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30.11.09

Mais um sobre Andy Warhol.

Continuando a linha de raciocínio do post anterior, nada melhor do que um texto sobre Andy Warhol e toda a sua contribuição para a difusão e reinvento da pop art, assim como sua contribuição para a criação de ícones e mitos na segunda metade do século 20. Como exemplo, podemos citar o fato de que Warhol talvez tenha contribuído mais para o mito de Marilyn Monroe do que Hollywood e as revistas populares juntos. Ao retratar ídolos da música popular e do cinema, como Elvis Presley, Liz Taylor, Marlon Brando e, sua favorita, Marylin Monroe, Warhol mostrava o quanto personalidades públicas são figuras impessoais e vazias; mostrava isso associando a técnica com que reproduzia estes retratos, numa produção mecânica ao invés do trabalho manual. O problema, é que pessoas que deveriam ser imortalizadas por seus feitos e idéias, como Che Guevara, também acabaram sendo imortalizadas por essa simples série de produção em massa. Um diálogo bem pertinente de 'Edukators' (recomendo mil vezes esse filme por sinal, à todas diferentes vertentes políticas!!), dizia mais ou menos que o que antes significava protesto e subversão, agora pode ser comprado em toda loja barata. O que antes era anarquia, hoje é moda.
Mas a grande questão que quero trazer pra cá, é questionar até que ponto, elementos da cultura pop, podem ou não ser transformados em arte. O grande propósito da pop art: o épico passou a ser substituído pelo cotidiano, o que se produzia em massa recebeu a mesma importância do que era único e irreproduzível. Uma mudança vertiginosa no conceito de arte: "não só a cultura popular se torna um tema de arte, mas também a arte passa a ser integrante da cultura popular." E eu sinceramente, não sei até que ponto isso é bom, porque num mundo em que tudo vira arte, a arte clássica acaba perdendo seu valor.
Muitos defenderam que o motivo por uma arte publicitária não poder ser tomada como arte é por causa dos fins para que esta arte é feita, é uma arte que já nasce na concepção que precisa vender e ser vendida. Nisso, eu já discordo, pois, desde a extinção do mecenato, os artistas passaram a depender de capital monetário para obterem seus ganhos de vida, e até que ponto estes artistas eruditos, por exemplo, estão distantes de conceberem suas obras para serem vendidas? A diferença é que nem todos podem esperar pela sorte de terem suas obras aceitas em museus de renomes e tornarem suas obras bem rentáveis. Ou nem todos têm esse talento. Com o novo sistema social e econômico onde tudo vira capital, por quê não comercializar a arte? Já perdeu seu propósito há tanto tempo mesmo! A arte que antes, era uma coisa para poucos, passa a ser para todos. O único problema disso, é a banalização da arte como um mero produto de consumo, torná-la impreterivelmente, algo sem valor.
Apesar de ter formação erudita, Warhol veio mostrar que todo ídolo pode virar um artigo de consumo e que uma simples propaganda publicitária pode se tornar arte. O que também trouxe benefícios, pois, é a partir daí que surge exposições de filmes e fotografias. Provou uma nova concepção de arte através de um contato com a cultura comercial. Isto, é claro, dependendo do que significa arte para você.

27.11.09

Fala, Che!


Tombou no seu posto de combate pela libertação econômica, política e social da América Latina. Mas quem foi Che Guevara? Qual sua contribuição à causa socialista?
Nas décadas que se seguiram à sua trágica morte nas selvas bolivianas, Che foi perdendo sua substância e se transformando num ícone; na verdade, um dos maiores ícones da segunda metade do século 20. Seu rosto de guerrilheiro altivo foi estampado em camisetas, cartazes e pichações por todo o mundo. Se existe um lado positivo neste fenômeno, pois mantém viva a imagem de um dos maiores heróis latino-americanos; de outro, ele acaba acobertando as idéias e o projeto político pelo qual Guevara viveu e morreu: a libertação da América Latina do julgo imperialista, a conquista do socialismo e a construção do homem e da mulher novos.
O sistema capitalista tem uma incrível capacidade de incorporar alguns elementos da cultura alternativa, até mesmo revolucionária, e transformá-los em objetos de mercado, formas sem conteúdo, neutras, inofensivas. É aquele negócio: "quem tem medo assimila toda forma de expressão como protesto". No entanto, a personalidade forte de Che não pode ser presa, capturada, na camisa de força do ícone, da marca, do mito.
Por isso, para compreender o verdadeiro Che, é preciso ir para além do ícone, além da marca, além do mito. Estes não têm sangue correndo nas veias, não são de carne e osso, não sentem fome ou frio. Eles não têm dúvidas ou medos, são fantasmas que não convivem com as malditas contradições cotidianas.
Ao contrário dos ícones, os homens e mulheres de verdade, inclusive os mais revolucionários deles, padecem de todas essas vicissitudes humanas e Che foi, acima de tudo, um homem. Um homem do seu tempo. "Um grande homem? Não. Consigo ver apenas o autor de seu próprio ideal."

