oliver Cromwell na Revolução Inglesa, carregou para si a missão de pôr fim ao absolutismo tornando-se um ditador militar. E assim sucedeu na URSS de Stálin, em Cuba de Fidel Castro, na China de Mao Tsé-Tung, na Alemanha nazista de Hitler. Todos os regimes totalitários os quais se têm notícia surgiram de revoluções ou golpes de Estado. Em parte também, porque uma elite uma vez destronada, nunca aceitará sair passivamente do poder.
Para que serve então a revolução? Que valor tem os ideais utópicos? É preciso lhes fazer justiça. Pois é através das idéias revolucionárias que o homem tem se permitido viver de forma mais digna. Os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade pregados na Revolução Francesa influenciaram países do mundo inteiro a lutar por uma vida mais justa. É o caso da Declaração de Independência dos Estados Unidos, que nasceu desafiando a tradição monárquica européia prometendo a igualdade entre os seus habitantes.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos em 10 de dezembro de 1948, nunca teria tornado-se possível caso não fosse a árdua defesa de Voltaire do que seria os chamados Direitos Fundamentais em 1789. A carga horária máxima de trabalho, as férias remuneradas e a proibição do trabalho infantil, não estariam presentes na vida do trabalhador do século XXI se não fosse as incontáveis lutas e greves do operariado no século XX, inspiradas pelos ideais marxistas. Por isso, "proletários de todo o mundo, uni-vos!", porque o que permite o evolucionismo ao caminhar histórico não é propriamente a subversão à ordem vigente, mas sim, as minhas, as suas, as nossas idéias - revolucionárias, utópicas.
(Ana Cecília Sabbá)
.
A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.
(Eduardo Galeano)

10.9.09

Noel Rosa x Wilson Batista


A polêmica briga musical de Noel Rosa (1910-1937) com Wilson Batista (1913-1968) durou menos de três anos, mas rendeu músicas interessantes e virou parte do folclore musical brasileiro. Quando o entrevero começou, na década de 1930, o boêmio da Vila já era um respeitado compositor, freqüentador da Lapa, amigo de famosos e com o nome feito no meio radiofônico.

Já o garoto Wilson ainda era um aprendiz, candidato a malandro e disposto a qualquer coisa para se tornar conhecido. Justamente por isso muitos até hoje não entendem por que Noel começou a rixa.

Wilson Batista, que entraria para a história como um grande sambista da década de 1940, estava apenas começando a carreira quando compôs Lenço no Pescoço. A música foi a sua terceira gravação e, em versos simples, fazia apologia à malandragem:

LENÇO NO PESCOÇO - 1933
(Wilson Batista)

Meu chapéu do lado
Tamanco arrastando
Lenço no pescoço
Navalha no bolso
Eu passo gingando
Provoco e tenho orgulho
Em ser tão vadio

Meu chapéu do lado...

Sei que eles falam
Deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha
Andar no miserê
Eu sou vadio
Porque tive inclinação
Eu me lembro, era criança
Tirava samba-canção
Comigo não
Eu quero ver quem tem razão

Meu chapéu do lado...

E ele toca
E você canta
E eu não dou
Ai, meu chapéu do lado...

Por que Noel Rosa teria se importado tanto com a música a ponto de dar a ela uma resposta? Há quem diga que seria por influência de um amigo, chamado Orestes Barbosa. Ele teria escrito: "num momento em que se faz a higiene poética do samba, a nova produção de Sílvio Caldas, pregando o crime por música, não tem perdão". Mais tarde, a música seria censurada pela Confederação Brasileira de Radiofusão, em nome da moralidade e do respeito às autoridades constituídas - no primeiro governo de Vargas, onde a cultura midiática tentava dar vazão à imagem do homem trabalhador, e sucumbir a figura do malandro em algo nocivo, criminoso e repudiante à sociedade, como assim pregava a política (e a polícia) varguista.

Mas e Noel? O que ele teria contra a figura do malandro? Na verdade, Noel tinha simpatia por ela, que estava presente em muitas de suas músicas. Apenas a influência de Orestes Barbosa talvez não justificasse sua resposta.

