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26.10.09

Com amor, para Ronaldo Guerra.

O post de hoje começa sendo na verdade uma das mil pesquisas que fiz nesses últimos meses para o meu professor de história da fotografia. Só que a dessa semana, resolvi transformar em texto. Descobri nesse intervalo de tempo fotógrafos incríveis, dos quais nunca nem tinha ouvido falar, mas que seus trabalhos inspiraram gerações inteiras à retratar de forma demasiada artística nada mais do que a banalidade. Seja com qualquer uma das influências vanguardistas: dadaístas, cubistas, surrealistas etc., os fotógrafos da semana mereciam no mínimo uma análise aprofundada de seus trabalhos e todas as implicações para a fotografia analógica tal qual conhecemos hoje, porém, tendo em vista o pouco conhecimento de quem aqui escreve, minha análise supérflua será o início de uma longa jornada rumo à esses artistas no mínimo, interessantíssimos.

Vou começar por Man Ray. Fundador do grupo dadaísta de Nova York após sofrer influência direta de Duchamps, é o maior nome da fotografia da década de 20! É a fusão do dadaísmo com o surrealismo na pintura e na fotografia. "Pinto o que não pode ser fotografado, algo surgido da imaginação, ou um sonho, ou um impulso do subconsciente. Fotografo as coisas que não quero pintar, coisas que já existem." Sentou em cafés parisienses ao lado de Picasso, Dali, Miró e desvendou novas facetas para o movimento cubista. Fundou uma das maiores academias de arte de Nova York, a qual abrigou artistas como Berenice Abbott, fotógrafa renomada por seu acervo fotográfico documentário sobre NY.



Man Ray

Berenice Abbott


É impossível ter vivido até meados do século XX sem ter sofrido nenhum tipo de influência das vanguardas européias. A mais forte delas no que diz respeito à fotografia, é a surrealista. Também, pudera, com as três linhas de frente lideradas por Freud na psicologia, Bergson na filosofia, e Breton nas artes plásticas, era quase impossível ficar imune. E é por isso que o fotógrafo ponto alto da pesquisa - Manuel Alvarez Bravo, tem tantos traços surrealistas, por mais que não se considerasse um ativista de nenhum movimento artístico ou literário, isso fora inevitável: era exposto a muitos de seus fundadores.

Além disso, a realidade exterior de um artista influencia irremediavelmente suas obras. Por mais que os expressionistas tentem dizer o contrário, meu argumento é simples: o que está fora revela o que está dentro, logo, de um jeito ou de outro, a arte também é de maneira subjetiva, um retrato da realidade. Caso ela seja interna, está amparada intrínsecamente pela externa. É por isso que Manuel Bravo é revolução. E essa vem da América Latina. O movimento zapatista, a revolução Mexicana e o assassinato de Trótsky no mesmo período, estão relatados em sua fotografia como não o foram de nenhum outro modo, por nenhum outro ser vivo. É também (por que não?) um trabalho político. Mas ainda assim, por mais que estivesse envolvido com muitos artistas e escritores revolucionários, não deixou que a política oprimisse os aspectos pessoais do seu trabalho e continuou a criar belas fotografias de sonho (olha a influência surrealista bretoniana aí!) e da vida no México até o fim de seus episódios contínuos. Porque os capturados por uma máquina? Esses não morrem nunca! Um ícone da arte contemporânea e da fotografia latina discutido em todas as academias de arte do mundo.





Manuel Alvarez Bravo

Agora é a vez de August Sander. Fotógrafo alemão nem tanto conhecido pelo próprio contexto histórico no qual viveu. Como todo fotógrafo que se preze, buscava relatar a realidade nua e crua, a vida como ela é e não como ela deveria ser. O problema é que a realidade era o regime nazista da década de 30. Eram as câmaras de gás de Hitler, a censura, a opressão, o extermínio, a ideologia imposta sobre uma ótica anti-semita. Logo, o seu trabalho e vida pessoal eram muito limitadas. Seu primeiro livro fotográfico foi apreendido em 1936 e as placas fotográficas destruídas. Seu estúdio foi destruído em um bombardeio de 1944.