25.11.09

A minha tv tá louca. - Parte II

A música de ontem retrata bem a minha opinião sobre o atual (atual?) estado da televisão brasileira. Talvez o problema na verdade, esteja em toda a televisão de canal aberto. É, a partir do momento em que o editor chefe do jornal mais assistido pela população brasileira - em suma 50 milhões assistem diariamente ao Jornal Nacional - afirma produzir suas pautas direcionadas ao Hommer Simpson - como William Bonner considera o homem brasileiro do século XXI -, imagine então o que pode-se esperar dos programas de domingo à tarde. De fato, o Hommer Simpson é bem equiparável ao cidadão brasileiro no que diz respeito à instrução e conhecimento; visão de mundo. E não é à toa que a Márcia Goldschmidt renova contrato todo ano. "Ora, quem fica em casa segunda à tarde assistindo tv?" O pior, é que nem se alguém quisesse. Os programas vespertinos são absolutamente intragáveis - não que os matutinos o sejam, enfim.
Para que público a televisão brasileira é direcionada? Crianças? Idosos? Classe baixa? Na verdade, até isso é um tanto paradoxal, um grande ciclo vicioso: esse público mais atrelado à tal meio de comunicação assiste aos programas ofertados pela falta de opção e tais programas continuam no ar pela sua audiência. De certo modo, querendo ou não, esses programas mostram o que "o povo gosta"; o que vende: polícia, casos familiares mais mal-resolvidos que os seus, e realitys shows com pessoas mais burras do que nós próprios. Abrindo um parêntese, vou relatar uma lembrança lastimável: Cida, de algum dos BBB's explicando à alguém sobre a Proclamação da República no 7 de setembro (isso mesmo que vocês leram), dizendo que a Princesa Isabel era a mulher do D. Pedro I, por isso assinou a Lei Áurea; aí outro vem e completa: logo após o Dia do Fico. (???????????????????????????????????) O pior é que o Big Brother, por exemplo, já faz parte da cultura popular do povo brasileiro, e eu conheço até gente que nem sai de casa em dia de paredão. Mas fica a pergunta: programas dessa espécie vão ao ar porque o povo gosta ou o povo gosta por que é a única coisa que passa?
Ana Maria Braga de manhã ensina à fazer comidinhas. Metendo Bronca ao meio-dia ensina a fazer barraco. Aí vem o programa da Sônia Abraão falando sobre o Big Brother (?), ou o da Márcia ensinando a falar mentira. A novela das 8 é um parágrafo à parte. Nasceu com o propósito do entretenimento. Mas sinceramente, tem como se entreter vendo sempre o José Mayer como galã e a Helena sempre com o final feliz? A cena repete. A cena não se inverte. Sempre a mesma história: só muda os personagens. Por isso continuo com a minha teoria de que a novela das 8 nasceu na verdade com outros propósitos específicos: além de alavancar sempre renovando o mercado da moda, fazer o Hommer Simpson (ou no caso, a Marge) dormir feliz após um longo dia de jornada dupla. E dá certo. A Rede Globo? Manipula o Brasil. E ainda que fosse só ela... dá certo. Afinal, o canal aberto em suma, está enraizado intrínsecamente ao seu um único propósito: alienar o país. E o pior? Dar certo.

24.11.09

A minha tv tá louca. - Parte I

A minha tv não se conteve
Atrevida passou a ter vida
Olhando pra mim.

Assistindo a todos os meus segredos,
minhas parcerias, dúvidas, medos.
Minha tv não obedece.

Não quer mais passar novela, sonha um dia em ser janela e não quer mais ficar no ar. Não quer papo com a antena nem saber se vale a pena ver de novo tudo que já vi.

Vi.

A minha TV não se esquece nem do preço nem da prece que faço pra mesma funcionar. Me disse que se rende a internet em suma não se submete a nada pra me informar.