Aí é que entra uma versão mais apimentada da história. Wilson Batista havia se engraçado com uma morena, freqüentadora da Lapa e que também teria atraído a atenção de Noel Rosa. Só que os argumentos de Wilson foram mais fortes, e ele ficou com a moça, deixando Noel desapontado e ansioso para revidar na primeira oportunidade. A letra de Lenço no Pescoço era a desculpa que Noel precisava para dar uma lição no moleque atrevido. E com a arma que o poeta melhor sabia manejar: o samba. Assim, Noel compôs Rapaz Folgado, com endereço certo ao seu rival:

RAPAZ FOLGADO - 1933
(Noel Rosa)

Deixa de arrastar o teu tamanco...
Pois tamanco nunca foi sandália
E tira do pescoço o lenço branco,
Compra sapato e gravata,
Joga fora essa navalha
Que te atrapalha.

Com chapéu do lado deste rata...
Da polícia quero que escapes
Fazendo samba-canção
(Eu) Já te dei papel e lápis
Arranja um amor e um violão.

Malandro é palavra derrotista...
Que só serve pra
Todo o valor do sambista.
Proponho ao povo civilizado
Não te chamar de malandro
E sim de rapaz folgado.

Rapaz Folgado só seria gravada em 1938, por Aracy de Almeida, mas já circulava de boca em boca nos meios freqüentados pelos compositores. Todos sabiam que a alfinetada era para Wilson, que não engolia provocações. "Brigar" com Noel era uma excelente chance para ficar famoso. Batendo na caixinha de fósforos e escrevendo a letra em papel de maço de cigarro, Wilson compôs a tréplica logo em seguida, intitulada Mocinho da Vila:

MOCINHO DA VILA - 1934
(Wilson Batista)

Você, que é mocinho da Vila,
Fala muito em violão,
Barracão e outras coisas mais.
Se não quiser perder o nome,
Cuide do seu microfone,
E deixe quem é malandro em paz.
Injusto é seu comentário,
Fala de malandro quem é otário,
Mas falando não se faz.
Eu, de lenço no pescoço,
Desacato
E também tenho o meu cartaz

Considerada fraca na letra e na melodia, a criação de Wilson foi ignorada por Noel, que continuou a escrever sambas sem nenhuma relação com o debate musical. Um desses sambas foi o belíssimo Feitiço da Vila, cuja versão original fora interpretada por João Petra de Barros em 1934:

FEITIÇO DA VILA - 1934
(Noel Rosa - Oswaldo Gogliano [Vadico])

Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos
Do arvoredo
E faz a lua nascer mais cedo!

Lá em Vila Isabel
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba
São Paulo dá café,
Minas dá leite
E a Vila Isabel dá samba!

A Vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem...
Tendo nome de Princesa
Transformou o samba
Num feitiço decente
Que prende a gente...

O sol da Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora:
Sol, pelo amor de Deus,
Não venha agora
Que as morenas vão logo embora!

Eu sei por onde passo
Sei tudo que faço
Paixão não me aniquila...
Mas tenho que dizer:
Modéstia à parte,
Meus senhores, eu sou da Vila!

Nesta exaltação ao bairro de Vila Isabel, podemos sentir claramente a boemia, tão presente na vida de Noel Rosa e responsável pelo agravamento de sua doença (tuberculose). Na canção, Noel implorava para que o sol não nascesse, pois a roda de samba terminaria e as mulheres iriam para casa. Vale destacar também a beleza da imagem de galhos balançando ao som do samba.

Outra referência interessante é feita à política do café com leite de São Paulo e Minas Gerais. Apesar de a política ter se encerrado em 1930, ela ainda estava bastante presente na memória das pessoas.

No programa Case, da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, Noel criou novos versos para o já sucesso Feitiço da Vila. Esses versos são fundamentais para se compreender a provocação seguinte de Wilson Batista:

Versos adicionais de Feitiço da Vila

Quem nasce pra sambar
Chora pra mamar
Em ritmo de samba.
Eu já saí de casa olhando a lua
E até hoje estou na rua.
A zona mais tranqüila
É a nossa Vila
O berço dos folgados;
Não há um cadeado no portão
Porque na Vila não há ladrão.

Nos novos versos, Noel fez uma volta à infância, não só na referência ao choro pra mamar em ritmo de samba, mas, sobretudo, aos tempos em que a Vila Isabel gozava a má fama de atrair ladrões. Segundo Noel, esse tempo já teria passado, e o bairro podia se orgulhar de dormir sem cadeado nos portões. Nesse momento, Wilson Batista viu uma oportunidade de entrar novamente em ação.

