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27.10.10

Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma.

25.10.10

O mito da "necessidade histórica"

O ser humano, dentro dos limites da sua liberdade, variáveis em lugares e contextos, tem certo livre-arbítrio para tomar as decisões que permearão sua vida - ou tem, em tese, racionalidade para tal. Isso coloca as decisões humanas no foco da narrativa histórica, pois, se o ser humano é formado também pelas suas atitudes, pela maneira como se comporta frente à necessidade de agir, e a história é contada com base no homem, ela também pode ser contada com base nas suas escolhas, nas suas decisões em momentos cruciais, como bem afirma a teoria a qual diz que a história na verdade são picos de acontecimentos relevantes.
Quando a religião anglicana foi fundada na Inglaterra e os puritanos começaram a ser perseguidos, eles podiam ficar e lutar para tentar fazer uma Revolução, podiam se converter ou podiam fugir. Dizer que o povoamento das 13 colônias da América pelos puritanos foi uma necessidade histórica, é desresponsabilizá-los pela escolha que tomaram.
Esse discurso tira a responsabilidade do homem e a coloca no motor invisível da história. Mas, quem faz a história senão o homem? Dizer que os acontecimentos levaram a Santa Inquisição a torturar e matar, considerando a menor manifestação científica, por exemplo, como heresia, é tirar o mérito (ou o desmérito) dos que fizeram esta escolha. Claro, nada pode surgir do nada, as decisões foram sim baseadas nos antecedentes históricos e no que eles pensavam sobre o futuro, mas existem inúmeras maneiras diferentes de reação, justamente pela única peculiaridade do gênero 'Homo sapiens' ser a sua capacidade de se diferenciar, e eles escolheram agir assim. As pessoas não necessariamente têm de fazer determinadas escolhas, ainda que as circunstâncias as tornem mais atrativas sempre existem outras. Sempre existe mais de dois lados da mesma moeda. Não é porque a história foi assim que ela necessariamente teria de ser assim.
Se estamos onde estamos hoje, é sem nenhuma dúvida também pelas escolhas do passado e, portanto, se algo tivesse sido milimetricamente acontecido de maneira diferente, as consequências também o teriam sido, onde talvez nem pudéssemos reconhecer semelhanças com o nosso mundo tal como é hoje. Mas, e daí? Se as outras escolhas nos levariam à outros caminhos, quem pode garantir que eles não seriam melhores? Sinceramente, dizer que as circunstâncias obrigaram o Stálin ou o Franco a perseguir tão ferronheamente seus opositores, ou, como inclusive o Jarbas Passarinho já afirmou, que os militares no Brasil torturaram por uma "necessidade histórica" é legitimar crimes que não necessariamente tinham que ter acontecido - e legitimar práticas semelhantes no presente, para que possam ser justificadas no futuro. É isso que queremos?

24.10.10

Mikhail Baryshnikov volta aos palcos cariocas




O maior bailarino vivo da dança mundial - ainda que ele relute em assumir essa definição -, aos 62 anos, sobe ao palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro nos dias 29 e 30 de outubro ao lado da bailarina espanhola Ana Laguna (54), para apresentar seu mais novo espetáculo de balé contemporâneo "Três solos e um dueto".

Em Três solos e um dueto, Mikhail Baryshnikov e Ana Laguna brilham em um programa de quatro peças. O primeiro é Valse-Fantasie, com coreografia do russo Alexei Ratmansky, no qual Baryshnikov dança o tema do compositor Mikhail Glinka (1804-1857), considerado o pai da música erudita russa. A seguir Ana Laguna dança uma versão de Solo for Two, criada especialmente para ela pelo coreógrafo sueco Mats Ek. O terceiro segmento trás uma nova versão do incensado número Years Later, em que Baryshnikov dança à frente de imagens de si mesmo jovem, em coreografias do francês Benjamin Millepied, o principal nome do New York City Ballet. No encerramento, os dois artistas voltam juntos ao palco em Place, peça de 22 minutos coreografada por Mats Ek, na qual Baryshnikov e Ana Laguna interagem com uma mesa e um tapete, trazendo elementos cenográficos ao centro da narrativa.

Os ingressos variam de 40 à 260 reais e estão à venda na bilheteria e no site da Ticketronic. E oportunidade para ver o primeiro bailarino do Kirov, American Ballet Theatre e New York City Ballet, em uma única pessoa, em duas únicas apresentações no Rio, estão em extinção - por isso, até lá.

21.10.10

Aquarela do Brasil

Ainda sob o mesmo teto de outubro - política -, hoje, corrupção e diplomacia são o foco.