Não quis mais saber de festa não pensou em ser honesta funcionando quando precisei. A notícia que esperava consegui na madrugada num site, flickr, blog, fotolog que acessei.

A minha TV tá louca, me mandou calar a boca e não tirar a bunda do sofá. Mas eu sou facinho de marré-de-sí, se a maré subir eu vou me levantar. Não quero saber se é a cabo nem se minha assinatura vai mudar tudo que aprendi, triste o fim do seriado, um bocado magoado sem saber o que será de mim.

Ela não SAP quem eu sou, ela não fala a minha língua...
(She doesn't speak my tongue)

Não.
"Pô tô cansado de toda essa merda que eles mostram na televisão todo dia mano, não aguento mais, é foda!"

Enquanto pessoas perguntam por que, outras pessoas perguntam por que não? Até porque não acredito no que é dito, no que é visto. Acesso é poder e o poder é a informação. Qualquer palavra satisfaz. A garota, o rapaz e a paz quem traz, tanto faz. O valor é temporário, o amor imaginário e a festa é um perjúrio. Um minuto de silêncio é um minuto reservado de murmúrio, de anestesia. O sistema é nervoso e te acalma com a programação do dia, com a narrativa. A vida ingrata de quem acha que é notícia, de quem acha que é momento, na tua tela querem ensinar a fazer comida uma nação que não tem ovo na panela, que não tem gesto, quem tem medo assimila toda forma de expressão como protesto.

Num passado remoto perdi meu controle...
Num passado remoto perdi meu controle...
Num passado remoto...

Era vida em preto e branco, quase nunca colorida reprisando coisas que não fiz, finalmente se acabando feito longa, feito curta que termina com final feliz..

Ela não SAP quem eu sou, ela não fala a minha língua.
Ela não SAP quem eu sou (sabe nada...), ela não fala a minha língua...

Eu não sei se pay-per-view ou se quem viu tudo fui eu.
A minha tv tá louca.
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[Xanéu nº 5 - Composição: Fernando Anitelli]

23.11.09

Eu sou igual à você, e daí?

Todo mundo acha que é diferente - bem, de fato, todo mundo é, eu mesma, nunca vi nenhum clone meu andando por aí. O único problema, é que essa busca decadente pela singularidade acaba levando todo mundo ao abismo da igualdade, da normalidade. É cool gostar de coisas que ninguém gosta, conhecer coisas que ninguém conhece. Se a sua banda preferida há anos for descoberta pela massa? A banda perde seu encanto. Puff. Por quê? A banda deixou de tocar música boa? Não, simplesmente "os novos fãs não sabem o que cantam". E como VOCÊ sabe disso? E isso não é só com música. Vejo acontecer frequentemente com filmes, livros, lugares... Dei ênfase em música porque é mais comum você ver alguém gritando "essa é MINHA música!!" - e de fato, nada impede que o seja, porém, nada também impede que o seja de outrem. Achar que é diferente só torna você igual à todos os outros. Diferente é ser normal.

18.11.09

Há mais ou menos um ano definia-se em um jogo político o nome do homem que iria ser a peça fundamental do jogo de xadrez planetário. Barack Obama ganhou esse jogo sob a bandeira da mudança. MUDANÇA. Em caps mesmo. Há poucas semanas da Conferência do Clima em Copenhague, o presidente dos Estados Unidos afirma: "Os países em crescimento também têm de pagar a conta". Ora, essa era a política do governo Bush, presidente!
Muito fácil falar que os países em crescimento têm de pagar a conta, já estão acostumados com isso, ? A exploração da América Latina no século XVI movimentou todo um comércio decante de especiarias. As riquezas da Coroa Espanhola se deveram às riquezas das ilhas da América Central. A partilha da África na Conferência de Berlim no final do século XIX foi a responsável pelo desenvolvimento da indústria em todo o continente Europeu. Partilha essa que abrigou tribos rivais em mesmos territórios, que não teve nenhum planejamento prático e que tinha como único objetivo moldar o mundo sob a ideologia capitalista de uma Europa que nunca teve nada para oferecer. E assim foi com os Estados Unidos: invadiram o Irã quando precisaram de petróleo, invadiram o Iraque para fundamentar uma guerra louca contra o terrorismo.
Agora vir falar em créditos de carbono? Muito fácil pedir para países emergentes a estagnação de seu processo desenvolvimentista depois de anos de exploração e sucumbência. No momento do início de seu lento progresso, falar: "Vamos ajudar o meio-ambiente!!". Um absurdo.
A política tem que vir primeiro dos grandes responsáveis por isso tudo. Não mandar-nos pagar uma dívida que não é nossa. Os países em desenvolvimento podem até ajudar, mas a obrigatoriedade é de vocês. Se propor a uma redução concreta de emissão de CO2 é o primeiro passo. O que já deveria ter sido feito há muito tempo. A Conferência de Copenhague vem aí. Será que George W. Bush ainda está no poder?

só o amor é luz


"E sentiu em relação à ela uma identidade tão grande, que logo do primeiro encontro, declarou: 'a partir de agora, eu tomo conta de você'."