Desde que sua canção Mocinho da Vila fora ignorada por Noel, Wilson Batista estava fora de cena. Ainda fiel ao sonho de ser famoso e sabedor de que nenhum compositor popular brasileiro estava tão em evidência quanto Noel, Wilson não perdeu tempo e escreveu Conversa Fiada:

CONVERSA FIADA - 1935
(Wilson Batista)

É conversa fiada
Dizerem que o samba
Na Vila tem feitiço.
Eu fui ver pra crer
E não vi nada disso.
A Vila é tranqüila,
Porém é preciso cuidado:
Antes de irem dormir,
Dêem duas voltas no cadeado.
Eu fui lá na Vila ver o arvoredo se mexer
E conhecer o berço dos folgados.
A lua nessa noite demorou tanto,
Assassinaram-me um samba.
Veio daí o meu pranto.

Noel não podia ignorar a nova canção. O ajustamento de ritmo e a bela melodia já continham elementos que permitiam antever o grande sambista que Wilson Batista seria. A música era indiscutivelmente bem-feita, e o bairro de Vila Isabel tinha sido debochadamente atacado.

O contra-ataque tinha que ser definitivo, mortal e em grande estilo. Veio na forma de um samba intitulado Palpite Infeliz - um dos mais populares e bem elaborados de toda a obra de Noel.

PALPITE INFELIZ - 1935
(Noel Rosa)

Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém,
Só quer mostrar que faz samba também.

Fazer poema lá na Vila é um brinquedo,
Ao som do samba dança até o arvoredo.
Eu já chamei você pra ver,
Você não viu porque não quis
Quem é você que não sabe o que diz?
Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém,
Só quer mostrar que faz samba também.

A Vila é uma cidade independente
Que tira samba mas não quer tirar patente.
Pra que ligar a quem não sabe
Aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?

Obra-prima da música brasileira, o samba ficaria para sempre na memória do povo e de Wilson Batista. Logo no primeiro verso, Noel chama atenção para o fato de o rival ainda não ser tão conhecido: "Quem é você que não sabe o que diz?".

Mais do que provocativa, Palpite Infeliz também é uma obra integradora, que promove a confraternização do mundo do samba. A canção defende a Vila Isabel com elegância, sem colocá-la acima de Estácio de Sá, Salgueiro ou Mangueira. Para Noel, a disputa estava encerrada. Já Wilson pensava diferente, e a nova resposta veio com um golpe baixo intitulado Frankenstein da Vila. O samba era uma pilhéria com Noel, satirizando a sua feiúra provocada pelo defeito que tinha no queixo, causado por um acidente na hora do parto.

FRANKENSTEIN DA VILA - 1936
(Wilson Batista)

Boa impressão nunca se tem
Quando se encontra um certo alguém,
Que até parece o "Frankenstein".
Mas, como diz o rifão,
Por uma cara feia,
Perde-se um bom coração.

Entre os feios estás na primeira fila,
Eu te batizo "Fantasma da Vila".
Essa indireta é contigo,
E depois não vás dizer
Que eu não sei o que digo.
(Sou teu amigo)

Algumas testemunhas afirmam que Noel não deu importância ao samba, achando até graça do deboche. Outros garantem que a história não foi bem assim. Cícero Nunes, companheiro de muitas cervejadas, jura ter visto Noel chorar ao tocar no assunto. Ainda no mesmo ano, Wilson escreveu Terra de Cego, e cantou o samba para Noel no Café Leitão:

TERRA DE CEGO - 1936
(Wilson Batista)

Perde a mania de bamba
Todos sabem qual é
O teu diploma no samba.
És o abafa da Vila, eu bem sei,
Mas na terra de cego
Quem tem um olho é rei.
Pra não terminar a discussão
Não deves apelar
Para um barulho na mão.
Em versos podes bem desabafar
Pois não fica bonito
Um bacharel brigar.

Noel gostou da melodia, mas pediu para trocar a letra no próprio botequim. Como Wilson também havia andado de namoro com Ceci - uma antiga paixão de Noel Rosa -, a nova letra foi dedicada a ela. Com a música pronta, Noel viveu um "amor de parceria": a mulher era Ceci; o parceiro, Wilson Batista.

DEIXA DE SER CONVENCIDA - 1936
(Noel Rosa - Wilson Batista)

Deixa de ser convencida
Todos sabem qual é
Teu velho modo de vida.
És uma perfeita artista, eu bem sei,
Também fui do trapézio,
Até salto mortal
No arame eu já dei.
(Muita medalha eu ganhei!)
E no picadeiro desta vida
Serei o domador,
Serás a fera abatida.
Conheço muito bem acrobacia
Por isso não faço fé
Em amor, em amor de parceria.