Continuando a linha de raciocínio do texto anterior, sinceramente, não vejo outra forma de melhoria da situação de barganha que impera dentro de nossos órgãos públicos se essa mudança não começar por nós. Eu não entendo (ou melhor, até entendo, mas não deixo de considerar hipócrita) esse discurso de "abaixo os políticos corruptos", se a própria corrupção está tão enraizada no nosso dia-a-dia. Como eu falei no último texto, os caras que sentam nas cadeiras do poder Legislativo são a nossa representatividade, e representam nada mais, senão, do que nós mesmos. Se nós - falo nós no sentido abrangente do brasileiro, que se autodetermina como praticante do famoso "jeitinho" - subornamos nossos policiais, compramos nossas carteiras de motoristas, pagamos para alguém ficar no nosso lugar na fila -ou seja, se nós somos subornadores, corruptos e corruptíveis no nosso cotidiano -, como pessoas em que votamos não iriam ser? Aquelas pessoas são retratos fiéis de nossas práticas, de nossas crenças, de nossas aspirações. É por esse "jeitinho brasileiro" estar tão enraizado na cultura que o nosso Senado é tão podre, que figuras como José Sarney permeiam o poder desde o início do período democrático. Mudanças? Comece primeiro por você. É preciso abolir primeiro a corrupção da sua vida, para querer abolí-la da vida política.

Acho que é consenso que a corrupção manchou o governo Lula, por melhor que ele possa ter sido. Mas não só a corrupção foi holofote constante do governo como, ainda mais, a política de boa-vizinhança de nosso Presidente. O ponto que quero trazer é que em primeiro lugar, existe uma aspiração à uma tão sonhada cadeira permanente na Organização das Nações Unidas, e em segundo, existe tudo que o Lula em nome dessa cadeira, fez de 2002 pra cá.

Estatização do gás natural brasileiro pela Bolívia em 2008. O que o Presidente fez? Nada - ele precisava do apoio de toda a América do Sul para conseguir a cadeira da ONU. Os Estados Unidos invadem o Haiti em "missão humanitária" - assim como o era no Iraque. O que o Lula faz? Manda soldados brasileiros espalharem a guerra e tornarem ainda mais escassos os alimentos e os recursos naquele país. Aumentam o caos. Os relatos e as estatísticas são péssimos. Até acusados de abusos sexuais já foram. Lula comete no Haiti um de seus piores crimes. O Brasil revela o papel de sub-metrópole que cumpre no continente, de um país explorado que ajuda a explorar a situação de outro ainda pior. Por que as tropas ainda não bateram em retirada? Pelo mesmo motivo que os soldados americanos ainda povoam o Iraque: tudo a serviço do imperialismo ianque. E da tal cadeira redentora da ONU.

Nos últimos meses surgiu o espetáculo que foi as tentativas de pactos com o Irã pelo Presidente. Deixando de lado um discurso de não-desenvolvimento de armas nucleares por determinados países, em detrimento de outros que tudo podem e tudo devem, ninguém deveria concordar em uma sanção hipócrita ao Irã pelo país que mais produz armas nucleares do mundo. Mas à parte disso, e tentando pensar por um outro lado, indo agora de acordo com a opinião de Plinio de Arruda (assumidamente o candidato que obteve meu voto no 1º turno dessas eleições), o que foi fazer o nosso Presidente, senão, ir ao Irã por causa do imperialismo norte-americano tentar selar uma paz e provar para os nossos "amigos" ianques que a nossa diplomacia é forte e que justamente por isso merecemos a cadeira da ONU? O único problema foi o fracasso da missão, que além de ter diminuído a popularidade do Lula no cenário nacional e internacional, de nada adiantou. Ahmadinejad sofreu a sanção prevista. E o que ele fez? Continuou a produzir ainda mais energia nuclear. E sabe de uma coisa? Tinha mais é que ter feito.
Em suma, o que quero deixar no ar ao final de meu texto é: o que ainda falta fazer para nos tornamos membros-permanentes da ONU? E até que ponto vale à pena o fazê-lo? Que interesses países como Estados Unidos, China, Rússia, França e Inglaterra têm em nos tornar? Será que essa cadeira não passa de uma construção imaginária muito cara para um país que já tem tantos problemas internos - e tanta corrupção - como o nosso?
Tudo nos leva a crer que sim.

20.10.10

Foucault

"De fato há duas espécies de utopia: as utopias proletárias socialistas que têm a propriedade de nunca se realizarem, e as utopias capitalistas que têm a má tendência de se realizarem frequentemente."