9.11.09

Arquivos da repressão já!!!!

Estamos em 15 de abril de 1964 e um golpe de Estado do Exército brasileiro acaba de derrubar João Gourlat. O país é agora, governado pelos militares, e assim permaneceria por longos 21 anos. Já não se sabe mais em quem confiar. Os espiões do governo estão infiltrados nas salas de aula, nas reuniões dos sindicatos, em todos os negócios. Qualquer organização é duvidosa. Qualquer dúvida, uma tortura.
24 anos depois? Os arquivos da repressão ainda não foram revelados. Ora, a Central Globo de Produção é o 4º poder do país, revelá-los, seria escrachar a cumplicidade da família Marinho em esconder e promover as atrocidades cometidas. A Globo beneficiava-se dessa ditadura, como se beneficia até hoje de qualquer governo no poder. Porque são raríssimos os casos de conseguir vencer uma eleição sem o seu apoio, e ainda tá para existir na história desse país um candidato que chegue à presidência sem o apoio da burguesia brasileira.
Luís Inácio Lula da Silva tinha tudo para ser diferente, mas se vendeu. E como chegou onde está com o apoio de uma elite, não pode virar de costas para a mesma nesse momento. E assim, a história vai se repetir até o fim dos tempos. Revelar os arquivos da repressão seria revelar as mãos sujas de sangue da maior parte dos que têm imunidade parlamentar há algum tempo. Seria mexer com a alta classe burguesa, por revelar seus trâmites e culpabilidade na maior vergonha da nação. Eu disse maior vergonha? Menti. A maior vergonha é em 2009, os arquivos ainda não terem sido revelados - se é que um dia o serão. É os militares andarem anistiados e livres por aí, enquanto temos que engolir histórias de suicídios e desaparecimentos misteriosos.
Precisamos de mobilização. De guerrilhas do Araguaia. De memória. É disso o que o brasileiro mais precisa. Abrace esta campanha. É uma das minhas mais urgentes. Arquivos da repressão, mostrem-se à nação.
"A ditadura permanece, enquanto a verdade não aparece."

