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14.9.09

A semiótica do imaginário utópico.

Todo entendimento é histórico. E como defende o jurista e filósofo François Ost, é somente com o caminhar historiográfico que os costumes são reciclados, as instituições evoluem e o conhecimento humano é aprimorado. Tendo em vista essa concepção, toda revolução é um meio que nunca poderá alcançar seu fim. Isso porque, toda revolução prega uma drástica ruptura histórica, ruptura de costumes, de identidade e de valores, a qual a massa, nunca irá permitir-se fazer, por mais forte e penetrante que seja a propaganda ideológica.
É por isso que todo golpe de Estado acaba tornando-se tirânico. Foi assim com a Revolução Francesa, onde os jacobinos incumbiram-se de levar à guilhotina até seus próprios filhos. Consolidada repressoramente por Napoleão Bonaparte, a opressão continuou a mesma, só mudou o sujeito da oração. Oliver Cromwell na Revolução Inglesa, carregou para si a missão de pôr fim ao absolutismo tornando-se um ditador militar. E assim sucedeu na URSS de Stálin, em Cuba de Fidel Castro, na China de Mao Tsé-Tung, na Alemanha nazista de Hitler. Todos os regimes totalitários os quais se têm notícia surgiram de revoluções ou golpes de Estado. Em parte também, porque uma elite uma vez destronada, nunca aceitará sair passivamente do poder.
Para que serve então a revolução? Que valor tem os ideais utópicos? É preciso lhes fazer justiça. Pois é através das idéias revolucionárias que o homem tem se permitido viver de forma mais digna. Os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade pregados na Revolução Francesa influenciaram países do mundo inteiro a lutar por uma vida mais justa. É o caso da Declaração de Independência dos Estados Unidos, que nasceu desafiando a tradição monárquica européia prometendo a igualdade entre os seus habitantes.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos em 10 de dezembro de 1948, nunca teria tornado-se possível caso não fosse a árdua defesa de Voltaire do que seria os chamados Direitos Fundamentais em 1789. A carga horária máxima de trabalho, as férias remuneradas e a proibição do trabalho infantil, não estariam presentes na vida do trabalhador do século XXI se não fosse as incontáveis lutas e greves do operariado no século XX, inspiradas pelos ideais marxistas. Por isso, "proletários de todo o mundo, uni-vos!", porque o que permite o evolucionismo ao caminhar histórico não é propriamente a subversão à ordem vigente, mas sim, as minhas, as suas, as nossas idéias - revolucionárias, utópicas.
(Ana Cecília Sabbá)
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A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.
(Eduardo Galeano)

Um comentário:

L.Moraes disse...

belo texto. gostei do seu blog.
=***