Era o fim de uma briga musical da qual pouca gente tomou conhecimento na época (com exceção do meio artístico). É difícil saber até que ponto Noel guardou alguma mágoa ou ressentimento, principalmente com relação ao samba Frankenstein da Vila. Quanto a Wilson, façamos justiça: não foi por causa da rixa que ele se tornou alguém na vida. Seu tempo chegou pelo próprio talento - ainda que, em minha opinião, Noel Rosa fosse superior musicalmente falando. Noel faleceu em maio de 1937. E a Wilson restou saudade, respeito e grande admiração.

9.9.09

.:. Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
.
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
.
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
.
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar.
.
.
Alphonsus de Guimarães - 2ª geração romântica; Um dos meus poemas preferidos de todos os tempos. Mesmo com as três escolas literárias necessárias para destronar o romantismo - parnasianismo, naturalismo e realismo - ainda sim, o romântico do século XIX é tão atemporal e onipresente, que sempre vai estar intrínseco à contemporaneidade da nossa literatura. E diga-se de passagem, que literatura.

8.9.09

O Irã dos aiatolás

Há 30 anos, a revolução iraniana derrubou a ditadura sangrenta do xá Rheza Pahlevi, aliado incondicional dos Estados Unidos, e conduziu ao poder o aiatolá Khomeini, líder xiita que convocava os islâmicos de todo o mundo a combater as superpotências da época - Estados Unidos e União Soviética (que, no final de 1979, invadiria o vizinho Afeganistão). Inaugurava-se então, uma nova etapa no cenário político internacional, que colocava o mundo islâmico - e o Irã - no centro do jogo de xadrez planetário. Ao contrário, porém, de uma imagem construída pela mídia que procura mostrar o Irã como um país governado por loucos radicais, preocupados em explodir o mundo com bombas atômicas e avesso à reflexão política, o regime iraniano é resultado de uma história bastante complexa e ainda em desdobramento.
Todo esse jogo de forças contraditórias, por vezes antagônicas, reflete uma sociedade dinâmica e em transformação. Um dos reflexos mais óbvios disso é o poder de sedução do cinema iraniano, considerado um dos mais inovadores do mundo contemporâneo. A revolução de 1979, para além de todas as simplificações e caricaturas feitas pela mídia, escapou à lógica das superpotências, ao desafiar ambas. A revolução aparentemente oferecia ao mundo uma alternativa que escapava à lógica dos grandes blocos, e conferia ousadia, dignidade e autoconfiança a toda uma região do Terceiro Mundo que, durante todo o século XX, foi superexplorada, marginalizada e humilhada pelas potências. Pagou um elevado preço por isso: para desestabilizar a revolução, e com a cumplicidade de Sadam Hussein, Washington e Moscou fomentaram guerra contra o Iraque, que, nos anos 80, ceifou pelo menos 1,5 milhão de vidas dos dois lados.
É por essa razão que, xiita ou sunita, fundamentalista ou não, árabe ou não-árabe, ninguém poderia ficar indiferente à revolução de 1979. Bem ou mal, ela foi a única revolução que suportou, praticamente sem fissuras, os dramáticos feitos da queda do Muro de Berlim (em 9 de novembro de 1989), e que mantém uma certa coerência política interna face à nova ordem pós-Guerra Fria, apesar de todas as divergências internas. A revolução de Khomeini se alimenta do mito do Estado igualitarista muçulmano, assim como alimenta esse mito. Este é um dos segredos do seu fascínio.

2.9.09

corrupção é a lei


Quem assistiu ao discurso de José Sarney no senado pôde perceber muito bem que a pressão exercida sobre o senador já o está afetando gravemente. Não que ele vá ceder e render-se à vontade popular, afinal de contas ele não é da estirpe de políticos que se preocupa com a opinião que o povo tem. Vive numa redoma criada por seu ego e pela ilusão alimentada por aduladores e por pessoas que o fazem “um grande homem” apenas para usufruírem das benesses que uma figura como ele pode produzir.

A situação o está afetando principalmente porque está acabando com a sua capacidade de inventar desculpas para todos os crimes que lhe são imputados. Chamar a matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo de nazista e colocar-se como um indefeso cidadão, diante de uma corporação gigante e perversa, é faltar com a verdade. Essa postura é muito mais grave do que mentir sobre supostos desvios de verbas, nepotismo e sobre a autoria de toda sorte de irregularidade das quais o acusam. É querer enganar o povo com mais uma mentira.