8.11.09

protestantismo liberal x catolicismo conservador

Primeiramente, gostaria de dedicar esse texto ao meu namorado, que me encheu a porra do saco para escrevê-lo. Te amo, námo!
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Pois bem, é 1929 e a bolsa de valores de Nova York quebra. Não só pela concessão de capitais especulativos desenfreados à uma classe média enriquecida pela guerra que assolou o Velho Mundo 12 anos antes; na verdade, os primeiros sinais de crise surgiram em meados dos anos 1920, quando a Europa, já recuperada da Primeira Guerra Mundial, diminuiu as importações de produtos agrícolas dos Estados Unidos. Isso levou muitos agricultores norte-americanos à falência. A indústria também foi atingida pela diminuição das importações, configurava-se assim, uma crise de superprodução.
Durante a guerra, a indústria bélica levantou o país, movimentou uma economia responsável por levar os Estados Unidos ao status de potência mundial. O american way of life era encarado por muitos como o que havia de mais moderno no mundo. Acontece que a economia norte-americana era apoiada sobre alicerces instáveis. E o mundo, ainda não estava pronto para as nuances de um capital especulativo global. Da especulação para a realidade, a utopia do liberalismo econômico finalmente quebrou.
Os protestantes, por sua vez, tiveram que fazer o Estado intervir fundo nessa economia. E essa intervenção veio, e o New Deal de Franklin Roosevelt deu bons resultados. Após a Grande Depressão, passaram-se anos até cair por completo a idéia do welfare state (estado de bem-estar social). Foi na década de 70, a partir da Revolução Técnico-Científica que se voltou a falar no liberalismo econômico. Sob a faceta do neoliberalismo.
A verdade é que os norte-americanos têm fama de serem liberais em tudo, estarem à frente do seu tempo, lutarem contra as guerras (como a do Vietnã e a do Iraque). Mas isso não passa de doce ilusão. O estadunidense adora uma guerra e só luta pelo seu fim, quando está perdendo, quando há grande mobilização midiática. E sinceramente, tem como ser diferente? Ora, a potência norte-americana se constituiu sobre o espectro de duas guerras mundiais; a ideologia democrático-capitalista se expandiu através da guerra fria.
O liberalismo é outra fachada. Liberais até a página dois. Quando isso não fere seus interesses. Cortar fundo os subsídios do etanol brasileiro parece ótimo. Ir de encontro aos acordos bilaterais do Mercosul também. Apóia de corpo e alma organizações como a OMC, mas na hora de suas reuniões levantar o dedinho e abaixar suas tarifas alfandegárias... onde fica o liberalismo dos protestantes?
O Brasil é um país conservador. Fato. Tem tradição católica e sonha com o dia de conquistar sua cadeira permanente na ONU. Não faz caso com a Bolívia na estatização de empresas brasileiras de gás natural só pra ter o apoio total da América do Sul na disputa. Os Estados Unidos, se dizem liberais. Liberais onde? Podem ter tido uma independência precoce, estar na frente do Brasil na abolição da escravatura, ter escolhido tornar-se um Estado democrático de Direito previamente. Têm um sistema eleitoral muito mais avançado que o nosso, e o PIB, nem se fala. Porém, desde quando desenvolvimento quer dizer liberalidade? Onde está toda essa liberalidade no que diz respeito à economia? Cadê o protestantismo liberal no respeito ao mundo islâmico?
Podemos ter inveja da historiografia norte-americana, sim. Ter inveja do que eles fizeram do que fizeram deles. Mas a cultuar um liberalismo que só existe na teoria e querer para si a responsabilidade de tornar o resto do mundo mero agente regulador de seus interesses, prefiro ainda, ficar com meu catolicismo conservador. Os Estados Unidos querem pré-definir o mundo por um padrão criado em Washington - não vejo nada de liberal nisso. Pelo menos, o conservadorismo brasileiro é mais honesto consigo mesmo: prega um culto a um país que ficará conservado no seu estado atual e permanente de "país emergente". E não, à Terra do Nunca.

5.11.09

Bem guardado nos diários de Andy Warhol

Numa das minhas intermináveis conversas sobre a vida, os amores, as dores, as alegrias e tudo mais com a Nayara, nós duas falamos sobre o "Respeite a natureza". Contextualizando tudo, passamos a adaptar isso à vida. O "Respeite a Natureza" é, sem duvida, o respeito ao ser humano, aos próprios sentimentos, dores, faltas, "tempos", esperas, acontecimentos. É um dos meus defeitos (será muito defeito?) ser imediatista. Querer que tudo aconteça. Mas não assim normalmente. "Eu quero tudo e quero agora". Às vezes isso angustia, mas te faz correr atrás das coisas. Quando essa angústia chega, o primeiro pensamento que tende a vir precisa ser o respeite a natureza. Das coisas, do tempo, do sofrimento, do corpo. Saber que não adianta pular etapas e nem se afogar dentro do mais obscuro que existe em ti. Respeitar o que é o ser humano enquanto dor e felicidade. Vida pra continuar e, às vezes, um nó na garganta pra carregar. Às vezes as pessoas deixam que os mesmos problemas as tornem infelizes por anos à fio, quando deveriam dizer apenas e daí? Essa é uma das minhas expressões favoritas; e daí? minha mãe não gostava de mim. E daí? Meu marido não faz amor comigo. E daí? Não sei como consegui sobreviver aqueles anos todos, antes de aprender esse truque. Custei muito a aprendê-lo - mas uma vez que a gente aprende, nunca mais esquece.

2.11.09

Perturbação dos sentidos

05:21. Acabei de terminar de ler o livro que me atormenta há duas semanas. História do olho. Sonhei com imagens do Pierre Molinier e André Kertész – de fato, Bataille está para além do Breton e da obviedade, como referência, de Cronenberg e Lynch; Bataille trouxe ligações imagéticas inesperadas e perturbadoras.
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Creio na poesia, no amor e na morte.
Escrevo um verso, escrevo o mundo; existo, existe o mundo.
Da ponta do meu dedo mínimo corre um rio. O céu é sete vezes azul.
Esta pureza é de novo a primeira verdade, a minha última vontade.
Risos.