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8.9.09

O Irã dos aiatolás

Há 30 anos, a revolução iraniana derrubou a ditadura sangrenta do xá Rheza Pahlevi, aliado incondicional dos Estados Unidos, e conduziu ao poder o aiatolá Khomeini, líder xiita que convocava os islâmicos de todo o mundo a combater as superpotências da época - Estados Unidos e União Soviética (que, no final de 1979, invadiria o vizinho Afeganistão). Inaugurava-se então, uma nova etapa no cenário político internacional, que colocava o mundo islâmico - e o Irã - no centro do jogo de xadrez planetário. Ao contrário, porém, de uma imagem construída pela mídia que procura mostrar o Irã como um país governado por loucos radicais, preocupados em explodir o mundo com bombas atômicas e avesso à reflexão política, o regime iraniano é resultado de uma história bastante complexa e ainda em desdobramento.
Todo esse jogo de forças contraditórias, por vezes antagônicas, reflete uma sociedade dinâmica e em transformação. Um dos reflexos mais óbvios disso é o poder de sedução do cinema iraniano, considerado um dos mais inovadores do mundo contemporâneo. A revolução de 1979, para além de todas as simplificações e caricaturas feitas pela mídia, escapou à lógica das superpotências, ao desafiar ambas. A revolução aparentemente oferecia ao mundo uma alternativa que escapava à lógica dos grandes blocos, e conferia ousadia, dignidade e autoconfiança a toda uma região do Terceiro Mundo que, durante todo o século XX, foi superexplorada, marginalizada e humilhada pelas potências. Pagou um elevado preço por isso: para desestabilizar a revolução, e com a cumplicidade de Sadam Hussein, Washington e Moscou fomentaram guerra contra o Iraque, que, nos anos 80, ceifou pelo menos 1,5 milhão de vidas dos dois lados.
É por essa razão que, xiita ou sunita, fundamentalista ou não, árabe ou não-árabe, ninguém poderia ficar indiferente à revolução de 1979. Bem ou mal, ela foi a única revolução que suportou, praticamente sem fissuras, os dramáticos feitos da queda do Muro de Berlim (em 9 de novembro de 1989), e que mantém uma certa coerência política interna face à nova ordem pós-Guerra Fria, apesar de todas as divergências internas. A revolução de Khomeini se alimenta do mito do Estado igualitarista muçulmano, assim como alimenta esse mito. Este é um dos segredos do seu fascínio.

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