Pois, mesmo não havendo a “Lei de Imprensa” e o “Direito de Resposta”, assegurado numa lei criada por uma ditadura (que, aliás, ele apoiou de corpo e alma), Sarney poderia defender-se com uma arma infalível e que desmoralizaria o jornal nazista de uma vez por todas: a verdade.

Se as acusações que lhe são feitas, quase a cada dia, são mentiras orquestradas por uma imprensa má e a serviço da oposição golpista; porque o nobre senador não apresenta a verdade? Um processo judicial, no mais estrito caráter democrático, com a apresentação de documentos que comprovem a lisura de suas ações; a não participação dele em qualquer falcatrua; a origem de sua fortuna e de seu patrimônio gigantesco construído com o suor de seu rosto; a inexistência de qualquer facilidade por parte de empreiteiras e outras empresas ganhadoras de contratos governamentais em sua fortuna pessoal e a de seus filhos. Tudo isso iria desmascarar a atitude nazista e suja de um jornal pago para denegrí-lo e afrontá-lo. Isso era o que eu faria se não devesse nada a ninguém. E nem tentaria usar um desembargador, amigo da família, para censurar ninguém (diga-se de passagem com total silêncio do CNJ e das autoridades jurídicas da nação).

Mas, o nobre senador, adora ocupar a tribuna e negar que conhece um apadrinhado contratado por um ato secreto para, logo depois, ser desmascarado pela mídia nazista com uma foto dele sendo padrinho de casamento do tal “desconhecido”. Quantos de vocês foram convidados para serem padrinhos de casamento de desconhecidos? Eu nunca conheci ninguém; e vocês?

O nobre senador também adora dizer que desconhece fatos relacionados com os atos secretos. Mas, em seguida, é desmascarado pela mídia golpista e nazista com uma gravação onde, de própria voz, diz que “vai dar um jeitinho” de contratar alguém que está listado nos mesmos atos secretos que ele dizia desconhecer e com os quais nega relação.

Ao defender-se tão veementemente na tribuna, Sarney esqueceu de refutar as denúncias sobre um dos apartamentos (lhe foram impostas a propriedade de três apartamentos dados pela empreiteira e ele falou apenas de dois). Talvez, pela idade avançada ele tenha “se esquecido-se” do outro imóvel.

Por que, ao invés de colocar tudo às claras e desmascarar de uma vez por todas a mídia golpista, nazista e descarada; Sarney prefere se fechar e impedir o acesso ao senado criando uma bolha de obscuridade ao redor de si?

Sarney se diz vítima de um processo Kafkiano, em que não sabe quem o acusa e nem do que é acusado. Ora senador, kafikiana é a sua defesa. Ao invés de apelar para a defesa de sempre (de que não é um homem comum) e recitar até cansar a ladainha do injustiçado e o jargão “um homem como eu”; coloque-se diante da realidade republicana a qual todos os brasileiros deveriam exigir: todos são iguais.

Não há mais espaços para “homens como eu”; para “pessoas acima de qualquer suspeita”; para “biografias” e, muito menos, para coronéis. No século XXI a política deve ser regida por um único parâmetro: a probidade.

E a pena para os que se distanciam desse parâmetro pode até não ser a cadeia (e aqui realmente não será tão cedo). Mas, numa sociedade séria e preocupada com a lisura de suas instituições, deveria ser o ostracismo político. Assistimos a isso nos recentes escândalos na Inglaterra e nos EUA. Os mesmos que seus defensores citam frequentemente para defendê-lo e defenderem-se. Afinal de contas, se todo mundo faz; podemos fazer também.

A diferença, nobre senador, é que lá fora se compreende que a corrupção é um mal inerente ao ser humano. Mas também se entende que alguém que caia em tentação uma vez; cairá sempre. Assim, se esses “nobres senhores” não são presos; perdem para sempre a possibilidade de elegerem-se. Nessas sociedades, o político “cara-de-pau” não é tolerado.

Mas não se preocupe, no dia em o Brasil deixar de ser exemplo de país corruptível e de possuir uma polícia corrupta - da qual todos os cidadãos se beneficiam e, ao meu ver, assim querem que seja -, todos verão como são frágeis e irrisórios os argumentos que o senhor usa hoje.

Pense nisso.