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19.10.10

A ditadura da maioria

Tenho tanta coisa pra falar que não sei nem por onde começo. Todo mundo que lê isso aqui sabe do meu interesse por política, e período de eleição, é prato cheio pros aspirantes à jornalistas políticos de plantão como eu. Vou escolher então, começar meu texto dessa madrugada falando sobre o que mais me incomoda nas nossas eleições ditas democráticas: a influência dos meios de comunicação de massa sobre as mesmas.
Foi um verdadeiro absurdo essa distribuição do tempo da propaganda eleitoral no 1º turno. 8 minutos pra candidata do PV ficar mostrando golfinhos e baleias na televisão, enquanto partidos como PSOL, PSTU e PSDC se comprimiam pra falar de suas propostas em menos de 2 minutos. Que democracia é essa? Como um candidato pode chegar ao poder de fato com essa distribuição, tendo que falar todo o seu projeto de governo em alguns segundos? Desde quando intenção de voto e representação parlamentar devem dar os ditames da democracia?
O mesmo aconteceu nos debates. Eram 9 candidatos. Alguém aí sabe o nome de mais de 5? Na entrevista do Jornal Nacional, por exemplo, o tempo dos candidatos era de acordo com a intenção de voto. Repito: que democracia é essa? Se o acesso aos meios de comunicação não é igualitário, como a escolha pode ser? É um ciclo vicioso, os candidatos que começam com baixa popularidade parecem nunca poder reverter essa situação. E por causa de quem? Em grande parte, por causa da mídia, que teoricamente, deveria ser imparcial. Agora no 2º turno, o tempo finalmente é igual, também, pudera, já não era sem tempo. Ou melhor, era pra ser assim o tempo, e desde o início.
E se a democracia é o acesso à todos ao poder porque tanta indignação pelo Tiririca ter sido eleito? Ora, esse foi o regime que escolhemos. Cada povo tem o governo que merece, meus amigos. Os caras que ocupam as cadeiras de nossas Câmaras, do nosso Senado, nada mais são do que um retrato de nós mesmos. Ou do que confiamos. Eu, por exemplo, fico muito mais indignada vendo Paulo Maluf e Jader Barbalho (que já tiveram suas chances e se mostraram grandes ladrões) se reelegerem do que figuras como Tiririca. Por que tanto preconceito com um cara que ainda nem assumiu? Pelo menos, ele é o único cujo figurino condisse com o discurso. Ele escolheu tal discurso justamente por isso, e se ele tiver proposta?
Aí me vem um cara como o imbecil do Felipe Neto me falar dele e de política no youtube. Primeiro, alguém por favor, avisa pro Felipe que o Executivo não governa sozinho? Que existe uma coisa chamada tripartição de poderes e que Presidente nenhum pode fazer alguma coisa sem o apoio maciço do Legislativo?
E ele vem reproduzir no youtube - um dos maiores meios de comunicação hoje - justamente o senso comum: que o voto do outro é burro. Que o eleitor não sabe o que quer, vota por esmola e não por quem realmente vai melhorar o país. Pra começar, desde quando existe uma fórmula para medir se o voto foi consciente ou não? O que exatamente determinaria isso? É muita hipocrisia você querer achar que só quem vota no seu candidato sabe de alguma coisa. Tem o cara que vota porque o candidato diminuiu a fome no país. Isso é errado? Todo mundo só fala em "educação, educação e educação", mas quem consegue estudar com fome? Ao meu ver isso também é uma forma de melhorar o Brasil. O outro vota porque o candidato criou o genérico. E aí? Esse voto não é consciente? Quando alguém me provar que existe uma única fórmula para melhorar o país eu páro de escrever. A minha proposta para melhorar é diferente da sua, diferente da de alguém que mora no Acre, diferente de alguém que mora do Rio Grande do Sul... e aí? Qual a certa? Só em educação, por exemplo, existem mil fórmulas: estatizar, aplicar 15% do PIB, ou simplesmente capacitar mais os professores. "As pessoas não votam em quem realmente vai melhorar o Brasil." Como você sabe? E se o candidato que a maioria vota tiver um modo específico de melhorar o país que elas acreditam, mas, você não? 'Melhorar o Brasil' é tão abrangente quanto a palavra Deus na infinitas religiões que existem, e enquanto não tiver uma fórmula única e imutável para isso, esse discurso é vazio.
É exatamente isso que o discurso do humorista Felipe Neto é: vazio. Qualquer pessoa que tenha mais de 13 anos, que tenha estudado política, ou que saiba alguma coisa sobre Constituição deveria saber disso, e não ficar idolatrando o que parece óbvio. Votação é uma coisa muito subjetiva, justamente por revelar valores subjetivos. O problema é que ninguém parece entender que as verdades não são excludentes, todos querem que as suas convicções sejam aceitas por todos, ninguém percebe que não existe uma convicção melhor que outra: é tudo questão de ponto de vista.
Mas é isso aí, vamos continuar falando mal do voto do outro. Vamos continuar achando que o eleitor é burro, que os outros 200 milhões não sabem de nada e que a gente é que sabe. Só aprenda que na democracia ninguém persegue um bem comum utópico que na verdade nem existe, até pelas discrepâncias absurdas entre os seres humanos; muito menos chega-se num consenso, impossível tendo em vista essas mesmas discrepâncias e a diversidade do país. A democracia é simplesmente isso - a ditadura da maioria, pois, sempre será a maioria que irá eleger nossos representantes. E se queremos mudanças, devemos começar primeiro por nós mesmos, afinal, como eu já disse, cada povo tem o governo que merece.

Um comentário:

Raíssa disse...

Concordo com tudo isso. Eu já discuti sobre o tempo de cada candidato com a mesma indignação com que falas. Sabe, no nosso país a corrupção é a regra e a exceção é a honestidade. "Estado Democrático de Direito"... Piada, né?!! Enfim, prefiro não me manifestar muito sobre política, faz mal pra minha saúde e eu me sinto frustrada.
Só estou assinando embaixo e mostrando minha indignação também.
beijos