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22.7.10

Ou pensa, ou vive.


Morri! Morri e não me avisaram! Morri e não me enterraram! Que diabos aconteceu comigo? Esse lugar escuro, essa parede sem muro. Eu morri!

Eu não quero ouvir, pois eles ainda falam comigo a mesma porcaria de sempre. Mas por que razão insistem em falar se já não respiro? E como penso nessas frases se já não existo?


Existir é pensar ou pensar é existir?

Nem um, nem outro.


Se você morre, você não pensa. Se você pensa, não vive.

20.7.10

Após muitas tentativas frustradas, notei a impotência do ser humano em se tratando de definições. Há muito busco em palavras descrever os mais diversos sentimentos, as mais ousadas sensações. Talvez a vontade de entender tais aspirações, me faz querer transcrever para o papel tudo aquilo que me empolga, o que me dói, o que me excita ou o que me anula.
Sentir-me viva é o que busco ao deslizar por dentre essas linhas. Nem sempre consigo, porém são nessas frustrações que encontro respostas. Respostas para perguntas que já não faço. Soluções para os problemas dos quais eu fujo.
Se a vida é feita de cuidados, não hesito ao me atirar nesse mar de tentativas. "Definir-se é limitar-se”, logo, desisto de fugir diante as rédeas da definição do sentir e apenas sou-me. Sem mais, nem menos. Tentando somente encontrar-me nesse infinito embaraço.
Se me ouço, hesito. Se hesito, não me reconheço. Vivo de contratempos, de entrelinhas, de impulsões. Alimento-me com palavras, com o frio e com anseios. Sinto nostalgia de uma ausência desconhecida – que sempre se faz presente- e também da presença daquilo que jamais vivi. Fruto do que me espera. Do que um dia eu queria ter sido, mas não fui. Fruto de um futuro que foge às regras e não espera o amanhã.

13.7.10

E onde fica a história do "pra frente Brasil" agora?

Se o assunto é Copa, então vamos falar de Copa. Outro dia, andando pelo MASP, vi um panfleto mais ou menos com esses dizeres: "Copa do Mundo: Aumento da rivalidade entre os povos, simples meio de expansão do consumismo pela promoção assustadora das marcas, alienação nacional, patriotismo transitório. O Brasil vai ser hexacampeão, e o que você vai ganhar com isso?" Sabe, na mesma hora me deu vontade de escrever sobre minha opinião a respeito. Em primeiro lugar, o que a Copa do Mundo definitivamente não trás, é o aumento da rivalidade entre os povos. Muito pelo contrário. Tráz integração, promove união, agrega culturas. Imagine só, é o único evento (sem considerar as Olimpíadas que é em escala bem menor) que reúne gente de todos os cantos do globo em um só território, falando a mesma língua (esse ano, a das vuvuzelas), com um mesmo objetivo: torcer. E quando sua seleção perde, a maioria das pessoas acaba torcendo para outras, aumentando ainda mais a integração, o sentimento de afeição entre as nações. Por exemplo, quem não torceu pra Gana depois que o Brasil saiu da Copa? Quem não queria tá lá na África nesse fervilhão cultural que aconteceu nesses últimos dias??

Em segundo lugar, promoção do consumismo, é óbvio. As multinacionais não perdem uma e não era logo essa que iam perder. Mas quanto a isso, não vejo também maiores problemas: esse é o nosso mundo capitalista. O duro é ter que concordar com as duas últimas acusações do panfleto. 1. Alienação nacional - fato. Sinceramente, não entendo porque as pessoas dão tanto valor à Copa aqui no Brasil. Só por que somos bons no futebol? E no que não somos? Olha, isso pode até ser positivo por um lado, mas por outro, tráz alienação a todos os outros problemas do país. Por exemplo, por que será que as eleições presidenciais são sempre em ano de Copa? Coincidência? Com certeza não. É que as pessoas ficam tão preocupadas com a Copa do Mundo que esquecem que esse ano tem eleição. Ficam tão preocupadas que esquecem de todo o resto que se passa no Brasil. Aliás, as pessoas sempre se esquecem, mas essa época parece que piora. Acho que eu percebo isso em parte por ficar indignada ao ver como o brasileiro consegue ser tão entusiasmado pra uma coisa, sendo tão apático para todas as outras. É aí que a gente entra no último ponto: patriotismo transitório, o tal patriotismo de fachada.

