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16.4.10

Luis Inácio Vargas da Silva?

Depois da alucinante aula de história do Brasil de ontem, não tem como não fazer um texto sobre o assunto. A conversa é a seguinte: populismo no Brasil. A analogia existente entre o governo Vargas e o governo Lula.
Ora, as semelhanças são notáveis. Pela própria maneira como Getúlio Vargas subiu ao poder, um dos maiores desafios de seu governo, seria a conciliação de todos os discrepantes interesses existentes entre as classes que o apoiaram. O de Lula também. E todos sabiam que isso não iria ser fácil.
No caso de Vargas, em primeiro lugar, ele teria que atender ao Exército, visto que, foi graças ao apoio dos tenentes e da Coluna Prestes (ainda com a isenção de seu líder), que a sua candidatura ganhou mobilização popular e que ele subiu ao poder. Ainda teria que atender as oligarquias dissidentes, defendida pelos próprios tenentes, sem deixar de lado o café - principal produto econômico do país que impulsionaria sua industrialização. E atendeu.
A crise da década de 20 é a crise da formação e reivindicação da classe operária, que ele conseguiu tornar um dos maiores trunfos de seu mandato. É a partir da formação do estado varguista, que o Estado passa a ter um papel conciliador entre o operariado e a burguesia. O Estado concedia benefícios ao primeiro, ao passo que controlava a sindicalização e os movimentos contra o segundo.
Getúlio herdou esse país em crise. E o que hoje se chama de crise dos anos 20 é também a crise da tentativa de movimentos liberais na área da saúde e educação que fracassaram. O que os escolanovistas, liderados por Anísio Teixeira nos legaram, foi precisamente a crença de que houve um momento na história política deste país em que projetos liberais reivindicaram seu espaço no conjunto da sociedade. Ao passo que, após a Revolução de 30, esses projetos perderam ainda mais sua força em detrimento do fortalecimento da própria União - que começou, inclusive, com a criação da Liga Pró-Saneamento e com movimentos educacionais reformistas conservadores. Ainda assim, é muito complicado se falar em um Brasil com um forte poder centralizador na República Velha. Isso é legado do governo Vargas. Assim como o surgimento do populismo no país.
Vargas conseguiu atender os interesses trabalhistas, industrializou o país, fez o Estado chegar aos sindicatos, fez importantes acordos comerciais e políticos, criou a Petrobrás, a Eletrobrás, não deixou de subsidiar ao café, deu importantes cargos aos tenentes (maior destaque para Juarez Távora que ocupou ministérios durante todos períodos de seu governo), fortaleceu as Forças Armadas, fortificou sua imagem. Se manteve no poder por 15 anos consecutivos. Trouxe um debate à tona: é possível fazer um regime populista sem se tornar autoritário?
Luís Inácio Lula da Silva mostrou que sim. Para quem achava que o tiro final do populismo no Brasil aconteceu em 1 de abril de 1964, dia em que o golpe militar derrubou João Gourlat, o governo Lula, querendo ou não, mostrou que teve jogo de cintura. Tudo bem, Lula teve a sorte de não herdar um país em crise. Teve sorte de herdar um país em que o plano Real já estivesse instituído para driblar a inflação e para que fizesse a economia prosperar. Mas conseguiu continuar o bom trabalho econômico do governo FHC. E como tudo é um processo contínuo, conseguiu fazer sua parte. E dizer que em termos gerais, seu governo não foi bom, é hipocrisia.
Lula está sendo indicado ao cargo de próximo secretário geral da Organização das Nações Unidas. Isso mesmo. Seu trabalho diplomático é reconhecido mundialmente. Políticas sansionistas ao Irã, pelo mesmo não ter assinado o tratado de não-proliferação de armas nucleares são a melhor opção para países que não têm capacidade de fazer acordos. Ou que querem impor suas vontades à custa de todas as outras - um aspecto muito curioso nesse caso é a seguinte: os Estados Unidos podem firmar acordo com a Rússia para a liberação de 15 toneladas de plutônio para fins pacíficos de proliferação de energia nuclear. Mas o Irã, não. É terrorismo. Os países membros-permanentes da ONU não precisam assinar o tratado. Mas todo o resto do planeta precisa. Será que alguém aqui tenta moldar o mundo de acordo com seus próprios interesses unilaterais?
"Curiosidades" à parte, nosso presidente Lula foi contra a proposta. E na minha opinião, fez certo. O ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, deu uma camisa oficial da seleção ao presidente iraniano. Tem melhor maneira de se resolver impasses políticos do que tentando firmar acordos conciliadores? Como diria Hegel, de toda tese e antítese, surge a síntese.
Mas como todo bônus, tem seu ônus, os pesares do governo também não foram fáceis. E ninguém disse que seria. Engolir a privatização do gás natural pelo governo boliviano (tudo pela política de boa vizinhança) já foi demais. Lula faltou com a reforma agrária, teve seu governo manchado pelo escândalo do mensalão e por corrupção. Por outro lado, Vargas também não estendeu os benefícios do proletariado aos trabalhadores rurais, seu governo foi autoritário e em até certo ponto repressor, o golpe que garantiu a criação do Estado Novo mostrou isso. Ainda assim, foi um dos mais importantes regimes para a história política do país.
Em 2002, a cena começou a se repetir. Lula, com seus programas de bolsa família, fome zero, aumento do salário mínimo, propostas de expansão do plano da previdência social, e até pelo culto à sua imagem, conseguiria facilmente se reeleger de novo. O problema é eleger uma pessoa sem uma trajetória política conhecida, por causa da trajetória de outra. Dilma lá?

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