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5.10.09

Brasil x EUA

Não há nas Américas dois países tão parecidos como Brasil e Estados Unidos, ambos terra de índios dizimados e gigantes continentais que apostaram na agricultura e na escravidão. Mas, por trás das semelhanças, existem diferenças cruciais.
No Brasil, os portugueses, depois de séculos sob a mística da poligamia moura, eram mais disponíveis aos impulsos dionisíacos diante da beleza das índias e das negras. Nos Estados Unidos, os ingleses brancos, caucasianos, não. Para os portugueses, a mulher era alvo e presa, e até padre católico se esgueirava nas sombras por um chamego de negra. Para os ingleses, a mulher era uma companheira e braço para o trabalho. Os portugueses chegaram sozinhos, sem mulher nem filhos, movidos pelo desejo de enriquecer e voltar à pátria-mãe, vitoriosos. Os ingleses, não. Vieram com família, dispostos a criar uma vida nova na nova terra. Nas pinturas que retratam as primeiras horas do Brasil e dos Estados Unidos, só no norte aparecem mães embalando berços. Os ingleses queriam fundar sua pátria calvinista. Os portugueses estavam em busca do Eldorado. Os ingleses eram colonizadores. Os portugueses, conquistadores. Longe da família, já com a cobiça pela riqueza tomando o lugar antes ocupado pela reverência católica à pobreza, o português, nos trópicos, fez-se outro.
Do caldeirão de diferenças e semelhanças nascem ordens políticas e econômicas tão diferentes entre o norte e o sul. Mas por quê? As instituições decorrem das condições materiais de cada lugar ou são moldadas pelo interesse do colonizador?
Acho que na verdade, isto é uma relação recíproca. Sejam as instituições produtos do meio ou do homem, ou um pouco de cada coisa, é certo que o atraso do Brasil resulta de sua riqueza inicial. É o paradoxo da abundância. A fartura de recursos naturais no raiar da colonização explica as instituições deformadas: exclusivistas, autoritárias, conservadoras. A relativa pobreza do norte da América Inglesa, onde a agricultura não convidava à escravidão e a propriedade privada da terra foi multiplicada, é a razão de suas instituições mais funcionais: homogêneas, igualitárias, democráticas.
Não há como tentar buscar respostas para essa discrepância absurda que separa o Brasil dos Estados Unidos no que diz respeito à educação e desenvolvimento, se não remontarmos à história. Os puritanos, que fugiam da perseguição anglicana na Inglaterra, vieram para as Américas com o propósito claro de fixar raízes rumo ao progresso na nova terra, aquela, seria sua nova pátria. Ao passo que os portugueses tinham um único propósito: explorar nossas riquezas. Somos colônia de exploração, não de povoamento. Esse é um fardo que teremos que carregar para sempre. Grande parte do motivo de nosso atraso em relação ao norte. Somos 46 anos atrasados só na declaração de independência, por sinal, esta feita pelo próprio descendente na família Real de Bragança. Nos tornamos república de forma apática, sem nem tomar conhecimento. São 23 anos de atraso na abolição da escravatura. 112 na redução do analfabetismo. Algumas singelas amostras do porquê de uns 200 no quesito desenvolvimento.
O brasileiro se acha esperto, acha que dá um "jeitinho" para tudo. Jeitinho? Então por que nunca demos um 'jeitinho brasileiro' na reforma agrária e urbana? Por que todas as vezes que tentaram fazer isso acabaram sendo torturados por agentes secretos da CIA? Ou morreram misteriosamente no Uruguai, como foi o caso de João Gourlat. Queria ver ao menos uma vez na minha vida darem um jeitinho para o Brasil deixar de ser "o país do futuro" e se tornar o país do presente. Alguém conseguir chegar ao topo sem a ajuda da elite, ou o que seria mais difícil, sem o apoio norte-americano.
É, a principal diferença está justamente aí: enquanto os americanos protestantes sempre trabalharam rumo ao progresso e ao desenvolvimento, os que mais tarde formariam o povo católico ocioso brasileiro - índios, negros e portugueses - já enraizavam o jeitinho brasileiro rumo à estagnação e à promessas de um futuro que não passa de ilusão.

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