É impressionante. Chega em Copa do Mundo, todo mundo compra roupa verde e amarelo, hasteia bandeira nas suas casas, pinta a rua, sai gritando pra todos os cantos que é brasileiro com muito orgulho e com muito amor. É engraçado ver como um povo completamente apático, que teve todos seus direitos concedidos e não conquistados, que não respeita suas instituições, que usa o tipo de cidadania relacional, e que em 510 anos de história nunca conseguiu nada sem a ajuda da elite, consegue se mobilizar tanto por uma coisa. Consegue respeitar tanto alguma coisa. Pessoas que não querem nem ouvir falar dos problemas do país, que não tem nem consciência da sua história, colocam um verde e amarelo e pronto. Sentem orgulho de ser brasileiro. Sinceramente, acho até bom que o Brasil perca pra que as pessoas vejam que futebol não é tudo. Eu fico muito mais indignada ao ver que o Brasil só perde pra Guatemala e Suazilândia em termos de distribuição de renda, do que ver ele perdendo pra Holanda em umas quartas-de-final. E as pessoas que morrem de fome todos os dias?

Sabe, a pequena diferença, a sutil diferença, é que eu não estou dizendo pra gente não torcer, até porque isso é só um jogo. É uma diversão. Eu estou apenas fazendo uma crítica ao modo como o brasileiro consegue ser tão apático pra algumas coisas e tão mobilizador pra outras, por isso às vezes assumo esse tom sensacionalista. Por que não esse entusiasmo todo também pra tentar ajudar a reverter a situação do país? Recebi várias críticas esse último mês de gente dizendo que parece até que eu não estava torcendo. Não é que não estivesse, é que o meu patriotismo é muito mais que isso. Patriotismo pra mim, não é vestir verde e amarelo dia de jogo do Brasil, você pode até fazer isso, contanto que você seja verde e amarelo, por dentro. É aí que tá a diferença! Patriotismo pra mim é se preocupar com os problemas do país, tentar ajudar a melhorar as condições de vida por aqui. As pessoas vão votar pra presidente sem nem saber as propostas de reforma tributária, por exemplo, dos dois candidatos! Mas do jogo do Brasil, todo mundo sabe. Torcer? Sempre. Mas não só isso.

Um exemplo bem típico do que acontece: ao final do jogo Brasil x Holanda, vejo várias pessoas falando na rua coisas do tipo "Eu não sou Brasil, eu sou Flamengo mesmo!", ou, "Ainda bem que eu sou Holanda!!". De brincadeira ou não, isso ilustra bem o que Nelson Rodrigues veio a chamar de "Pátria de chuteiras", e com o que quis dizer em grande parte do meu texto. Por fim, se o Brasil tivesse ganhado a Copa, de fato, o que isso mudaria na sua vida? O que mudaria na vida dos 190 milhões de brasileiros? Tirando os jogadores que iam ganhar 600 mil reais cada um, o povo brasileiro continuaria do mesmo jeito: apático e marjoritariamente, pobre. É aí que eu pergunto: a Copa acabou, mas e o patriotismo, também?

