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25.10.10

O mito da "necessidade histórica"

O ser humano, dentro dos limites da sua liberdade, variáveis em lugares e contextos, tem certo livre-arbítrio para tomar as decisões que permearão sua vida - ou tem, em tese, racionalidade para tal. Isso coloca as decisões humanas no foco da narrativa histórica, pois, se o ser humano é formado também pelas suas atitudes, pela maneira como se comporta frente à necessidade de agir, e a história é contada com base no homem, ela também pode ser contada com base nas suas escolhas, nas suas decisões em momentos cruciais, como bem afirma a teoria a qual diz que a história na verdade são picos de acontecimentos relevantes.
Quando a religião anglicana foi fundada na Inglaterra e os puritanos começaram a ser perseguidos, eles podiam ficar e lutar para tentar fazer uma Revolução, podiam se converter ou podiam fugir. Dizer que o povoamento das 13 colônias da América pelos puritanos foi uma necessidade histórica, é desresponsabilizá-los pela escolha que tomaram.
Esse discurso tira a responsabilidade do homem e a coloca no motor invisível da história. Mas, quem faz a história senão o homem? Dizer que os acontecimentos levaram a Santa Inquisição a torturar e matar, considerando a menor manifestação científica, por exemplo, como heresia, é tirar o mérito (ou o desmérito) dos que fizeram esta escolha. Claro, nada pode surgir do nada, as decisões foram sim baseadas nos antecedentes históricos e no que eles pensavam sobre o futuro, mas existem inúmeras maneiras diferentes de reação, justamente pela única peculiaridade do gênero 'Homo sapiens' ser a sua capacidade de se diferenciar, e eles escolheram agir assim. As pessoas não necessariamente têm de fazer determinadas escolhas, ainda que as circunstâncias as tornem mais atrativas sempre existem outras. Sempre existe mais de dois lados da mesma moeda. Não é porque a história foi assim que ela necessariamente teria de ser assim.
Se estamos onde estamos hoje, é sem nenhuma dúvida também pelas escolhas do passado e, portanto, se algo tivesse sido milimetricamente acontecido de maneira diferente, as consequências também o teriam sido, onde talvez nem pudéssemos reconhecer semelhanças com o nosso mundo tal como é hoje. Mas, e daí? Se as outras escolhas nos levariam à outros caminhos, quem pode garantir que eles não seriam melhores? Sinceramente, dizer que as circunstâncias obrigaram o Stálin ou o Franco a perseguir tão ferronheamente seus opositores, ou, como inclusive o Jarbas Passarinho já afirmou, que os militares no Brasil torturaram por uma "necessidade histórica" é legitimar crimes que não necessariamente tinham que ter acontecido - e legitimar práticas semelhantes no presente, para que possam ser justificadas no futuro. É isso que queremos?

Um comentário:

Raíssa disse...

Concordo. E acredito que ainda temos muito o que aprender no que diz respeito a essas escolhas, porque até hoje o lado ruim da moeda é bastante evidente.
Beijos