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26.4.10

Saudade é um pouco como fome, só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Pequenas igrejas, grandes negócios.

O cristianismo é sem dúvida nenhuma, a religião mais influente no mundo em que vivemos, ou pelo menos, no mundo ocidental. Nosso calendário é cristão, a grande maioria de nossos feriados são devido a dias de santos, todo mundo comemora o Natal, todo mundo respeita a Páscoa. Muitas vezes, por mais que o caráter ideológico ou religioso do significado de cada tradição seja esquecido, ela é respeitada, e feita. Ainda que ninguém vá à missa todos os domingos, são poucos os que comem carne vermelha na sexta-feira santa, e ainda que ninguém mais se confesse, muita gente toma a hóstia pensando em beber o sangue e o corpo de Cristo.
Os católicos ortodoxos, se levarem ao pé da letra todos os ensinamentos do catolicismo, teriam uma vida cheia de privações. Cá entre nós, não é bem o que acontece. Além disso, eu realmente acho muito improvável que alguém acredite que amanhã pode ser o grande dia do Apocalipse, por exemplo. E é justamente essa falta de crédito ao caráter ideológico que talvez leve cada vez mais pessoas a buscarem outras religiões, outras igrejas.
Uma reciclagem dentro da própria Igreja Católica torna-se fundamental, tendo em vista a quantidade de adeptos que a mesma vem perdendo. Principalmente, para as igrejas pentecostais. Se o que o homem contemporâneo do século XXI gosta é de show, é de circo, as igrejas pentecostais dão de sobra. É só você ir num culto comprovar. Protestantes históricos? É claro que eles existem! Mas eu, pessoalmente, só conheço protestantes que se converteram por não terem no catolicismo apoio emocional suficiente. Por fraqueza ou não, homem e religião se confundem no próprio surgimento. O ser humano precisa de algo para se amparar, de na sua incapacidade de confiar em si mesmo, ter em que confiar. E religião, sempre trouxe esse amparo. Amparo e alienação. Tudo depende do que você acredita. O problema é quando esse amparo/alienação é utilizado para fins picaretescos. Pela má-fé.
Bem, a grande questão é que há muito tempo até a própria religião não fica imune à moneitarização contínua de tudo que nos cerca - na Idade Média, por exemplo, a Igreja já vendia lugares no paraíso -, e atualmente, através da ajuda moneitária à muitas dessas igrejas pentecostais, você pensa estar ajudando indiretamente a Deus; o que acaba levando muitas pessoas a venderem até suas calças para bancar as casas de praia dos pastores em Miami. Talvez isso também possa ser um dos grandes motivos de tanta intolerância religiosa por aí. Vende-se lugar no céu?

16.4.10

Luis Inácio Vargas da Silva?

Depois da alucinante aula de história do Brasil de ontem, não tem como não fazer um texto sobre o assunto. A conversa é a seguinte: populismo no Brasil. A analogia existente entre o governo Vargas e o governo Lula.
Ora, as semelhanças são notáveis. Pela própria maneira como Getúlio Vargas subiu ao poder, um dos maiores desafios de seu governo, seria a conciliação de todos os discrepantes interesses existentes entre as classes que o apoiaram. O de Lula também. E todos sabiam que isso não iria ser fácil.
No caso de Vargas, em primeiro lugar, ele teria que atender ao Exército, visto que, foi graças ao apoio dos tenentes e da Coluna Prestes (ainda com a isenção de seu líder), que a sua candidatura ganhou mobilização popular e que ele subiu ao poder. Ainda teria que atender as oligarquias dissidentes, defendida pelos próprios tenentes, sem deixar de lado o café - principal produto econômico do país que impulsionaria sua industrialização. E atendeu.
A crise da década de 20 é a crise da formação e reivindicação da classe operária, que ele conseguiu tornar um dos maiores trunfos de seu mandato. É a partir da formação do estado varguista, que o Estado passa a ter um papel conciliador entre o operariado e a burguesia. O Estado concedia benefícios ao primeiro, ao passo que controlava a sindicalização e os movimentos contra o segundo.
Getúlio herdou esse país em crise. E o que hoje se chama de crise dos anos 20 é também a crise da tentativa de movimentos liberais na área da saúde e educação que fracassaram. O que os escolanovistas, liderados por Anísio Teixeira nos legaram, foi precisamente a crença de que houve um momento na história política deste país em que projetos liberais reivindicaram seu espaço no conjunto da sociedade. Ao passo que, após a Revolução de 30, esses projetos perderam ainda mais sua força em detrimento do fortalecimento da própria União - que começou, inclusive, com a criação da Liga Pró-Saneamento e com movimentos educacionais reformistas conservadores. Ainda assim, é muito complicado se falar em um Brasil com um forte poder centralizador na República Velha. Isso é legado do governo Vargas. Assim como o surgimento do populismo no país.
Vargas conseguiu atender os interesses trabalhistas, industrializou o país, fez o Estado chegar aos sindicatos, fez importantes acordos comerciais e políticos, criou a Petrobrás, a Eletrobrás, não deixou de subsidiar ao café, deu importantes cargos aos tenentes (maior destaque para Juarez Távora que ocupou ministérios durante todos períodos de seu governo), fortaleceu as Forças Armadas, fortificou sua imagem. Se manteve no poder por 15 anos consecutivos. Trouxe um debate à tona: é possível fazer um regime populista sem se tornar autoritário?
Luís Inácio Lula da Silva mostrou que sim. Para quem achava que o tiro final do populismo no Brasil aconteceu em 1 de abril de 1964, dia em que o golpe militar derrubou João Gourlat, o governo Lula, querendo ou não, mostrou que teve jogo de cintura. Tudo bem, Lula teve a sorte de não herdar um país em crise. Teve sorte de herdar um país em que o plano Real já estivesse instituído para driblar a inflação e para que fizesse a economia prosperar. Mas conseguiu continuar o bom trabalho econômico do governo FHC. E como tudo é um processo contínuo, conseguiu fazer sua parte. E dizer que em termos gerais, seu governo não foi bom, é hipocrisia.
Lula está sendo indicado ao cargo de próximo secretário geral da Organização das Nações Unidas. Isso mesmo. Seu trabalho diplomático é reconhecido mundialmente. Políticas sansionistas ao Irã, pelo mesmo não ter assinado o tratado de não-proliferação de armas nucleares são a melhor opção para países que não têm capacidade de fazer acordos. Ou que querem impor suas vontades à custa de todas as outras - um aspecto muito curioso nesse caso é a seguinte: os Estados Unidos podem firmar acordo com a Rússia para a liberação de 15 toneladas de plutônio para fins pacíficos de proliferação de energia nuclear. Mas o Irã, não. É terrorismo. Os países membros-permanentes da ONU não precisam assinar o tratado. Mas todo o resto do planeta precisa. Será que alguém aqui tenta moldar o mundo de acordo com seus próprios interesses unilaterais?
"Curiosidades" à parte, nosso presidente Lula foi contra a proposta. E na minha opinião, fez certo. O ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, deu uma camisa oficial da seleção ao presidente iraniano. Tem melhor maneira de se resolver impasses políticos do que tentando firmar acordos conciliadores? Como diria Hegel, de toda tese e antítese, surge a síntese.
Mas como todo bônus, tem seu ônus, os pesares do governo também não foram fáceis. E ninguém disse que seria. Engolir a privatização do gás natural pelo governo boliviano (tudo pela política de boa vizinhança) já foi demais. Lula faltou com a reforma agrária, teve seu governo manchado pelo escândalo do mensalão e por corrupção. Por outro lado, Vargas também não estendeu os benefícios do proletariado aos trabalhadores rurais, seu governo foi autoritário e em até certo ponto repressor, o golpe que garantiu a criação do Estado Novo mostrou isso. Ainda assim, foi um dos mais importantes regimes para a história política do país.
Em 2002, a cena começou a se repetir. Lula, com seus programas de bolsa família, fome zero, aumento do salário mínimo, propostas de expansão do plano da previdência social, e até pelo culto à sua imagem, conseguiria facilmente se reeleger de novo. O problema é eleger uma pessoa sem uma trajetória política conhecida, por causa da trajetória de outra. Dilma lá?