3.7.10

redistribuição x reconhecimento

A idéia pra esse texto surgiu de um artigo, um dos milhares que li nesses últimos meses, mas que apresentava uma visão muito inovadora e coberta por uma teia de significados muito pertinentes, nunca analisados por mim até então, sobre um tema do cotidiano: a concessão de direitos diferenciados para determinadas classes de pessoas, algumas vezes tentando reverter diferenças históricas, outras, procurando buscar uma igualdade, através de medidas desiguais. São essas políticas, a existência de cotas para negros em universidades, leis como a Maria da Penha, concessões de bem-estar social.
A conversa é mais ou menos a seguinte: segundo a autora Nancy Fraser, existem dois tipos de injustiças na era pós-socialista. São elas, as injustiças econômicas e as injustiças culturais. As primeiras, requerem remédios transformativos, as segundas, afirmativos. Explico. O remédio para injustiça econômica é reestruturação político-econômica de algum tipo. Isso poderia envolver redistribuição de renda, reorganização da divisão do trabalho, sujeitar investimentos à tomada de decisão democrática ou transformar outras estruturas econômicas básicas. Já o remédio para injustiça cultural, em contraste, é algum tipo de mudança cultural ou smbólica. Isso poderia envolver reavaliação positiva de identidades desrespeitadas e dos produtos culturais de grupos marginalizados.
O primeiro tipo de injustiça, requer redistribuição, o segundo, reconhecimento. Até aí tudo muito bem, o problema se torna, quando os grupos são ambivalentes. É o caso de injustiças referentes a gênero e raça. Gênero é um modo ambivalente de coletividade por conter uma face político-econômica que o traz para o âmbito da redistribuição. Mas também contém uma face cultural-valorativa que o traz simultaneamente para o âmbito do reconhecimento. Claro que as duas faces não estão claramente separadas uma da outra. Ao contrário, elas se entrelaçam para se reforçarem mutuamente de forma dialética, já que normas androcêntricas e sexistas são institucionalizadas no Estado e na economia, fazendo com que as mulheres lutem pela transformação dessas normas, reconstruindo-as, redistribuindo de uma maneira em que provem não haver diferença entre sexos. E a desvantagem econômica das mulheres restrige sua voz, impedindo a participação igual na fabricação da cultura, em esferas públicas e na vida cotidiana, o que faz esse mesmo movimento precisar de políticas de reconhecimento para se autoafirmar. A questão é que essas duas políticas vão em direções opostas. Enquanto uma destrói uma diferença, a outra constrói através da autoafirmação. O que fazer então?
É aí que está a chave da questão. Os remédios de reconhecimento afirmativos tendem a promover diferenciações entre os grupos existentes. Já os remédios de reconhecimento transformativos tendem, no longo prazo, a desestabilizar as diferenciações para permitir agrupamentos futuros. Remédios afirmativos para a questão racial têm sido historicamente associados ao Estado de Bem-Estar liberal. No caso tenta-se superar a má-distribuição de recursos feita pelo Estado, enquanto deixa-se intacta a estrutura político-econômica subjacente, com é o caso da política das cotas. Ao deixar intactas as estruturas profundas que geram a desvantagem racial, o Estado deve fazer realocações contínuas. O resultado não é apenas sublinhar a diferenciação de raça, mas também marcar as pessoas de cor como deficientes e insaciáveis.
O que, então, pode-se concluir desta discussão? Tanto para gênero como para "raça" e para todas as categorias igualmente ambivalentes, o cenário que mais escapa do dilema de redistribuição/reconhecimento é o socialismo na economia e a desconstrução na cultura. Mas para ser psicológica e politicamente viável, este cenário requer que todas as pessoas sejam removidas de seus compromissos com as construções culturais correntes de seus interesses e identidades. Aqui, não se fala em multiculturalismo, multietinicidade... se fala em UMA só cultura, onde a individualidade seria respeitada acima de qualquer estereótipo de "gay", "negro, "mulher". Para isso, esses movimentos de afirmação e leis protecionistas que eclodem a toda hora, deveriam primeiro, se extinguir, justamente por representarem questões imediatas, que a longo prazo podem estar acentuando ainda mais essa diferenciação, os tornando como insaciáveis. Para Nancy Fraser, seira preciso desconstuir a diferenciação por gênero, por cor... e não, afirmá-la.
Minha profunda opinião a respeito, é que tudo isso seria muito bonito se não fosse também, extremamente utópico. Uma coisa, são os judeus, favorecidos economicamente, desconstruírem a idéia de anti-semistismo espalhada pelo mundo na Segunda Guerra. Outra, são os negros, escravizados desde muito tempo, desfavorecidos historicamente falando. Pior ainda, as mulheres, submissas desde as sociedades cuneiformes, que sempre dependeram do homem para viver. Que poder esses grupos têm para resolver essas injustiças, se não através de políticas de reconhecimento, autoafirmação perante à sociedade? E cá entre nós, se a gente pode falar em desconstrução hoje, é porque muito já se vez através de políticas de reconhecimento. Não é o melhor caminho, mas já é algum. Agora, temos de convir: se os movimentos se preocupassem mais em desconstruir do que se autoafirmar, o caminho ao impossível não estaria tão distante assim.