Seu trabalho inclui paisagem, natureza, arquitetura e fotografia de rua, mas ele é mais conhecido por seus retratos, como exemplificado por sua série de "Pessoas do Século 20". Nesta série, ele pretende mostrar um corte transversal da sociedade durante a República de Weimar. A série é dividida em sete seções: o agricultor, o comerciante hábil, a mulher, classes e profissões, os artistas, a cidade, e as últimas pessoas (pessoas sem abrigo, veteranos, etc.).

O legado de imagens que Sander deixou ainda assim, não foi pouco. Porém, em um acervo de 40.000 imagens, os ensaios fotográficos são apenas uma amostra, do que o mundo deixou de ver pelo regime nazista.


Pessoas do século 20 - August Sander


E como sempre: o melhor por último. É de André Kertész que falo. Sua fotografia foi sem dúvida, a que mais me impressionou. É o mais complexo dos fotógrafos e sua vida (logo, sua arte) é dividida em vários períodos. Conhecido por seus esforços em desevolver o que hoje chamamos de ensaio fotográfico, foi completamente autodidata com relação à fotografia, pela própria falta de apoio de sua família. Pioneiro e peça-chave da fotojornalismo, sua carreira - muito pouco conhecida em vida - é dividida em três fases.

A primeira, é durante seu período húngaro. Acompanhando o exército austro-húngaro durante a Segunda Guerra Mundial, a fotografia das trincheiras trás o leitor ao combate. É esse o papel do jornalista, e porque não dizer... do fotojornalista. Crucial para o desenvolvimento dessa profissão, seus relatos - através das fotos - sobre a guerra são uns dos mais bonitos que já vi. (Lembra professor: "quero fotografar uma guerra"? Esse desejo partiu de Kertész!). É dessa época também o seu trabalho "Distorções". Uma de suas maiores obras-primas, que surgiu a partir da fotografia de um nadador cuja imagem está distorcida pela água.

Após ter sido ferido na guerra, em Paris, vem sua fase mais brilhante. É o resultado de encontros com personalidades como Brassai e Man Ray. É o resultado de seu impressionismo com relação ao cubismo e ao dadaísmo, movimentos artísticos presentes em inúmeras de suas obras. Foi onde durante toda sua carreira, obteve a maior projeção. Porém, ínfima perto do que merecia (e do que teria após sua morte). Kertész, sabia muito bem disso.

Chegou em Nova York com a inspiração de finalmente, encontrar sua fama na América. Porém, os trabalhos nunca lhe agradavam. Um pouco de prepotência talvez achar que suas obras estavam além dos trabalhos ofertados. Mas a verdade é que para Kertész não havia porquê fazer algo que fosse de encontro à sua vontade e à sua maneira de ver a vida, de fotografá-la. Para completar, uma revista que finalmente publicou uma série de fotografias do artista, creditou-as a Ernie Prince, ex-chefe de Kertész. Enfurecido, Kertész resolveu não trabalhar com revistas ilustradas nunca mais. Publicando ainda assim alguns trabalhos, o apogeu de sua fase surrealista - proveniente do fervilhão cultural europeu - como todos os outros, não teve o destaque que merecia. A sorte não permitiu a André Kertész que o mundo conhecesse em vida todo o legado que ele deixaria para a arte e para a fotografia, ainda que sua gama de assuntos fosse limitada. Da fotojornalismo ao movimento surrealista retratado por ele como por nenhum outro, o acaso mais uma vez, torna-se peça fundamental. Como Kertész - sem dúvida, meu preferido.




André Kertész

Da paixão para a expressão. É assim na fotografia, e assim que escrevo sobre minhas mais novas descobertas que meu amado curso me proporcionou: tais fotógrafos e tantos outros. Brassai, Molinier, Bresson... quem sabe ainda escrevo sobre esses também. - Claro, se eu ganhar algum ponto extra.

