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21.10.10

Aquarela do Brasil

Ainda sob o mesmo teto de outubro - política -, hoje, corrupção e diplomacia são o foco.

Continuando a linha de raciocínio do texto anterior, sinceramente, não vejo outra forma de melhoria da situação de barganha que impera dentro de nossos órgãos públicos se essa mudança não começar por nós. Eu não entendo (ou melhor, até entendo, mas não deixo de considerar hipócrita) esse discurso de "abaixo os políticos corruptos", se a própria corrupção está tão enraizada no nosso dia-a-dia. Como eu falei no último texto, os caras que sentam nas cadeiras do poder Legislativo são a nossa representatividade, e representam nada mais, senão, do que nós mesmos. Se nós - falo nós no sentido abrangente do brasileiro, que se autodetermina como praticante do famoso "jeitinho" - subornamos nossos policiais, compramos nossas carteiras de motoristas, pagamos para alguém ficar no nosso lugar na fila -ou seja, se nós somos subornadores, corruptos e corruptíveis no nosso cotidiano -, como pessoas em que votamos não iriam ser? Aquelas pessoas são retratos fiéis de nossas práticas, de nossas crenças, de nossas aspirações. É por esse "jeitinho brasileiro" estar tão enraizado na cultura que o nosso Senado é tão podre, que figuras como José Sarney permeiam o poder desde o início do período democrático. Mudanças? Comece primeiro por você. É preciso abolir primeiro a corrupção da sua vida, para querer abolí-la da vida política.

Acho que é consenso que a corrupção manchou o governo Lula, por melhor que ele possa ter sido. Mas não só a corrupção foi holofote constante do governo como, ainda mais, a política de boa-vizinhança de nosso Presidente. O ponto que quero trazer é que em primeiro lugar, existe uma aspiração à uma tão sonhada cadeira permanente na Organização das Nações Unidas, e em segundo, existe tudo que o Lula em nome dessa cadeira, fez de 2002 pra cá.

Estatização do gás natural brasileiro pela Bolívia em 2008. O que o Presidente fez? Nada - ele precisava do apoio de toda a América do Sul para conseguir a cadeira da ONU. Os Estados Unidos invadem o Haiti em "missão humanitária" - assim como o era no Iraque. O que o Lula faz? Manda soldados brasileiros espalharem a guerra e tornarem ainda mais escassos os alimentos e os recursos naquele país. Aumentam o caos. Os relatos e as estatísticas são péssimos. Até acusados de abusos sexuais já foram. Lula comete no Haiti um de seus piores crimes. O Brasil revela o papel de sub-metrópole que cumpre no continente, de um país explorado que ajuda a explorar a situação de outro ainda pior. Por que as tropas ainda não bateram em retirada? Pelo mesmo motivo que os soldados americanos ainda povoam o Iraque: tudo a serviço do imperialismo ianque. E da tal cadeira redentora da ONU.

Nos últimos meses surgiu o espetáculo que foi as tentativas de pactos com o Irã pelo Presidente. Deixando de lado um discurso de não-desenvolvimento de armas nucleares por determinados países, em detrimento de outros que tudo podem e tudo devem, ninguém deveria concordar em uma sanção hipócrita ao Irã pelo país que mais produz armas nucleares do mundo. Mas à parte disso, e tentando pensar por um outro lado, indo agora de acordo com a opinião de Plinio de Arruda (assumidamente o candidato que obteve meu voto no 1º turno dessas eleições), o que foi fazer o nosso Presidente, senão, ir ao Irã por causa do imperialismo norte-americano tentar selar uma paz e provar para os nossos "amigos" ianques que a nossa diplomacia é forte e que justamente por isso merecemos a cadeira da ONU? O único problema foi o fracasso da missão, que além de ter diminuído a popularidade do Lula no cenário nacional e internacional, de nada adiantou. Ahmadinejad sofreu a sanção prevista. E o que ele fez? Continuou a produzir ainda mais energia nuclear. E sabe de uma coisa? Tinha mais é que ter feito.
Em suma, o que quero deixar no ar ao final de meu texto é: o que ainda falta fazer para nos tornamos membros-permanentes da ONU? E até que ponto vale à pena o fazê-lo? Que interesses países como Estados Unidos, China, Rússia, França e Inglaterra têm em nos tornar? Será que essa cadeira não passa de uma construção imaginária muito cara para um país que já tem tantos problemas internos - e tanta corrupção - como o nosso?
Tudo nos leva a crer que sim.

Um comentário:

João Bosco Maia disse...

Estive já por aqui e cá estou outra vez. Belo espaço para as letras, para a poesia, para o pensamento... para tornarmos mais claros nossos caminhos! Ao mesmo tempo em que te mobilizo para removermos este triste índice de 2 livros/ano por leitor brasileiro (na Argentina são dezoito livros/ano),
te convido a conhecer meus romances. Em meu blog, três deles estão disponíveis inclusive para serem baixados “de grátis”, em formato PDF.
Um grande abraço e boa leitura!