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13.7.10

E onde fica a história do "pra frente Brasil" agora?

Se o assunto é Copa, então vamos falar de Copa. Outro dia, andando pelo MASP, vi um panfleto mais ou menos com esses dizeres: "Copa do Mundo: Aumento da rivalidade entre os povos, simples meio de expansão do consumismo pela promoção assustadora das marcas, alienação nacional, patriotismo transitório. O Brasil vai ser hexacampeão, e o que você vai ganhar com isso?" Sabe, na mesma hora me deu vontade de escrever sobre minha opinião a respeito. Em primeiro lugar, o que a Copa do Mundo definitivamente não trás, é o aumento da rivalidade entre os povos. Muito pelo contrário. Tráz integração, promove união, agrega culturas. Imagine só, é o único evento (sem considerar as Olimpíadas que é em escala bem menor) que reúne gente de todos os cantos do globo em um só território, falando a mesma língua (esse ano, a das vuvuzelas), com um mesmo objetivo: torcer. E quando sua seleção perde, a maioria das pessoas acaba torcendo para outras, aumentando ainda mais a integração, o sentimento de afeição entre as nações. Por exemplo, quem não torceu pra Gana depois que o Brasil saiu da Copa? Quem não queria tá lá na África nesse fervilhão cultural que aconteceu nesses últimos dias??

Em segundo lugar, promoção do consumismo, é óbvio. As multinacionais não perdem uma e não era logo essa que iam perder. Mas quanto a isso, não vejo também maiores problemas: esse é o nosso mundo capitalista. O duro é ter que concordar com as duas últimas acusações do panfleto. 1. Alienação nacional - fato. Sinceramente, não entendo porque as pessoas dão tanto valor à Copa aqui no Brasil. Só por que somos bons no futebol? E no que não somos? Olha, isso pode até ser positivo por um lado, mas por outro, tráz alienação a todos os outros problemas do país. Por exemplo, por que será que as eleições presidenciais são sempre em ano de Copa? Coincidência? Com certeza não. É que as pessoas ficam tão preocupadas com a Copa do Mundo que esquecem que esse ano tem eleição. Ficam tão preocupadas que esquecem de todo o resto que se passa no Brasil. Aliás, as pessoas sempre se esquecem, mas essa época parece que piora. Acho que eu percebo isso em parte por ficar indignada ao ver como o brasileiro consegue ser tão entusiasmado pra uma coisa, sendo tão apático para todas as outras. É aí que a gente entra no último ponto: patriotismo transitório, o tal patriotismo de fachada.

É impressionante. Chega em Copa do Mundo, todo mundo compra roupa verde e amarelo, hasteia bandeira nas suas casas, pinta a rua, sai gritando pra todos os cantos que é brasileiro com muito orgulho e com muito amor. É engraçado ver como um povo completamente apático, que teve todos seus direitos concedidos e não conquistados, que não respeita suas instituições, que usa o tipo de cidadania relacional, e que em 510 anos de história nunca conseguiu nada sem a ajuda da elite, consegue se mobilizar tanto por uma coisa. Consegue respeitar tanto alguma coisa. Pessoas que não querem nem ouvir falar dos problemas do país, que não tem nem consciência da sua história, colocam um verde e amarelo e pronto. Sentem orgulho de ser brasileiro. Sinceramente, acho até bom que o Brasil perca pra que as pessoas vejam que futebol não é tudo. Eu fico muito mais indignada ao ver que o Brasil só perde pra Guatemala e Suazilândia em termos de distribuição de renda, do que ver ele perdendo pra Holanda em umas quartas-de-final. E as pessoas que morrem de fome todos os dias?

Sabe, a pequena diferença, a sutil diferença, é que eu não estou dizendo pra gente não torcer, até porque isso é só um jogo. É uma diversão. Eu estou apenas fazendo uma crítica ao modo como o brasileiro consegue ser tão apático pra algumas coisas e tão mobilizador pra outras, por isso às vezes assumo esse tom sensacionalista. Por que não esse entusiasmo todo também pra tentar ajudar a reverter a situação do país? Recebi várias críticas esse último mês de gente dizendo que parece até que eu não estava torcendo. Não é que não estivesse, é que o meu patriotismo é muito mais que isso. Patriotismo pra mim, não é vestir verde e amarelo dia de jogo do Brasil, você pode até fazer isso, contanto que você seja verde e amarelo, por dentro. É aí que tá a diferença! Patriotismo pra mim é se preocupar com os problemas do país, tentar ajudar a melhorar as condições de vida por aqui. As pessoas vão votar pra presidente sem nem saber as propostas de reforma tributária, por exemplo, dos dois candidatos! Mas do jogo do Brasil, todo mundo sabe. Torcer? Sempre. Mas não só isso.

Um exemplo bem típico do que acontece: ao final do jogo Brasil x Holanda, vejo várias pessoas falando na rua coisas do tipo "Eu não sou Brasil, eu sou Flamengo mesmo!", ou, "Ainda bem que eu sou Holanda!!". De brincadeira ou não, isso ilustra bem o que Nelson Rodrigues veio a chamar de "Pátria de chuteiras", e com o que quis dizer em grande parte do meu texto. Por fim, se o Brasil tivesse ganhado a Copa, de fato, o que isso mudaria na sua vida? O que mudaria na vida dos 190 milhões de brasileiros? Tirando os jogadores que iam ganhar 600 mil reais cada um, o povo brasileiro continuaria do mesmo jeito: apático e marjoritariamente, pobre. É aí que eu pergunto: a Copa acabou, mas e o patriotismo, também?

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