19.10.09

le tourbillon de la vie

Em algumas situações, meu lado crítico de cinema clama por vir à tona. Observando de forma contínua minha evolução escrita, fica claro minha pugna por determinados estereótipos de filmes hollywoodianos (em suma maioria) e minha clara devoção por alguns diretores - Truffaut é um deles. Tentando despertar esse meu lado crítico após um final de semana repleto de filmes europeus, não podia deixar de comentar sobre uma de suas maiores obras-primas: Jules et Jim.
Será que Henri-Pierre Roché, algum dia pensou em obter tamanha projeção de sua imagem ao escrever esse livro? E será que de fato o teria, se casualmente, em um passeio por um dos sebos de Paris, ninguém menos que o cineasta François Truffaut, encontrasse sua obra e decidisse a partir de então levá-la às telas? É muito provável que não. Ele era apenas mais um escritor anônimo em um fervilhão cultural que há muito havia se tornado a capital francesa. Mas o acaso fez com que assim não o fosse. E da literatura para o cinema, o "hino à vida" de Truffaut, com extraordinária atuação de Jeanne Moreau, vem de forma única cantar o amor e a amizade.
É 1962 e o libertário triângulo amoroso de Jules, Jim e Catherine, vem com um desfecho surpreendente, diálogos eloquentes, incitações pertinentes. Reflexões paradigmáticas. Aborto de idéias. Relatos que sutilmente... incomodam. Por clamarem um pouco de nossas dúvidas e verdades. Contestar conceitos da sociedade. Como pode o cinema trazer tudo isso à tona em apenas 105 minutos?

Pretenção. Pois Truffaut vem provar que pode. E com classe!
Lindo. Como o turbilhão da vida.

E tudo isso, sem falar na trilha sonora...

14.10.09

Eu também sou desmedida.

'Porque há desejo em mim, é tudo cintilância. '
(Hilda Hilst)
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'O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade...sei lá de quê!'
(Florbela Espanca)
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A moderação sempre me intrigou, não consigo compreendê-la direito e tenho um certo medo dessas pessoas deliberadas e pausadas, que pensam no que lentamente falam e fazem sempre o que devem fazer, nos limites que querem observar. Só consigo ser desabrida e só me dou efetivamente bem com os desabridos, seja como pessoas, seja como artistas ou seja como pensadores.

12.10.09

Holanda: é pra lá que eu vou!


A nação holandesa surgiu como resultado da união de sete províncias que se rebelaram contra o domínio espanhol em 1579 e passaram a funcionar como uma federação independente a partir de 1588. Uma delas chamava-se Holanda, nome que depois passou a designar o conjunto das Províncias Unidas dos Países Baixos.
Ao contrário de outras regiões da Europa, onde ainda vigorava o sistema feudal, ou que haviam se constituído em monarquias absolutistas, as sete províncias dos Países Baixos adotaram a República como forma de governo.
Na República holandesa, cada província tinha autonomia para decidir suas questões internas. Além disso, em uma época em que a intolerância religiosa entre católicos e protestantes provocava sangrentos conflitos na Europa, a Holanda se tornou um símbolo da liberdade de crença.
A liberdade religiosa e a garantia de direitos políticos para a população civil fizeram com que muitas pessoas que sofriam perseguições em seu país de origem procurassem abrigo na Holanda. Ali, puderam publicar livremente jornais, panfletos e livros que logo se espalharam pela Europa. Em tais textos, os autores criticavam a Igreja católica e os regimes absolutistas.
Nessas circunstâncias, o século XVII foi de grande efervescência cultural na Holanda. Poetas, intelectuais, músicos e filósofos formavam associações para melhor difundir suas obras e defender seus interesses. Alguns dos melhores pintores do norte da Europa, como Frans Halls, Rembrandt van Rijn e Jan Vermeer, viviam e trabalhavam em território holandês. Ao mesmo tempo, dois dos filósofos precursores do Iluminismo - o inglês John Locke e o francês René Descartes - residiram na Holanda, onde participaram dos debates intelectuais que, no século XVII, fizeram desse país um lugar de produção de idéias originais.
Mais uma vez, faz-se necessário remontar à história, para entender porquê ainda hoje, a Holanda é um país à frente do seu tempo. Ela nasceu desafiando as tradições pragmáticas européias, e no século XXI, desafia os dógmas de uma civilização ainda influenciada pela cultura cristã. É o caso da legalização do aborto nesse país, e da existências de ONG's holandesas que viajam pelo mundo inteiro fazendo valer esse direito inerente ao sexo feminino.
Mais exemplos não faltam: a busca pelo aumento da taxa de natalidade permitindo relações sexuais em praça pública a partir das 11 da noite e o fato de ser o primeiro país no mundo a legalizar a maconha, coloca de novo a Holanda no topo da liderança pela modernidade e pela adequação do ordenamento jurídico à realidade, o que falta ao extremo nos países retrógrados e conservadores do mundo contemporâneo; como o nosso.
A Igreja era a culpada pelo atraso durante a Idade Média. E agora, a culpa é de quem?

