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2.9.09

corrupção é a lei


Quem assistiu ao discurso de José Sarney no senado pôde perceber muito bem que a pressão exercida sobre o senador já o está afetando gravemente. Não que ele vá ceder e render-se à vontade popular, afinal de contas ele não é da estirpe de políticos que se preocupa com a opinião que o povo tem. Vive numa redoma criada por seu ego e pela ilusão alimentada por aduladores e por pessoas que o fazem “um grande homem” apenas para usufruírem das benesses que uma figura como ele pode produzir.

A situação o está afetando principalmente porque está acabando com a sua capacidade de inventar desculpas para todos os crimes que lhe são imputados. Chamar a matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo de nazista e colocar-se como um indefeso cidadão, diante de uma corporação gigante e perversa, é faltar com a verdade. Essa postura é muito mais grave do que mentir sobre supostos desvios de verbas, nepotismo e sobre a autoria de toda sorte de irregularidade das quais o acusam. É querer enganar o povo com mais uma mentira.

Pois, mesmo não havendo a “Lei de Imprensa” e o “Direito de Resposta”, assegurado numa lei criada por uma ditadura (que, aliás, ele apoiou de corpo e alma), Sarney poderia defender-se com uma arma infalível e que desmoralizaria o jornal nazista de uma vez por todas: a verdade.

Se as acusações que lhe são feitas, quase a cada dia, são mentiras orquestradas por uma imprensa má e a serviço da oposição golpista; porque o nobre senador não apresenta a verdade? Um processo judicial, no mais estrito caráter democrático, com a apresentação de documentos que comprovem a lisura de suas ações; a não participação dele em qualquer falcatrua; a origem de sua fortuna e de seu patrimônio gigantesco construído com o suor de seu rosto; a inexistência de qualquer facilidade por parte de empreiteiras e outras empresas ganhadoras de contratos governamentais em sua fortuna pessoal e a de seus filhos. Tudo isso iria desmascarar a atitude nazista e suja de um jornal pago para denegrí-lo e afrontá-lo. Isso era o que eu faria se não devesse nada a ninguém. E nem tentaria usar um desembargador, amigo da família, para censurar ninguém (diga-se de passagem com total silêncio do CNJ e das autoridades jurídicas da nação).

Mas, o nobre senador, adora ocupar a tribuna e negar que conhece um apadrinhado contratado por um ato secreto para, logo depois, ser desmascarado pela mídia nazista com uma foto dele sendo padrinho de casamento do tal “desconhecido”. Quantos de vocês foram convidados para serem padrinhos de casamento de desconhecidos? Eu nunca conheci ninguém; e vocês?

O nobre senador também adora dizer que desconhece fatos relacionados com os atos secretos. Mas, em seguida, é desmascarado pela mídia golpista e nazista com uma gravação onde, de própria voz, diz que “vai dar um jeitinho” de contratar alguém que está listado nos mesmos atos secretos que ele dizia desconhecer e com os quais nega relação.

Ao defender-se tão veementemente na tribuna, Sarney esqueceu de refutar as denúncias sobre um dos apartamentos (lhe foram impostas a propriedade de três apartamentos dados pela empreiteira e ele falou apenas de dois). Talvez, pela idade avançada ele tenha “se esquecido-se” do outro imóvel.

Por que, ao invés de colocar tudo às claras e desmascarar de uma vez por todas a mídia golpista, nazista e descarada; Sarney prefere se fechar e impedir o acesso ao senado criando uma bolha de obscuridade ao redor de si?

Sarney se diz vítima de um processo Kafkiano, em que não sabe quem o acusa e nem do que é acusado. Ora senador, kafikiana é a sua defesa. Ao invés de apelar para a defesa de sempre (de que não é um homem comum) e recitar até cansar a ladainha do injustiçado e o jargão “um homem como eu”; coloque-se diante da realidade republicana a qual todos os brasileiros deveriam exigir: todos são iguais.

Não há mais espaços para “homens como eu”; para “pessoas acima de qualquer suspeita”; para “biografias” e, muito menos, para coronéis. No século XXI a política deve ser regida por um único parâmetro: a probidade.

E a pena para os que se distanciam desse parâmetro pode até não ser a cadeia (e aqui realmente não será tão cedo). Mas, numa sociedade séria e preocupada com a lisura de suas instituições, deveria ser o ostracismo político. Assistimos a isso nos recentes escândalos na Inglaterra e nos EUA. Os mesmos que seus defensores citam frequentemente para defendê-lo e defenderem-se. Afinal de contas, se todo mundo faz; podemos fazer também.

A diferença, nobre senador, é que lá fora se compreende que a corrupção é um mal inerente ao ser humano. Mas também se entende que alguém que caia em tentação uma vez; cairá sempre. Assim, se esses “nobres senhores” não são presos; perdem para sempre a possibilidade de elegerem-se. Nessas sociedades, o político “cara-de-pau” não é tolerado.

Mas não se preocupe, no dia em o Brasil deixar de ser exemplo de país corruptível e de possuir uma polícia corrupta - da qual todos os cidadãos se beneficiam e, ao meu ver, assim querem que seja -, todos verão como são frágeis e irrisórios os argumentos que o senhor usa hoje.

Pense nisso.

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