7.4.10

Modernismo Revisitado

Procurando coisas inúteis na internet, às vezes acabo encontrando coisas bem interessantes...
É o caso do texto 'Modernismo Revisitado' de Eduardo Morais, sobre o Modernismo Brasileiro da década de 20. Para quem se interessa sobre o tema, vale à pena conferir. Me fez entender melhor o sentido de aparentes contradições no movimento. Como o fato, por exemplo, do modernismo brasileiro ser o único, que não rompia com a tradição, muito pelo contrário, a valorizava em sua produção artística, a tornando requisito básico para o ideário de nacionalidade, intrínseco à própria concepção do modernismo brasileiro, a partir da luta do Brasil para conquistar destaque no cenário modernista internacional.
Essas e outras questões estão explicitadas no texto, fundamental para uma melhor compreensão dos objetivos de uma determinada parcela da própria burguesia, assim como suas implicações para a realidade nacional do ínicio do século XX.
Segue abaixo, o link:

6.4.10

Andy Warhol, Mr. America.


Sinceramente, não acho que Andy Warhol seja o grande artista do século XX, mas há um tempo eu tava querendo ir em uma exposição de pop arte, e Warhol no domingo, através de seus trabalhos, fotos e frases me fez entender mais o porquê da arte no século XX ter se tornado algo definido também pelo seu valor monetário. Valeu à pena.
Americano até o osso, Andy Warhol é um artista de seu tempo, do tempo da Grande Depressão, do tempo da Guerra Fria, do tempo da ascensão de Hollywood. Uma vez lhe mandaram desenhar o que mais gostava no mundo. O que ele fez? Desenhou dinheiro.
Trabalhando com a serialidade que tanto amava na repetição de suas serigrafias, tentava provar o quanto uma imagem vista repetidas vezes perde sua força. Através disso, mostrava o quanto figuras públicas são impessoais e vazias.
Segundo ele, os Estados Unidos eram o primeiro país no mundo a fazer pessoas de diferentes classes sociais usufruirem dos mesmos produtos de consumo. A coca-cola por exemplo, era tomada tanto pelo mendigo, como pelo rico industrial. E era isso que ele via: a coca-cola, a lata de sopa Campbell. E foi extamente isso, com um sentido de mostrar seu poder subversivo à hierarquia de classes, que ele transformou em arte.

Quem tiver oportunidade, a exposição vai ficar até dia 23 de maio na Pinacoteca de São Paulo.


"A fonte dos problemas das pessoas são suas fantasias. Se você não tivesse fantasias você não terias problemas. Porque você aceitaria qualquer coisa que estivesse na sua frente. Mas aí você não teria romance, porque romance é encontrar sua fantasia em pessoas que não são sua fantasia. "

“Se você quer saber tudo sobre Andy Warhol, é só olhar para a superfície: das minhas pinturas, dos meus filmes e de mim, eu estou lá. Não há nada por trás disso.”