8.10.09

dentro do sono

A história de hoje começa no verão de 2006. É julho e Salinas é o palco principal. É o palco de histórias ímpares, improváveis, subversivas e inacreditáveis, como essa que conto agora. Acabo de chegar da minha viagem de 15 anos pela América do Norte, minha guia (de 17 anos na época), se tornara minha amiga e ia me dar uma carona pra praia. O motorista? seu irmão mais velho, ou o meu namorado, o amor da minha vida, se assim preferirem. Mas isso, na época eu ainda não sabia. E assim sucederam caronas atrás de caronas, todas as tardes, conversas tímidas, encontros casuais, amigos em comum, até o último dia de julho, no qual, por ironia do destino, eu tranquei o seu carro com a chave dentro. Tudo conspirava pra que ele me odiasse, mas assim não foi. Nossos melhores amigos se pegaram e surgiu uma vontade absurda de ambas as partes de formarem um novo casal: nós dois. Mas os desencontros da vida não deixaram que assim o fosse, pelo menos, não naquele ano. E olha que tentaram. Nossos relacionamentos paralelos também atrapalharam um pouco, mas quando chegou o dia, o 27 de abril de 2007, em que eu tive que ir tirar visto em Brasília e ele também, o acaso fez com que fôssemos juntos, na mesma excursão, mesmo vôo, mesma fileira de assentos (tá, isso nao foi o acaso, hahha). E a partir daí, duas metades começaram a se completar, se entender ao mesmo tempo. Em belém, tudo virou confusão. Um quebra-cabeça de cabeça para baixo. Intrigas que só com o tempo se tornaram risadas. Pessoas que no fim das contas só foram capazes de aumentar ainda mais a graça dessa história. Se ficamos juntos? não. Acho que no fundo, nem pretendíamos ainda. Só o tempo veio mostrar o que era certo. Afinal, onde já se viu o loro apaixonado por uma menina? Mas quem já conseguiu dominar o amor? O caso, é que ele foi atrás dessa menina, escreveu cartão, fez serenata, desenhou na neve, pixou o asfalto, mandou flores, pediu ela em casamento, gritou pra lua, e conseguiu. Conseguiu dominar o amor, o amor dela, o meu amor. Que há sete meses, me faz ser a pessoa mais completa que eu poderia ser. Revela em mim tudo o que há de belo e fascinante, como esse amor que enlouquece e entorpece toda vez que sinto um frio na barriga só de pensar em estar do teu lado.