19.10.10

A ditadura da maioria

Tenho tanta coisa pra falar que não sei nem por onde começo. Todo mundo que lê isso aqui sabe do meu interesse por política, e período de eleição, é prato cheio pros aspirantes à jornalistas políticos de plantão como eu. Vou escolher então, começar meu texto dessa madrugada falando sobre o que mais me incomoda nas nossas eleições ditas democráticas: a influência dos meios de comunicação de massa sobre as mesmas.
Foi um verdadeiro absurdo essa distribuição do tempo da propaganda eleitoral no 1º turno. 8 minutos pra candidata do PV ficar mostrando golfinhos e baleias na televisão, enquanto partidos como PSOL, PSTU e PSDC se comprimiam pra falar de suas propostas em menos de 2 minutos. Que democracia é essa? Como um candidato pode chegar ao poder de fato com essa distribuição, tendo que falar todo o seu projeto de governo em alguns segundos? Desde quando intenção de voto e representação parlamentar devem dar os ditames da democracia?
O mesmo aconteceu nos debates. Eram 9 candidatos. Alguém aí sabe o nome de mais de 5? Na entrevista do Jornal Nacional, por exemplo, o tempo dos candidatos era de acordo com a intenção de voto. Repito: que democracia é essa? Se o acesso aos meios de comunicação não é igualitário, como a escolha pode ser? É um ciclo vicioso, os candidatos que começam com baixa popularidade parecem nunca poder reverter essa situação. E por causa de quem? Em grande parte, por causa da mídia, que teoricamente, deveria ser imparcial. Agora no 2º turno, o tempo finalmente é igual, também, pudera, já não era sem tempo. Ou melhor, era pra ser assim o tempo, e desde o início.
E se a democracia é o acesso à todos ao poder porque tanta indignação pelo Tiririca ter sido eleito? Ora, esse foi o regime que escolhemos. Cada povo tem o governo que merece, meus amigos. Os caras que ocupam as cadeiras de nossas Câmaras, do nosso Senado, nada mais são do que um retrato de nós mesmos. Ou do que confiamos. Eu, por exemplo, fico muito mais indignada vendo Paulo Maluf e Jader Barbalho (que já tiveram suas chances e se mostraram grandes ladrões) se reelegerem do que figuras como Tiririca. Por que tanto preconceito com um cara que ainda nem assumiu? Pelo menos, ele é o único cujo figurino condisse com o discurso. Ele escolheu tal discurso justamente por isso, e se ele tiver proposta?
Aí me vem um cara como o imbecil do Felipe Neto me falar dele e de política no youtube. Primeiro, alguém por favor, avisa pro Felipe que o Executivo não governa sozinho? Que existe uma coisa chamada tripartição de poderes e que Presidente nenhum pode fazer alguma coisa sem o apoio maciço do Legislativo?
E ele vem reproduzir no youtube - um dos maiores meios de comunicação hoje - justamente o senso comum: que o voto do outro é burro. Que o eleitor não sabe o que quer, vota por esmola e não por quem realmente vai melhorar o país. Pra começar, desde quando existe uma fórmula para medir se o voto foi consciente ou não? O que exatamente determinaria isso? É muita hipocrisia você querer achar que só quem vota no seu candidato sabe de alguma coisa. Tem o cara que vota porque o candidato diminuiu a fome no país. Isso é errado? Todo mundo só fala em "educação, educação e educação", mas quem consegue estudar com fome? Ao meu ver isso também é uma forma de melhorar o Brasil. O outro vota porque o candidato criou o genérico. E aí? Esse voto não é consciente? Quando alguém me provar que existe uma única fórmula para melhorar o país eu páro de escrever. A minha proposta para melhorar é diferente da sua, diferente da de alguém que mora no Acre, diferente de alguém que mora do Rio Grande do Sul... e aí? Qual a certa? Só em educação, por exemplo, existem mil fórmulas: estatizar, aplicar 15% do PIB, ou simplesmente capacitar mais os professores. "As pessoas não votam em quem realmente vai melhorar o Brasil." Como você sabe? E se o candidato que a maioria vota tiver um modo específico de melhorar o país que elas acreditam, mas, você não? 'Melhorar o Brasil' é tão abrangente quanto a palavra Deus na infinitas religiões que existem, e enquanto não tiver uma fórmula única e imutável para isso, esse discurso é vazio.
É exatamente isso que o discurso do humorista Felipe Neto é: vazio. Qualquer pessoa que tenha mais de 13 anos, que tenha estudado política, ou que saiba alguma coisa sobre Constituição deveria saber disso, e não ficar idolatrando o que parece óbvio. Votação é uma coisa muito subjetiva, justamente por revelar valores subjetivos. O problema é que ninguém parece entender que as verdades não são excludentes, todos querem que as suas convicções sejam aceitas por todos, ninguém percebe que não existe uma convicção melhor que outra: é tudo questão de ponto de vista.
Mas é isso aí, vamos continuar falando mal do voto do outro. Vamos continuar achando que o eleitor é burro, que os outros 200 milhões não sabem de nada e que a gente é que sabe. Só aprenda que na democracia ninguém persegue um bem comum utópico que na verdade nem existe, até pelas discrepâncias absurdas entre os seres humanos; muito menos chega-se num consenso, impossível tendo em vista essas mesmas discrepâncias e a diversidade do país. A democracia é simplesmente isso - a ditadura da maioria, pois, sempre será a maioria que irá eleger nossos representantes. E se queremos mudanças, devemos começar primeiro por nós mesmos, afinal, como eu já disse, cada povo tem o governo que merece.