E que assim seja. Sempre: nossas palhaçadas, nossos filmes (e todos os outros que não conseguimos chegar ao fim), nossas comidinhas (as mais deliciosas tortas de banana, os temakis e as tuas pizzas que sempre saem queimadas), nossas músicas, cheiros, conversas, passeios, abraços, dengos, preguiças, teu conforto, nossos apelidos (alguns odiosos ¬¬ hahha), tua voz, teu cheiro, tua respiração forte, tuas implicâncias, nossas loucuras, nossos silêncios e até nossas brigas, sempre resolvidas no mesmo momento. Acho que nunca ficamos mais de 15 minutos sem nos falar. E eu amo isso. Amo nossas discussões sobre os mais variados assuntos. Contigo sei que posso sortear qualquer tema em uma caixinha e começar uma calorosa conversa sobre o mesmo. Amo cada momento, cada encontro, seja para uma cervejinha gelada, ou seja para uma noite capiciosa. Amo nossas situações improváveis, amo cada parte tua que eu fiz questão de decorar. Eu amo os sábados à noite. Eles são vermelhos, laranjas e amarelos. São fortes, são cores, são sensações. Na verdade eu amo a terça, a quarta, a quinta... só não a segunda porque a gente quase nunca se vê.

Tu és a minha melhor companhia, meu desejo de sensações compartilhadas.

Não precisamos de rótulos. Não precisamos de evidências. Só tenho a certeza de que quero dividir contigo todos os episódios da minha vida. Porque 'o sono de Mariana sempre chega antes do fim, na melhor parte da história que sua mãe insiste em lhe contar todas as noites.'

5.10.09

Brasil x EUA

Não há nas Américas dois países tão parecidos como Brasil e Estados Unidos, ambos terra de índios dizimados e gigantes continentais que apostaram na agricultura e na escravidão. Mas, por trás das semelhanças, existem diferenças cruciais.
No Brasil, os portugueses, depois de séculos sob a mística da poligamia moura, eram mais disponíveis aos impulsos dionisíacos diante da beleza das índias e das negras. Nos Estados Unidos, os ingleses brancos, caucasianos, não. Para os portugueses, a mulher era alvo e presa, e até padre católico se esgueirava nas sombras por um chamego de negra. Para os ingleses, a mulher era uma companheira e braço para o trabalho. Os portugueses chegaram sozinhos, sem mulher nem filhos, movidos pelo desejo de enriquecer e voltar à pátria-mãe, vitoriosos. Os ingleses, não. Vieram com família, dispostos a criar uma vida nova na nova terra. Nas pinturas que retratam as primeiras horas do Brasil e dos Estados Unidos, só no norte aparecem mães embalando berços. Os ingleses queriam fundar sua pátria calvinista. Os portugueses estavam em busca do Eldorado. Os ingleses eram colonizadores. Os portugueses, conquistadores. Longe da família, já com a cobiça pela riqueza tomando o lugar antes ocupado pela reverência católica à pobreza, o português, nos trópicos, fez-se outro.
Do caldeirão de diferenças e semelhanças nascem ordens políticas e econômicas tão diferentes entre o norte e o sul. Mas por quê? As instituições decorrem das condições materiais de cada lugar ou são moldadas pelo interesse do colonizador?
Acho que na verdade, isto é uma relação recíproca. Sejam as instituições produtos do meio ou do homem, ou um pouco de cada coisa, é certo que o atraso do Brasil resulta de sua riqueza inicial. É o paradoxo da abundância. A fartura de recursos naturais no raiar da colonização explica as instituições deformadas: exclusivistas, autoritárias, conservadoras. A relativa pobreza do norte da América Inglesa, onde a agricultura não convidava à escravidão e a propriedade privada da terra foi multiplicada, é a razão de suas instituições mais funcionais: homogêneas, igualitárias, democráticas.
Não há como tentar buscar respostas para essa discrepância absurda que separa o Brasil dos Estados Unidos no que diz respeito à educação e desenvolvimento, se não remontarmos à história. Os puritanos, que fugiam da perseguição anglicana na Inglaterra, vieram para as Américas com o propósito claro de fixar raízes rumo ao progresso na nova terra, aquela, seria sua nova pátria. Ao passo que os portugueses tinham um único propósito: explorar nossas riquezas. Somos colônia de exploração, não de povoamento. Esse é um fardo que teremos que carregar para sempre. Grande parte do motivo de nosso atraso em relação ao norte. Somos 46 anos atrasados só na declaração de independência, por sinal, esta feita pelo próprio descendente na família Real de Bragança. Nos tornamos república de forma apática, sem nem tomar conhecimento. São 23 anos de atraso na abolição da escravatura. 112 na redução do analfabetismo. Algumas singelas amostras do porquê de uns 200 no quesito desenvolvimento.
O brasileiro se acha esperto, acha que dá um "jeitinho" para tudo. Jeitinho? Então por que nunca demos um 'jeitinho brasileiro' na reforma agrária e urbana? Por que todas as vezes que tentaram fazer isso acabaram sendo torturados por agentes secretos da CIA? Ou morreram misteriosamente no Uruguai, como foi o caso de João Gourlat. Queria ver ao menos uma vez na minha vida darem um jeitinho para o Brasil deixar de ser "o país do futuro" e se tornar o país do presente. Alguém conseguir chegar ao topo sem a ajuda da elite, ou o que seria mais difícil, sem o apoio norte-americano.
É, a principal diferença está justamente aí: enquanto os americanos protestantes sempre trabalharam rumo ao progresso e ao desenvolvimento, os que mais tarde formariam o povo católico ocioso brasileiro - índios, negros e portugueses - já enraizavam o jeitinho brasileiro rumo à estagnação e à promessas de um futuro que não passa de ilusão.

1.10.09

Sobre a brevidade da vida

Vou tentar, nessa primeira madrugada de outubro, abordar mais uma vez - de maneira mais convincente (e por que não realista?) - esse tema. Isso porque meu primeiro texto sobre esse assunto não ficou do jeito que eu queria. Então é isso, pro lixo.
Mas vamos lá, o filme "Cazuza - O tempo não pára" sempre me deixa com uma espécie de felicidade pensativa. Tento explicar por quê. Cazuza mordeu a vida com todos os dentes. Não só ele, mas muitos outros, que nos fazem ver a veracidade de melodias que cantem que os bons morrem jovens. A doença e a morte parecem ter-se vingado de sua paixão exagerada de viver. A partir daí, é impossível não perguntar-se mais uma vez: o que vale mais, a preservação de nossas forças, que garantiria uma vida mais longa, ou a livre procura da máxima intensidade e variedade de experiências? Digo que a pergunta apresenta-se "mais uma vez" porque a questão é hoje trivial e, ao mesmo tempo, persecutória. Obedecemos a uma proliferação de regras que são ditadas pelos progressos da prevenção. Ninguém imagina que comer banha, fumar, tomar pinga, usar entorpecentes químicos, transar sem camisinha e tomar, sei lá, nitratos com Viagra seja uma boa idéia. À primeira vista, parece lógico que concordemos sem hesitação sobre o seguinte: não há ou não deveria haver prazeres que valham risco de vida ou, simplesmente, que valham o risco de encurtar a vida. De que adiantaria um prazer que, por assim dizer, cortaria o galho sobre o qual estou sentado? Nós jovens, temos uma boa razão para desconfiar de uma moral prudente e um pouco avara que sugere que escolhamos sempre os tempos suplementares. É que a morte nos parece distante, uma coisa com a qual nos preocuparemos só mais tarde, muito mais tarde. Mas nossa vontade de caminhar sobre a corda bamba e sem rede não é apenas a inconsciência de quem pode esquecer que o "tempo não pára". É também (e talvez sobretudo) um questionamento que nos desafia: para disciplinar a experiência, será que temos outras razões que não sejam só a decisão de durar um pouco mais?
E é lógico que não temos. Mas até onde vale à pena durar 80 anos olhando pra trás sem ter vivido nenhum?
Antes 20 do que nada, porque a vida, meus amigos, é agora.